sábado, 1 de outubro de 2016

As ruas de tantas faces.



Blog  1.10.2016 


 





                                         As ruas de tantas faces.


Andando pela rua da cidade, pode-se ver um povo.

Rua de feições
preocupadas, cansadas,
estressadas, enfezadas,
rua de muitas visões.

Rua de caras
estafadas, enrugadas,
tristes, perturbadas,
rua de caras secas.

Rua de rostos
fechados,cabeças baixas,
silenciados, amassados,
rua de olhos desgostosos.

Rua de semblantes
carrancudos, soturnos,
uniformizados, massificados,
rua de pessoas de olhares distantes.

Rua de faces
soterradas, desfiguradas,
rotineiras, infernizadas,
rua de calçadas e seus trastes.

E tantas são as ruas
com almas e suas fachadas,
indicando as realidades suas.

Tantas faces caladas
escondendo situações,
tantas, brutalizadas.

Tantos são os vulcões
por trás de tantas pessoas;
todos prestes a fazer suas explosões.

E assim vão as pessoas pelas ruas,
carregando suas faces pesadas,
com expressões caladas e não só suas.

Iludidas, dissimuladas, maquiadas, escondidas,
enfeitadas, falsas, vingativas, ameaçadas,
humilhadas, diminuídas, enfeitiçadas, emocionadas,
ressecadas, encurraladas, intrigadas.

Assustadas, afogadas, frustradas, deprimidas,
irritadas, insatisfeitas, contrariadas, reprimidas,
fechadas, contraídas, enlutadas, apertadas,
sofridas, nervosas, surpreendidas, desanimadas.

Desesperadas, contrariadas, aterrorizadas, iradas,
escravizadas, encarceradas, enganadas, inseguras,
instáveis, espantadas, abatidas, desamparadas,
intimidadas, desiludidas, carentes, alarmadas.

Satanizadas, condenadas, feridas, horrorizadas,
silenciadas, desenganadas, chocadas, anestesiadas,
dormentes, embrutecidas, enfraquecidas, sombreadas,
constrangidas, fingidas, endividadas, escancaradas.

Angustiadas, endiabradas, infernizadas, empalhadas,
amedrontadas, fingidas, judiadas, descontroladas,
descontroladas, desgovernadas, inchadas, embatatadas,
oprimidas, culpadas, inferiorizadas, vitimizadas, estarrecidas.

Enfurecidas, enciumadas, orgulhosas, invejosas, enciumadas,
desequilibradas, bloqueadas, manipuladas, paralisadas, congeladas,
patéticas, afobadas, estiradas, superadas, esquecidas, anônimas,
entristecidas, apagadas, suprimidas, violentadas, esticadas, roubadas.

Desencorajadas, desacreditadas, envelhecidas, envergonhadas,
afrontadas, desafiadas, reveladas, desenganadas, desfiguradas,
alienadas, compenetradas, isoladas, rebaixadas, fracassadas,
atiçadas, desafiadas, agredidas, desaprovadas, rejeitadas.

Espezinhadas, entregues, caídas, apressadas, violentadas,
condicionadas, uniformizadas, dominadas, maltratadas,
empobrecidas, esvaziadas, classificadas, rotuladas, asfixiadas,
desclassificadas, arrasadas, indignadas, desconfiadas. 

Ruas da cidade,
corredores do dia à dia,
a realidade.

Subidas e descidas,
ladeiras da crise,
almas desiludidas.  

Poucas faces alegres, satisfeitas, descontraídas,
sorridentes, felizes, abertas, animadas, contentes,
livres, iluminadas, brilhantes, claras, inspiradas,
entusiasmadas, positivas.

A grande maioria que vai pela rua
tem caras estafadas, preocupadas, apavoradas,
decepcionadas, ressabiadas, arrependidas, enrugadas,
pasmadas, aflitas, de natureza tosca e crua.

E na rua de tantas caras há um silêncio,
barulhento, profundo em sua mensagem,
uma insatisfação maior que qualquer estipêndio.

Já houve períodos desse silêncio antes,
tão perturbador que acabou com um Governo,
continua agora com as consequências de antes.

Esta infindável crise, esta perpétua depressão,
o país encalhado, a Pátria enrolada,
um Governo materialista que comprometeu a Nação.

