O que vai ser feito?
O bom do que passou
é ter visto que tem gente
que se candidatou, que votou,
interessando-se pelo país e seu horizonte.
Vencidos e vencedores
lutaram por algo, talvez do ego pessoal,
talvez a interesse de corruptores,
ou talvez isentos, movidos pelo interesse
geral.
Quais as reais intenções?
Todas serão reveladas ou não,
às claras em confusões,
que certamente repetirão
jeitos do passado em feias ações?
Os vencedores ,
o que vão repetir, copiar,
inovar ou continuar
cada dia vai contar
ao povo com ou sem dores?
Seja lá como for, a Nação
algo vai aprender,
evoluir de geração em geração,
no nascer ou no morrer ,
sempre alguma histórica patacoada-lição.
Quem puder que olhe para trás
e veja que tudo já foi muito pior
e que o presente traz
algo de vencedor
é o que a democracia faz.
E assim vemos todos com fé e esperança;
um dia o Brasil vai para algum lugar,
depois de tanta prometida mudança;
será um mundo novo e vai avançar,
esse subdesenvolvimento ainda é uma criança.
Cada um do povo votou em sua particular utopia e dentro em breve nem saberá em quem votou. Os eleitos, com seus passaportes para o mundo dos nobres passageiros, estarão mergulhados em desafios novos, conhecer “os trâmites e quem é quem ” de suas casas legislativas, atividade suficiente para esquecer o que prometeram e que existe um povo. Contrariar essa normalidade já seria uma renovação.
Milhares mostraram ter dado as costas para à política e sua
revolta silenciosa refletiu nacionalmente, mas não gerou qualquer reflexão. Uma
tendência que vem aumentando há décadas, face ao péssimo desempenho dos atores
da cena pública.
As instituições poderosas aparecem em cenários
desmotivantes com destaque para muito estranhas na manifestação de seu ego e
megalomania. O que era para ser sinfonia vira ópera bufa, o que era para ser
comédia acaba em tragédia. A pizza pode ser a festa de uma tragicomédia. O ápice foi atingido com as notícias sobre a
mulher da balança e isto fez a marca da gestão da pátria brasileira neste
quadrante da História. Os três poderes determinaram a qualidade do conjunto da
obra e a plateia respondeu com abstenção
jogando no palco suas impressões. Muitos milhares viraram as costas para o
cenário público, uma espécie de desobediência civil, punida com menos de 4
Reais. O termo mais ajustado seria alienação civil, uma inconsciente vontade de
libertação.
E agora vai ser iniciada uma nova rodada. A
bilheteria ainda está fechada, mas os atores já se aprontam com suas intenções
partidárias e extrapartidárias, todas aptas a serem misturadas no jogo do poder
de tornar o interesse privado em oficial?
Do lado de fora, a vida continua e a população
passa pela frente do teatro, esperando o mínimo. Pouco interesse e meios de participação, mas
no fundo há a utopia pessoal que ainda espera e tem fé em alguma coisa.
Talvez desta vez, os eleitos mostrem às novas
gerações que não serão iguais aos eleitos e reeleitos do passado; que deixarão
de ser farinha do mesmo saco; que não vão fazer da função pública o
seu esperado balcão de negócios; que não vão vender vírgulas e palavras em
projetos de lei para beneficiar seus financiadores; que “ não vão aproveitar o mandato para se
fazer “; que não farão do interesse privado o interesse oficial; que não usarão
do carteiraço para serem respeitados e abusar do poder; que não se ajoelharão
ao ego maligno; que não colocarão “o eu por primeiro” e acima de tudo; que
terão interesse pelo país mesmo que isso custe a reeleição; que não serão
demagogos e mentirosos no dia a dia; que não vão se corromper diante de ofertas
financeiras e vontade de fazer tudo para se reeleger.
A esperança do eleitor é que eles não se iludam
com o poder; que não sigam o cantar da sereia de empresários e banqueiros
surgidos do nada; que não se iludam como a megalomania dos altos círculos; que
na dúvida, pensem no Brasil em primeiro lugar; que o mandato não seja o
passaporte para a desonra, cadeia e
difamação; que não cedam aos interesses da máfia estrangeira e nacional; que
não cedam a propostas perigosas de financiadores. Esta longa enumeração já
mostra por si só o mundo sujo em que estarão transitando.
Atitudes como essas seriam renovação ao pé da letra, esta seria a mudança do Brasil. É quase utopia desejar isso, mas seria o
certo, o correto, o justo para todos e é nisso que o eleitor pensa quando
escolhe um nome.
E mais uma vez partimos para uma nova rodada de
esperança e fé. É bom repetir que no passado todo esse processo já foi bem pior
e não havia internet. A História Comparada, quando olhada bem de perto, mostra
o quanto evoluímos. Hoje, como população temos mais acesso, mais informações,
sabemos mais, mesmo que num oceano de icebergs, onde só vemos o topo, mas no
conjunto temos a noção da obra toda e formamos um consenso coletivo, certo ou
errado.
E no todo, sempre que os meios de comunicação
divulgam notícias do seu escolher exceções com interesse sensacionalista,
gerando impressão genérica que a fábrica
de decisões, a fábrica de leis e a fábrica de gastos estão em confusão, o peão
do chão da fábrica de todas as classes econômicas, no limite de seu limite de
discernimento, vira as costas, porque não acredita mais e não se importa em
pagar 4 reais. E este desinteresse não é só em relação à vida pública, mas
aparece no dia a dia nos relacionamentos pessoais e profissionais com a
negligência, relaxo, desconsideração do Próximo, imperícia, incompetência,
sensação de que tudo é golpe, insegurança nos serviços operacionais,
insegurança contratual, etc.
E quanto ao evento das recentes eleições, antes
havia o suspense e a interrogação passageira e localizada, agora há interrogação e o suspense de como tudo vai continuar
evoluindo no processo sócio- político- cultural, agitados pelos dramas
econômicos dentro do cofre cheio, mas dessa vez quase todo destinado. O equivalente ao um cofre vazio.
O que mudou? Nada, porque os problemas de fundo
tampouco são meramente materiais, pois o país afunda gravemente em aspectos
educacionais, científicos, espirituais. Mas o invisível não é acessível para os
que não pensam e não leem. Há no buraco mais profundidade do que se pode
imaginar, observar e questionar. “ O país está doente”, segundo Teory Zavascki,
falecido em 2017, ministro do STF. Não é teoria, é prática efetiva e maldosa.
Odilon Reinhardt 3.11.2027