terça-feira, 1 de novembro de 2016

O supremo poder está na mão de quem?





                            





 




                                       O supremo poder  está na mão de quem?

 1-11-2016

E gritavam “Acabou a Segunda Guerra!”,  “ Morre Getúlio Vargas!”, “ Jânio renuncia!”, “ Extra, extra, o Homem pisa na Lua!” etc. Era o grito do pequeno jornaleiro, nas esquinas e praças das cidades, propagandeando o jornal a ser vendido com notícias que já eram de ontem e que de certo modo o rádio já havia sintetizado para todos os lares no nosso mundo pátrio, ainda sem televisão. Quem comprava o jornal já era uma minoria que corria atrás de detalhes sobre as notícias alardeadas. Mas o tempo levou o pequeno menino jornaleiro. O mundo mudou.
Por décadas, sua excelência, o jornal de folhas de papel foi ainda lido pela manhã na mesa do café da manhã ou na mesa do gerente e  conseguiu sobreviver. A imprensa, em altos e baixos, foi cumprindo sua missão de democratizar a informação. Enfrentou ditaduras e momentos de agonia, censura prévia, conseguindo subsistir. Mas surge e expande-se a televisão, que abruptamente invade os lares e empresas, criando um novo mundo. Cada família subitamente tem um novo convidado para almoçar ou jantar, o âncora do tele jornal, aquele apresentador de notícias, bombásticas ou não, que se sentando à mesa para dar lições de moral, prega subliminarmente doutrinas ou seja lá o que lhe mandarem dizer sobre quem e o que para a Pátria.
Com o mundo televisivo e o avanço tecnológico na área do vídeo, do som e da imagem, as folhas do jornal assumiram com maior relevância  somente a tradicional conhecida função de papel de embrulho, para desavisados comerciantes e consumidores que desconsideravam a contaminação pelo chumbo de suas linhas.
A frase popular ”uma foto vale mil palavras” nunca foi tão verdadeira. Um instante de televisão passou a valer ouro, principalmente para uma multidão de pessoas semianalfabetas, impossibilitadas de adquirir um jornal ou mesmo ler e entender longos textos, geralmente tratando de temas e assuntos referentes a mundos distantes da realidade fisiológica da população.
A imprensa, para não morrer, transmuda-se para a TV em imagens acompanhadas de narrativas sintéticas e rápidas, suficientes para bombardear a mente do expectador nacional através dos telejornais. O intruso domiciliar passou a levar, em horário denominado de nobre, tudo de inesperado, deixando boquiabertos pais e mães perante seus filhos. Deixou de existir o assunto só para mais velhos ou o assunto de mulheres.  Passou a levar também uma chuverada diária de más notícias a título de sensacionalismo como que dizendo a cada família “olha, a desgraça não é só de vocês, está em todo lugar”, diante do que a família até hoje se cala, se conforma e depois vai dormir num certo conformismo existencial. 
A agonia da imprensa escrita prolonga-se com a importância cada vez maior da TV-imprensa. A combinação da imagem com o âncora de notícias em textos rápidos e sintéticos nunca deu tão certo como meio de alugar a cabeça do já não tanto surpreso expectador. O meio é eficaz e pode manipular milhões de pessoas em segundos. Efeito que deixou de ser o da imprensa escrita que sempre exigiu um atributo, o saber ler e o saber interpretar o texto. Mesmo assim, a imprensa escrita, não querendo morrer, recorre a jornais de poucas folhas, de distribuição gratuita, com textos sintéticos, muita imagem, tudo ainda financiado por propaganda de multinacionais, mercado imobiliário, ou pequenos comércios de bairro, mas já com visível desinteresse de muitos apressados motoristas e pedestres. 