Mas não é de agora,
tudo é um processo de décadas
e piora a toda hora.

E assim vai a rua
em calçadas de vidas descalçadas,
expondo a verdade crua. 

Neste vai e vem,
vive-se com medo do humano
e há solidão no caminho de todo ninguém.

Casas e prédios com grades e alarmes,
cirenes e cercas de ferro e vidro,
todos fogem dos estranhos infames.

O vai e vem na rua do desencontro,
de cada bairro e vilarejo,
onde deveria haver alegria no alegre encontro. 

Tantas faces pensando em se esconder,
escorrem pelas ruas, encaram o Próximo como inimigo,
mas ali tudo se pode ler e entender.

O que vai na mente
deve estar num dos adjetivos acima,
e assim vai essa gente.  

Que país é este, onde há uma insatisfação patológica, comprometendo o corpo e a mente? Onde um ex-presidente diz abertamente que montou uma quadrilha para tirar 30 milhões da miséria?

Certamente, o ego de cada um faz parte disso e o Governo, materialista de primeira hora, só pensa que obras eleitoreiras poderão alavancar o processo de crescimento individual e coletivo de um modo totalitário de pensar ele ser o salvador paternalista que melhorará este carcomido estado de espírito. A Nação ficou e está ainda mais doente. A cura levará de 60 a 100 anos. É questão de maceração histórica, de evolução humana. Dificilmente os respingos da evolução de países mais avançados poderá fazer o doente melhorar subitamente e tampouco alguma solução virá da foice e do martelo ou qualquer de suas variantes imbecis. Nem um celular novo, uma estrada nova nem qualquer tecnologia material poderá amenizar as doloridas etapas do porvir até a cura numa geração futura. Gerações foram gastas no corte das matas e no estabelecimento do básico, tantas outras serão gastas até a civilização. 

Improvável que a psicologia de massa possa criar um circo tão fantasioso equivalente a um sofá de Lacan ou qualquer outro, a fim de tratar uma doença tal qual a do cachorro vira-lata , a qual não surgiu hoje, mas ao longo de décadas. Há crises neste país desde sua descoberta. A crise atual é só um estágio da crise histórica. Inegavelmente grave e com destino à violência maior.

A contrariedade sempre foi uma raiz; o ego pessoal e coletivo sua seiva. Nem ricos nem pobres estão satisfeitos. Por dentro há uma pobreza gritante, uma carência retumbante, uma insatisfação contaminante da mente. O sorriso é estérico, eufórico ou irreal e cínico. Poucos, muitos poucos livrar-se-ão de todo este perene clima desmotivado, mas violento.  

Muito embora a realidade de décadas tenha produzido faces tão amarguradas, os últimos culpados, ocupantes do Poder, construíram uma fantasiosa economia com inglório castelo de areia. Cegos pelo poder e pela ambição pessoal de ostentar e acumular riqueza pessoal, aproveitaram-se da carência nacional, da miséria do povo para saquear os cofres públicos. Falharam  horrorosamente e  mesmo assim ainda recebem a seu favor frases como “ é tudo parte de um espetáculo “, “ é uma estratégia ilusionista “ etc, etc. Tal risível discurso coloca a Nação na posição de idiota numa fantasiosa ópera do malandro.  

Fato é que a miséria nacional sempre foi bom discurso de oposição e desta vez serviu para alavancar a febre do doente, deixando-o prostrado em terra insegura. Mais uma vez usaram o povo. A demagogia e a fantasia eram cortinas para uma rapinagem de tamanho bilionário. E ainda tiveram o peito de dizer que era tudo democracia. Talvez fosse para eles, em seu fechado clubinho vermelho, onde o lema seria “ todo mundo poderá roubar igual e ficaremos no poder para sempre” , democrático , não?

Não deu certo, o dinheiro foi acabando. A casa foi caindo. Carniça no fim, urubus em trajeto de afastamento. Mas não queriam largar os ossos, não acreditavam que toda a fantasia estava no fim. De suas mansões e estilo de vida similares às das quichotescas e imaginárias “elite”,  muitos passarão algum tempo em espaços confinados minúsculos.

