O vento das palavras vazias,
trazendo a miséria
de gramática, de forma;
vive de conteúdo pobre em matéria.
Não só notícias,
música, conversas vazias, inúteis,
o barulho de aparelhos, toda imundícia.
Aumenta no dia a dia,
fazendo linhas e frases,
preenchendo uma curiosidade de agonia.
Segue na realidade
à procura de audição maior
que as faça mentira ou verdade.
No mundo cheio de tanta rede,
muitos serão pegos,
para saciar sua inesgotável sede.
Necessidade de escutar
qualquer coisa que faça barulho
e que afaste o pensar.
Provoca um vento na cabeça cheia,
onde o conteúdo é ainda mais miserável
e os pensamentos e imagens, uma tragédia.
Hoje pensar bem tornou-se algo odioso;
o vento das palavras vazias
é o som da salvação para o ser já pesaroso.
Manter-se com barulho,
nunca pausar para pensar,
caso contrário a mente reativa seu entulho.
Eis o que estão fazendo com o ser humano,
que no barulho acha seu sossego e silêncio,
sua salvação de grande engano.
Tem que haver um barulho.
Vigiai! O silêncio pode estar espreitando.
Não o deixai entrar!, dizem com orgulho.
Há muitos meios de dizer: Atenção! Atenção! O
espetáculo vai começar! E o hoje a mídia usa muitas alternativas, mas o que
interessa é que dentro em breve, a tenda do Pão e Circo estará armada. Tudo
será esquecido; a população será
novamente colocada em estado hipnótico maior. Todos os golpes, os
escândalos, os grandes sucessos e insucessos serão raspados da vida cotidiana e
nada será lembrado.
Pari passu, surge a esperada oportunidade para os grandes e novos esquemas, que certamente já estão sendo desenvolvidos e preparados por grupos de “bons” profissionais formados aqui ou no exterior para ludibriar alguém, mirando os cofres públicos e privados. Será a grande chance de passar as boiadas, pois a porteira estará aberta? Ninguém da população terá ouvidos e olhos para qualquer coisa que não seja o jogo e o pós- jogo, os gols ou a ausência deles?
Assim, entramos no período de abstração nacional, o verdadeiro passaporte, o passe-livre, o salvo-conduto para colocar golpes em ação. Fazer bilhões como pipoca fossem sem fazer ruído nem cheiro.
A torcida dos interessados foca a duração do
efeito hipnótico. Quanto mais dias, melhor. Depois vem a taça de ouro, só
deles, e a riqueza da merecida impunidade bem remunerada aqui mesmo ou no
estrangeiro. Passarão as boiadas, tudo invisível, um período de maravilha.
E a imprensa arraigada ao princípio de que “só cabe uma notícia no mesmo tempo e local” ficará limitada ao vazamento de informações, ao desabafo que quem não recebeu a sua parte, aos deslizes destoantes de envolvidos na mídia querendo aparecer ricos, às euforias dos gangsters em eventos eufóricos fora da normalidade do acúmulo e desfrute de material. Há sempre muita criatividade e diversidade no cenário nacional, de modo que o show está garantido, no entanto, mesmo que a divulgação tenha viés político, durante o intervalo, pouco ou nada disso alimentará o sensacionalismo e muito será guardado em banho-maria com tendência a ser esquecido, face o acúmulo de casos para a seletividade midiática. Muito será guardado e o mundo terá que aguardar a volta à normalidade, enquanto focado na TV de qualquer tamanho, esperando pelos gols da pátria de chuteira.
E assim a vida vai continuar cheia e vazia numa materialidade difícil, dura e pesada para milhares. É uma rotina também sujeita a pequenos espetáculos de teatro de revista, um pão e circo menor, mas persistente com efeito aguardente. Para manter o sucesso de bilheteria, em dias mais monótonos, sempre há os pequenos golpes que ocorrem nas negociatas, verdadeiros roubos de galinha entremeados por acidentes, crimes hediondos já banalizados e alguma violência contra algum pet, como orelha ou o caramelo das ruas. Como boi de piranha vale tudo.
O certo é que a qualquer momento, em algum lugar do país ou em escritórios internacionais mais sofisticados do exterior, algum grupo de profissionais de Faculdade com PHD e tudo, deve estar tramando um golpe inédito, um que acumule riquezas em tempo recorde, seja veloz e eficaz, e não leve ninguém ao jornal e à cadeia, garantindo assim, a preciosa e desejada impunidade total e irrestrita a bagrinhos e figuras de proa, os intocáveis, fluídos e evaporáveis.
Para a caracterização de terrorismo ou não, dever-se-ia considerar não só a intenção do autor, mas as consequências do estado a que as vítimas são submetidas. Num estado de permanente possibilidade de fraudes violentas contra o patrimônio, qual a qualidade de vida do indivíduo?
Odilon Reinhardt 3.6.2026.


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