A imprensa escrita ganha mais um fôlego, muda para o site, para a internet, para os aplicativos, desesperadamente tentando atingir o diminuto público, o qual já possui as redes sociais como fonte ainda mais sintética de informações essenciais e sem muito detalhamento. Ora, seria o equivalente a dizer “Getúlio Vargas morreu”, com poucas pessoas hoje querendo saber muitos detalhes, mas satisfazendo-se com o título da notícia. E no cipoal de notícias rápidas, viralizando a todo momento, seria até previsível que Getúlio fosse esquecido nos próximos 2 minutos, se a notícia seguinte fosse “ a GM dá 80 % de desconto nos carros do ano passado ainda em estoque”. Haveria mais fila na compra dos carros do que no enterro de Getúlio. O tempo, a velocidade da informação, a sobreposição de notícias exige que o consumidor acompanhe tudo rapidamente para não perder nada, para ficar ligado permanentemente a uma nuvem de total insignificância para sua vida diária onde a banalização, a vulgarização e o estresse já marcam a realidade individual. Equivale a muita fumaça, pouco fogo; muito barulho e ruído, pouca música.
Sites de jornais como o The Guardian, Der Spiegel etc ainda procuram se alongar em matérias de grande diversificação. Mas até quando? Um jornal é uma empresa. Embora o termo imprensa leve a uma ideia de algo geral, a imprensa é feita de milhares de empresas que vendem notícias e anúncios. Como empresa tem seus custos e desafios internos e de mercado. Tudo é dinheiro em cada centímetro rodado. Sem vendas não há retorno, como sobreviver? 
O jornal de folhas está com grandes desafios para sobreviver. Certamente desaparecerá face aos aplicativos de informática e a TV. Por hora, briga com desafios de sobreviver num país onde as pessoas não tem tempo para escrever mais do que quatro linhas em apertadas teclas de mensagens muito mal escritas, geralmente com gritantes, mas desconsiderados erros de Português.   Desafio de sobreviver numa cultura do sintético, o que certamente deixa de lado jornalistas habituados a grandes textos, devendo agora usar o poder de síntese, esperando, mesmo assim, que alguém leia o escrito, já que o semianalfabetismo nacional leva a falta de interesse pelo mundo estatal e sua intrincada terminologia, leva à alienação e ao fisiologismo. As pessoas estão superficiais, cada vez mais fisiológicas. Dizem que só se incomodam se a  notícia for pegar no bolso.
O fato é que a imprensa como empresa de alguém deve sobreviver no mercado e para tal deve sustentar-se com financiadores. O Governo certamente é um dos maiores, pois com TV ou sem ela, tem verba de publicidade direta ou indireta para garantir a sobrevivência de seus porta-vozes extra oficiais. Quem ousa contrariar a imprensa?  Folhas inteiras são financiadas por propaganda oficial sem qualquer motivo a não ser o político e ao pagamento do apoio da imprensa. Empresas públicas e concessionárias de serviços públicos tem monopólio e teoricamente não precisariam fazer publicidade. Por que o fazem e qual o impacto dela na tarifa do serviço? Mas se o Governo deixa de fazer este desperdício, há imprensa que se volta contra, passa para a oposição. Como todo órgão e empresa do Governo é extensão da vontade do governante de manter a vaidade, prestígio e reconhecimento de Poder, o poder da imprensa mostra-se eficaz e deve ser respeitado pelo governante e seu partido. Nada pior do que o resultado divulgado de uma pesquisa de credibilidade contra. Campanha em desfavor resulta em derrota nas eleições.  Afora este aspecto, a imprensa financia-se através de anúncios de produtos, estimulando o consumo de onde surgem os tributos para financiar o Governo e seus “serviços”. O consumo é o motor da economia e não é de se crer que algum jornal tenha se negado a publicar o anúncio de algum produto. Alguma vez algum jornal negou-se a publicar anúncio de cigarro, bebida?   Alguma vez um jornal recusou-se por dinheiro a publicar uma matéria paga mesmo que mentirosa? Talvez sim, talvez não, pois a imprensa, como já dito, é constituída de milhares de empresas cujo objeto é vender notícias. E neste ramo há ética e pouca ética, há moral e pouca moral, dependendo das pessoas responsáveis, suas tendências e seus parceiros, sua ideologia. Neste meio, muitos se perdem, muitos de vendem. O escrúpulo é de momento, podendo um dia ser de Deus outro do Diabo.