Resta perguntar qual o grau de participação de Governos nestas faces de tantos adjetivos ao início enumeradas. Faces dos populares e também dos ricos, que por si só expressam o ego contrariado de há muito tempo numa vida marcada pelo fisiologismo e muito pouco esclarecimento e consciência. Muita irritabilidade, impaciência, intolerância descamba para a hedionda violência crescente. 

Na verdade um paraíso para psicólogos, psiquiatras e psicanalistas que aproveitam a fartura de problemas, sem propor nada para a saúde coletiva da fazendola Brasil. Ninguém critica ou propõe nada contra o avanço do individualismo e do materialismo na terra da feirinha de eletrônicos.

Apesar da contribuição que a cultura política, os políticos e a administração da economia da fazendola possa ter contribuído para a expressão das faces das pessoas, não se pode negar que todas estas faces andam por aí, explodindo e fazendo clima na fila do banco, no assalto e nos homicídios, no arrombamento, na praça, nos locais de trabalho em empresas e escritórios, onde tradicionalmente já há um certo fascismo entre as pessoas, nas casas de família e em todos os locais da Pátria, arrastando os níveis de vida neste país.

Que medidas trarão alívio, mesmo que temporário, para dar uma chance a tais faces. Talvez um bom humor, um sorriso? Utopia ou realidade? Possibilidade ou improbalilidade?

A Constituição da República tem que cumprir sua missão e conseguir, através do Governo, uma realidade melhor. Com a Justiça Federal que acordou, com o Ministério Público que se libertou e com a Polícia Federal que deixou suas algemas, talvez com a limpeza na corrupção, tudo e qualquer cidadão comece a respirar ares novos e alguém possa sorrir; espero que antes disso,  parte das novas gerações não tenha sido totalmente contaminada a ponto de comprometer o seu próprio futuro. Difícil.

É necessário resgatar o imã do progresso pessoal e coletivo de modo sólido, real e verdadeiro. Nada de castelos de areia e embustes partidários eleitoreiros, fadados a dar uma vida de nobre a líderes pobres de cabeça.

A ausência da corrupção, dando ao cidadão a garantia de honestidade, justiça e seriedade já seria parte de um remédio para reduzir as caras amassadas. Seria já um avanço também para detonar a nivelação por baixo, esta mediocridade que avança no país e faz as pessoas contentar-se com o ruim, como o jogado fora, com a simplicidade tacanha.

Fé e esperança simples já não adiantam tanto. É necessário fé e esperança escoradas na educação, no crédito ao Bom, ao sábio, às ideias boas e inteligentes, algo positivo, progressista para variar.

Mas se não aproveitarmos o momento para irmos para a frente, continuaremos  no clima de frustração, de derrota, de negativismo, de esquerda de botequim, de recalque,  contestando os ricos e “as elite”, tendo como princípio os lemas como a vontade de não trabalhar, de ver o Tesouro como alvo de espoliação, de ver um cargo eletivo ou não no Governo como uma “oportunidade para se fazer”, de ver o Governo como ação entre amigos, de esconder erros de amigos para não manchar o partido no Governo, de  usar a mentira como modo de escamotear realidades etc, etc.

Teremos que, depois de 516 anos, começar do ano 1, aceitando que os impostos não caem do céu e que seu recolhimento forma a receita pública que deve ser usada por um Governo “ from the people, for the people, by the people “, conforme receita de Abraham Lincoln.

E um dia, o Brasil será então diferente, com políticos diferentes num país positivo, de gente com cara amiga, satisfeitas e realizadas, pelo menos na parte que compete ao Governo.  
                                                                     Odilon Reinhardt


terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Rio e o Riacho de cada vila.



                                       O Rio e o Riacho de cada vila.