E o que falar de decretos e editais do Governo, de folhas e folhas de balanços de empresas obrigadas a publicar nos jornais suas contas e operações financeiras a custo de milhões? Qual o impacto desse custo no produto para o consumidor. Isto faz parte do chamado custo-Brasil? Certamente que sim.  Uma falsa publicidade quando a publicação muitas vezes já está no site da CVM, da Bolsa de Valores ou da própria empresa. Mas tudo era e é feito para sustentar a imprensa indiretamente resguardando sua promiscuidade com o Poder eleito ou não. Isto vai mudar? A CVM até já reduziu as exigências de publicação para certas operações financeiras, mas um mínimo, face à clara inutilidade da publicação e flagrante incoerência quanto ao sigilo da operação.
A imprensa escrita ainda sobrevive custeada pelas fontes acima, mas por quanto tempo? Ninguém lê jornal, pode-se dizer. Não há tempo, não há quem? Talvez só os setores de marketing e comunicação social das empresas que mesmo assim contratam companhias de spot para fazer relatórios sobre todas as notícias que mencionem a empresa contratante.
Em verdade, sobrevive o jornal como dinossauro de uma época que vai desaparecendo.  Por enquanto, tornou-se imprensa escrita para consumo de si mesmo e seu setor de comunicações. 
 Com a crise do jornal escrito, o mundo da tecnologia e da virtualidade fez da TV e da TV-imprensa até agora o supremo poder, podendo fazer cair o Governo ou glorificá-lo. O pequeno jornaleiro agora é o âncora da televisão, o porta voz das mensagens para a Pátria, que com seu humor e personalidade passam ao povo o calor ou a frieza das notícias que se misturam com o almoço e o jantar das famílias.
O jornal escrito está para se retirar de cena. Ficará resumido aos setores mais específicos como as revistas especializadas para o mercado financeiro, economia. Mas o jornal de notícias políticas, este já era, poderá permanecer por algum tempo ainda, mas não para sempre, muito menos para o povo.
Hoje não é raro que pessoas da classe média e alta que já se neguem  a fazer assinatura de jornais e também assistir ao noticiário da TV. É também uma tendência ? A chuverada de más notícias e de falsidades e meias verdades diárias unidas ao desesperado sensacionalismo já esgotam a paciência das pessoas.  Um desafio para a TV também.
Mas a questão maior é a função da imprensa, sua relevância social. Seja ela escrita ou falada, seu papel é essencial. Deve ser livre, deixando que o cidadão seja lá quem for use do discernimento que tiver para interpretar o que está ocorrendo.  A imprensa, no seu conjunto, desde o jornal de bairro ao mais influente periódico e ao meio virtual mais top, deve garantir ao cidadão seu direito de tirar conclusões e assim identificar quando há mentira no discurso oficial ou não. O cidadão de todas as classes sociais independentemente de sua classificação econômica pode estar sofrendo de suas misérias neste país, pode estar sofrendo a seu modo os impactos das negligências e corrupção dos políticos na gestão do país, mas ainda é um ser pensante e capaz de tirar suas conclusões.
A imprensa escrita sempre teve problemas para atingir o povo, sempre foi feita para a cidade e para quem ali vive nos meios políticos e econômicos nas relações de Poder, no serviço público. O povo do dia a dia, sufocado pela miséria gerada pelo próprio mundo que a imprensa quer garantir, não se importa com a imprensa escrita, a menos que falte papel de embrulho. O mesmo não se pode dizer da imprensa pela TV e rádio que são coadjuvantes na formação de opinião e atingem o povo com facilidade. O som e a imagem são implacáveis.
De certo modo a tecnologia do mundo virtual veio até para salvar a imprensa lato senso porque se não fossem os aparelhos hoje disponíveis, já teria sido afetada fatalmente, já que o povo tem outras necessidades e coloca na vista que tanto a ideologia quanto a filosofia são esquemas tais sem as quais a vida continua em rumos tais e quais.  Assim  a TV e o rádio estão sempre ligados enquanto o jornal, lido ou não lido, serve pelo menos para forração do canil etc. 
Mesmo com o rádio, tudo concentrou-se mesmo na TV–imprensa e no modo como o âncora vai passar a mensagem para o povo de todas as classes sociais.  A responsabilidade é grande, pois o seu poder é real e imediato, podendo criar clima de revolta ou angústia, de prazer ou satisfação a nível nacional. E o âncora fala para o povo todo dia e a qualquer hora do dia, se for necessário, sem jamais ter recebido um voto ou ocupar qualquer cargo, podendo manipular palavras e levar à queda do governo ou grande agitação popular.
O supremo poder da TV e do seu âncora concentrou e assumiu, nesta época da imagem e do som, o papel central que era representado pela  imprensa escrita e pela imprensa falada, o rádio.  Sua relevância social é agora incontestável e sem ela ninguém do povo saberia de nada sobre nada.  Recentemente se não fossem as denúncias e reportagens nacionais de esclarecimento sobre a corrupção que minava a Pátria, já enleada numa fantasmagórica névoa de mentiras oficiais, ninguém do povo saberia de nada.
À TV – imprensa ficou reservado o papel de porta voz da democracia , salvaguarda do povo livre. Mesmo que a TV não tenha a mesma rapidez e a imediata reação da informação e imagem transmitida via celular, ninguém irá desbancá-la de sua posição, já que o tempo perdido para o preparo da reportagem e imagens é compensado com a responsabilidade de uma matéria preparada, filtrada e responsável a fim de ir ao ar para o
povo recolhido em suas casas. Será?
Vejamos que no mundo a Primavera Árabe começou num celular e derrubou  Governos.  No Brasil, o mesmo ocorreu com as manifestações de rua em São Paulo, tomando de surpresa o país, os jornais e a TV que perguntavam-se do que se tratava. Só a partir do terceiro dia de manifestação ampla em 2013 é que se começou o processo de explicação e rotulação do movimento, o qual já havia se espalhado para outras capitais. A manifestação que visava tão somente a redução de passagens de ônibus em São Paulo acordou o país de sua letargia. Eis então o poder do celular mesmo acima da TV. Um poder incontrolável, eis que se houver embasamento social local ou nacional, basta um toque no celular e tudo pode pegar fogo sem qualquer interferência da mídia. O supremo poder de agir e criar fatos está na mão de qualquer um. No caso das manifestações de rua acima mencionadas, as mesmas foram acionadas a partir de um celular, deixando de lado todo o aparato de comunicação formal da TV, dos jornais, do Governo, da Justiça, dos órgãos de Inteligência e tudo.  Todos ficaram boquiabertos e inertes diante do movimento popular e sua magnitude. A TV não sabia explicar o que estava se passando e focou tão somente a ações de baderneiros contratados para desmoralizar o movimento e que acabaram atacando agências bancárias e o comércio.  
É o indivíduo e seu celular que podem incendiar as massas. O indivíduo redige e capta a imagem a ser transmitida. O celular vence uma estrutura jornalística de qualquer país, em tempo real, sem aviso prévio, deixando de lado o trabalho responsável de jornalistas profissionais e todo um caro aparato de empresa. Hoje manifestações e passeatas de protesto são agendadas pelo celular sem liderança aparente. Depois é que a TV vai se deslocar para fazer a reportagem.
Jornais, revistas etc. são jogados à obsolescência ou literalmente no lixo porque só publicam o que já aconteceu ontem ou pelo menos depois das redes sociais. Tudo pode “viralizar” em segundos sem qualquer controle de qualidade, ficando 100% dependente da capacidade de discernimento do receptor e sua disponibilidade de aceitar ou não.