Entre tantas vilas no país, havia uma quase ao pé da Serra, por onde passavam vários rios, sendo que de tempos em tempos, a população deveria escolher o rio predileto, a ser homenageado numa festa democrática.
Entre os rios do local, podia haver um, o de águas mais experientes, caudalosas, que depois de passar pela vila poderia alimentar o turismo de outras regiões. O rio passava por pinheirais sempre num clima tradicional, inspirador de músicas, folclore e muitas ideias para a vila provinciana na essência.
Outro rio, embora não tão majestoso, era preparado, sério, seguia  com seriedade e humildade, mas enfrentava uma seca, mal podendo alimentar e manter os parques da vila, eis que havia se misturado com águas vermelhas que se revelaram bem  pouco recomendáveis.
Outros rios também possuíam seus valores e histórico na vila, de modo que cabia aos cidadãos avaliar cada um. Como sempre eram os rios os que chamavam a atenção na propaganda e deveriam ser olhados e avaliados para a escolha final. Todavia, o costume da população de não analisar muito bem o rio, desta vez, levantava preocupação mais séria entre alguns poucos cidadãos da vila.  Na verdade, a visão de uma minoria, ainda pensante, estava voltada para o riacho que acompanhava cada rio. 
Cada rio tinha, sim, um riacho que o alimentava a partir de certo trecho. A vila prosseguia sua vida rotineira enquanto cada rio  enfeitava-se para melhor parecer grande e apto aos olhos da população.
A época, todavia, não era de grande ânimo e encantamento, pois os cidadãos da vila, aos moldes de todas as vilas do país, tinham  sofrido um grande baque ao saber de coisas horrendas que haviam acontecido devido a canoas de piratas. Gente dessas canoas havia descido pelos rios então eleitos e penetrado em todas as vilas para negociar, roubar e saquear o que fosse público.  Assim, a vila, com mente provinciana, não esperava muito de rio nenhum, pois já sabia como tudo repetir-se-ia numa roda viva histórica. O rio que viesse a ser escolhido até a data da escolha, mostrar-se ia com todo seu cabedal, mas depois, a realidade do dia a dia na vila poderia mudar tudo; a seca prolongada persistiria e as soluções contariam com pouca margem para obter sucesso.
Nesse quadro, era previsível que o rio vencedor poderia perder água e sofrer pressão a tal ponto de suspender suas atividades, quando então chamaria o riacho para lhe fazer as vezes, agindo como se rio fosse. Era uma hipótese que rondava todos os rios candidatos.
Os provincianos e aldeões, de maior visão, preocupavam-se com esta questão, a do riacho vir a ser chamado para desempenhar a função de rio. Que tipo de águas tinha cada riacho, por onde haviam passado, oportunamente, que tipos de canoas por ele desceriam para chegar à vila? Oportunistas, vigaristas, gente mal intencionada, golpistas?  Que gente chegaria ali?
Sabia-se que pelo menos um dos riachos passava por uma fazenda de palmito e pimenta, cujo dono tinha no passado sido muito importante, outros tinham pouca água e luz e outros ainda tinham um potencial promissor e sério. Os riachos tinham todos características bem distintas, que, todavia, eram pouco ou nada considerados para o dia da escolha.  
O pessoal da vila prosseguia pelos corredores de sua rotina, a maioria esgotados, alienados e cegos pelos seus problemas de ego e da visão concentrada no aqui-agora fisiológico. Poucos  pensavam na escolha que deveriam fazer ou na água do rio ou do riacho que iriam beber. Mal conseguiam ver as calçadas por onde andavam de modo que não tinham a mente suficiente para se preocupar com hipóteses; não era sua tradição nem tinham muitos hábitos pensantes voltados para isso. 
E a vila prosseguia no seu vai e vem com muita neblina. O país, onde a vila estava localizada, passava ainda por momentos históricos no mundo da política, do crime e dos esportes. Todos estes mundos proporcionavam shows suficientes para sessões circenses e distraiam a todos, impedindo maiores preocupações com rios e riachos, os quais naquele ano contavam com poucos meios para alegorias. 
À boca pequena, em vielas do centro da cidade, os aldeões mais experientes coçavam seus bigodes. Sabiam que os rios até poderiam ser escolhidos, mas a questão era voltada para os riachos. Alguns riachos, além de desconhecidos e inexperientes, não teriam a menor chance de fazer as vezes do rio que alimentavam. A vila, de certo modo, estaria  em perigo futuro, numa hipótese que ninguém desejaria que acontecesse.
O pensamento indagativo era, por vezes, amenizado com a fé e esperança, pela hipótese de os ribeirinhos da vila poderem ter paciência e bolso para aguentar a seca e suas consequências. Talvez uma chuva, troncos de árvores robustas nas margens, pedras irremovíveis, poderiam ser o sustentáculo para tal período   destinado ao riacho, mas nem as árvores e nem as pedras tinham mostrado até então tanta força para remover as realidades que já haviam feito o histórico da vila e seu modo de viver e conviver politicamente. Todos se entrelaçavam em relações dos mais variados tipos e no fundo eram todos da mesma água. Perante o povo se opunham , brigavam e mostravam inimizade eterna, mas no clube dos poderosos se abraçavam e riam do teatro feito. 
Eram mesmo poucos os cidadãos conscientes que murmuravam pelos cantos, lembrando que alguns rios e riachos tinham hábitos de envolver e corroer pedras e árvores e não havia garantia alguma de que tais barreiras poderiam ser mesmo eficientes para impedir que canoas com gente ruim descessem pelo riacho e  fizessem coisas ruins. 
A tradicional esperança e fé era a de que a hipótese não se realizasse nunca naquela vila à beira dos pinheirais. Havia também uma velada vontade de que grande parte dos ribeirinhos abrissem os olhos e analisasse a capacidade de alguns riachos, mas era só um sonho idealista de pureza e de mundo íntegro e honesto.
E em todas as vilas do mesmo país, mais de 3 mil, havia este vai e vem, com a população enfeitando o rio de sua preferência e interesse, esperando fosse ele o eleito.
Mas os riachos? Ninguém sabia de alguns riachos e ninguém os enfeitava nem cantava em prosa e verso. O rio eleito levaria consigo o riacho, na usa sombra. E se um único voto, o riacho poderia fazer vezes do rio. Assim, simples, sem qualquer cerimônia. Uma espécie de pacote-surpesa que só seria aberto oportunamente. Nas vilas, a escolha democrática era só para o rio. O riacho era imposto autoritariamente, sem muita expressão, sem jamais sobressair. Era figurante das sombras no teatro político possível. 
Fato era que rio ou riacho, todos teriam que enfrentar o que se passava no ar de todas as vilas: gente dormindo nas ruas, desempregados, lojas fechadas, construções paradas, pessoas caçadas nas ruas para serem assaltadas, violência mortal em toda madrugada, pessoas sem salário e casa, expostas a tudo, famílias abandonadas, comércio sem movimento etc, etc. Tudo por causa de erros na condução do país, com muita ganância e ego dos ditos  poderosos que desceram por rios eleitos democraticamente, mas que em suas canoas só cuidavam de seus umbigos e iludiam os ribeirinhos com suas fantasias num sistema de  economia de mentira e inclusão social sem base alguma num castelo de areia .
Rio ou riacho teriam que enfrentar a realidade posta, pois era em cada vila que se concretizavam as consequências das mazelas nacionais, da cultura de fazer do governo um balcão de negócios, de assaltar os cofres públicos, de mentir e iludir a população sistematicamente. Na vila era que fazia sol ou chovia, que se lavava roupa e se fazia e se encarava a realidade das estatísticas mais duras.  
Entre gregos e troianos, cada rio então fazia sombra para seu riacho, o qual poderia vir a substituí-lo sem qualquer voto.
Assim, naquela vila de passagem entre o sul e o norte, cabia aos ribeirinhos olhar cada rio e o riacho correspondente. O voto, a escolha final estava com cada cidadão da vila.  Cada um dentre eles que escolhesse a água que iria ver passar e eventualmente beber.
Deve-se lembrar que a nível nacional de todas as vilas, no país abençoado por Deus, houvera rio que depois de eleito, até euforicamente escolhido, mediante a aplicação de estratégias de propaganda incríveis, ao invés de passar e ir direto ao mar, havia repartido-se em centenas de riachos, que não formaram nenhum estuário, mas um pântano de águas podres, criadouro de mosquitos venenosos imaginando no entanto, na sua alucinação , fantasia e delírio megalomaníaco,  poderem novamente nas  vilas do país num toque de mágica. Algo cínico e impressionista, esquecendo terem causado danos à população de todos os níveis e explodido os cofres públicos comprometendo o futuro por anos. Algo como ter vendido os ingredientes do bolo antes mesmo de fazê-lo pronto para distribuição. Reféns do seu ego ganancioso, deram vida triste ao ditado muito comum “quem come goiabada com as mãos se lambuza” ou “ quem tem pressa come cru”.
Agora restava esperar que Deus salvasse  a vila, cada vila, todas as vilas. Talvez após tantas prisões e escândalos no assalto aos cofres públicos, a escolha de um rio e seu riacho não fosse mais a autorização democrática para roubar e a cultura do “agora vou me fazer” começasse a acabar.
Rio e/ou riacho teriam então a oportunidade de construir para o povo e para as vilas e o governo talvez deixasse de ser o secular balcão de negócios. Em mais de 3000 vilas, este seria um bom começo após 516 anos. 

Odilon Reinhardt.
 30-8-2016.       

domingo, 31 de julho de 2016

O interesse público. E agora ?



Blog 31.7.2016

 


                                O interesse público. E agora ?




Acabou o dinheiro ou acabou o interesse ”público” para manter alguns na política? Será que haverá interesse privado, suficiente para ser transformado em público, quando não há mais financiamento através dos esquemas já escandalosamente revelados?
Ou será que há muito dinheiro ainda estocado, para as próximas eleições, como caixa “2”? Mas será mesmo que o dinheiro que vier a ser “investido” será depois recompensado através das tradicionais contratações problemáticas? E os corruptores, empresas com interesses em obter privilégios, contrariando a livre concorrência, vão arriscar? Saberão competir no mercado, sem a proteção “oficial”?Deixarão de procurar políticos, para defender seus “interesses”?
As perguntas são muitas, as respostas poderiam ser honestas e resumidas num sonoro “ Não!”. Todavia, sempre persistem a dúvida e a suspeita quanto à morte da impunidade e da malandragem nesta pátria enrolada por uma burocracia e direito processual que pretendia controlar e garantir tudo, mas acabou não controlando nem garantindo  nada.
Quando lemos e ouvimos que pessoas, mesmo já presas, continuam a manter esquemas de “propinagem”, tudo só confirma a suspeita acima. O país dessas pessoas está doente, tomado pela ganância e abuso de poder. Montaram uma economia paralela com banco de fachada e tudo, enquanto a população era iludida por mentiras, há várias décadas.
 Se hoje, na TV a cabo, podemos ver uma série histórica denominada Gigantes do Brasil, podemos ver como surgiram as empresas e empreendimentos de Matarazzo, Martinelli , Faulkar e Guinle. Agora com toda esta revelação, que tende a lavar a realidade, vemos empresas atuais que destruíram oportunidades para o Brasil e sua população por décadas. São as destruidoras de um futuro e serão lembradas pela História, em páginas de revistas e jornais. Era um “grande negócio” construir obras imbecis e manter a população na miséria e ignorância, iludida pela TV e enganada quanto ao seu real desenvolvimento como pessoa.
Então, agora, que as verdades estão boiando no rio, quem terá interesse em participar com dinheiro próprio, honesto na campanha política, se não haverá, espera-se, o milagre de transformar cada real “investido” em um milhão, via obras e serviços para atender ao dito e corrompido” interesse público”?
Até agora,  tudo é expectativa para as próximas eleições. Espera-se que a Justiça Eleitoral questione cada centavo de doações feitas aos políticos e impeça a desova do dinheiro sujo através de pessoas físicas?
Haverá “empresa” que ainda fará doações informais para o caixa “2”, esperando ser beneficiada em futuras licitações ou para “pagar” o já obtido?
Não deve estar fácil achar candidatos idealistas e com dinheiro próprio suficiente. Uma coisa é certa, quem se apresentar deve ser evidentemente o “iluminado“ em termos de ideal cívico e honestidade. Vamos ver quem se apresenta, quem são os honestos e sérios que eleitos poderão resgatar a soberania absoluta do interesse público, efetivamente público, para beneficiar o país em todos os cantos e mostrar à população que os impostos podem construir o país de verdade .
Qual o preço das novas eleições municipais? O limite concedido aos candidatos é suficiente? Seja lá como for, o cenário tem como pano de fundo o desenrolar de uma crise enorme, a retração, a depressão que, com fé e esperança, aguarda-se não vire a demoníaca hiperinflação, o que faria o país mergulhar no  túnel da história para voltar a 1991.
Certo que o interesse público, em sua concepção mais ideal, estará enfraquecido e subordinado à existência de financiamentos. Ideias e projetos serão raros, já que o interesse privado estará desmotivado em pensar tornar-se público com a retirada da expectativa da farta propina. Só os impostos atribuídos ao Município serão insuficientes.
Pequenas e grandes quadrilhas estão sob a mira da Polícia Federal e do Ministério Público. Espera-se o correspondente zelo como dinheiro na gestão estadual e municipal, mas este é outro aspecto que está ainda a se desvandar de modo mais profundo, penetrando nos meandros do castelo dourado de governos blindados nos municípios e estados. Espera-se que nestes “bunkers” também penetre o sentimento patriótico dos órgãos de controle estaduais e que os piratas percam suas naus, seus tesouros e suas galinhas de ovos de ouro nas economias mistas e empresas públicas paradisíacas.
Aberta a temporada de caça aos votos, já se observou a lentidão, a dificuldade em achar candidatos que se ajustem ao novo “establishment”, o da seca nas hortas e a da ferrugem nos cofres do erário público, agora acompanhado pela dos cofres privados. Há um visível esmorecimento, falta de motivação e interesse privado. Os famosos negócios oficiais de balcão, as costuras e as negociatas perderam o encanto secular.
O “interesse público” terá que ser efetivamente público, tendendo a beneficiar a população. Estão abertas as vagas, alguém se interessa?
Mas enquanto a trupe político-teatral prossegue em reuniões fechadas e secretas, pensando nos interesses de seu umbigo egoísta, a população segue no seu dia-a-dia heroico, tentando pagar suas dívidas, o crediário, achar emprego, achar meios de como não devolver o apartamento, não se separar, não devolver o carro, a geladeira , numa rotina alienante, fisiológica e pressionada e “imaginando estar doente”
No mundo político, a podridão do sistema envolve a todos, entre políticos, guerra é guerra, ego contra ego, campo de estratégias do Mal, falsas promessas, traições. O pacote completo.
No país, já meio comandado pela geração “ vai que dá certo “, “ se colar colou”, a memória não é uma qualidade muito eficiente, mesmo porque com tanta denúncia, uma soterrando  a outra, numa infindável maratona, o perdão é quase um meio masoquista de empurrar tudo para mais tarde, numa inocente demonstração de esperança juvenil.
Gente comprometida com escândalos e roubalheira, com e sem precedentes, têm voz na imprensa, usando frases de efeito, que propagandeiam a sua vitimização política, como se a corrupção fosse toda ela parte de um imaginário, foi inventada pelos opositores e adversários. Parece que a corrupção é um direito hereditário dos ocupantes de cargos públicos e não pode ser atacada, denunciada ou averiguada. Para essas pessoas o teatro continua e tudo é questão política.” “ Nada pessoal, é só negócio”. “O show deve continuar....” como se diz no mundo circense.
A política neste nosso amado Brasil, tem modo curioso de obter a permissão popular para que ali o ego possa dançar como desejar; tudo a custo do dinheiro público, feito com impostos de todos. A vitória na eleição é o passaporte democrático para a obter a licença para roubar, desperdiçar, etc. etc.
E tudo pode continuar como foi até hoje. A malandragem é cultural. Não há em termos de qualidade estradas para ir ao porto, não há escolas, hospitais e posto de saúde, segurança e creches etc, mas tudo está ok. Parece que o povo foi anestesiado. Não há comprometimento com o progresso, mas sim, uma grande resignação, que só pode ser explicada pelo altíssimo grau de analfabetismo.
A alienação é estonteante, prato cheio para o planejado individualismo. É como um ditador do norte da África estupidamente disse “ o nosso povo está preparado e pode a qualquer hora voltar a viver em tendas no deserto” .
Se a Nação desejar avançar, transformando toda esta trágica lição de décadas em alavanca de transmutação, terá que deixar para trás sua pobre cultura e modo de fazer política. Estamos no fundo do poço, é ruim e não se aguenta mais.
O modo de fazer política faliu. O modelo se esgotou. Quem serão os eleitos? Não serão eles também arrastados pelo mesmo sistema  político, o qual não pode ser elaborado só pelos próprios interessados em preservar suas mazelas. O Poder Judiciário através da Justiça Eleitoral poderá evitar que a raposa seja a chefe do galinheiro num novo sistema mais inteligente.  

 Odilon Reinhardt .