E aí temos que destacar a qualidade do dono do celular emissor. É um jovem, é um de partido político, é um cidadão qualquer, um terrorista, é psicopata? Certamente é alguém que tem cabeça submetida aos instrumentos de formação da mentalidade nacional ao longo de sua vida, a cultura de sua classe, de uma geração ou de seu país, do mundo onde transita. E quem formou e conduziu esta cabeça senão a TV, a imprensa escrita e o rádio através de anos e anos de transmissões diárias muitas vezes passando ideologias por meios subliminares, que acabaram muitas vezes na síndrome do cachorro vira-lata, do pessimismo, do negativismo e da ideia de que no Brasil nada dá certo, na luta rancorosa, mas silente entre classes sociais, entre pessoas afrodescendentes.  Alguém ainda se lembra da Rádio de Cuba que era escutada no Nordeste por décadas, quantas mentes atingiu?  
Até agora a imprensa, chamada de mídia, em todas as suas modalidades é que ajudou a formar a cultura do pensamento do dono do celular. Mesmo que a imprensa, através de sua representante mais suprema, tenha exercido papéis de grande relevância como o de garantir a transparência na gestão pública, tenha garantido a democracia, a livre informação, as denúncias sobre injustiças sociais, a garantia à estabilização social, registrado grandes momentos da vida civil, houve, deve-se crer, um descuido, porque no conjunto da obra  e o persistente enfoque em más notícias , falsas ideologias e pessimismo, acabou passando para as pessoas  a ideia de terra–arrasada. Pergunte-se ao dono do celular, jovem ou de meia idade, o que ele realmente pensa dos políticos e do governo? O que ele pensa do país e de seu futuro? Pergunte-se se ele não colocaria fogo em tudo para começar do zero? 
A mentalidade nacional que está na cabeça do povo contrariado, pessimista e já um pouco avermelhado, constituí as entranhas da cabeça do dono do celular, hoje podendo ser intitulado não só o pequeno jornaleiro mas o editor, o dono do jornal e o âncora , ele mesmo, podendo transmitir a mensagem que desejar antes da ação ou reação oficial da TV.
É certo que a TV-imprensa não faz a realidade de onde saem as notícias ,reservando-se o papel de as transmitir à população. Todavia, isto ocorre só em teoria, pois a realidade passa pelo crivo do repórter e do âncora e pelo editor que pode modelar as informações dando o enfoque que desejar. Assim a TV, com seu poder ilimitado de entrar na casa de cada cidadão, dando preeleções diárias à família, atinge o menino e a menina que são chamados a prestar a atenção à TV na hora do almoço ou jantar, deixando de escutar o que o pai e a mãe estavam dizendo. Quem cria a mentalidade nacional então? Quem conduz a boiada para o estábulo e ali dá sua comida diária?
A TV- imprensa deve reformular o seu enfoque para dosar o negativo e o positivo. Enfoque só na desgraça não dá mais. Pode criar uma cabeça errada e fazer o dono do celular aderir a coisas ruins para a Pátria.
O enfoque no positivo, nas coisas boas do país, na necessidade de progresso e sucesso pessoal não prejudicará ninguém.   O enfoque diário  nas mazelas da Administração Pública, seus inquilinos, suas tarefas mal feitas na área da saúde, segurança e educação não pode continuar sendo a ênfase do noticiário, sob pena de criar a falsa imagem de que o Governo é tudo e só o  que temos, deixando de lado as conquistas das empresas particulares, os avanços da tecnologia promovidos pelas empresas de pessoas empreendedoras. Ora, o Governo é um mero e confuso administrador dos impostos resultantes do consumo de bens produzidos pela indústria nacional. O Governo não é de nada, não gera nada, não produz nada e vive com um orçamento muito menor do que o da economia nacional de milhares de empresas. 
Se a TV-imprensa continuar a dar importância quase exclusiva ao Setor Público, a ideia será mesmo de terra arrasada e aí cada dono de celular poderá a seu critério criar ou aderir manifestações bombásticas de consequências inesperadas. O mundo dos interesses políticos é o mundo do ego descontrolado, da vaidade, do ciúme, da inveja, da cobiça, da ganância etc, um mundo podre e nunca deixará de ser. Por que dar holofote só para isto?
O  modelo esgotou. O discurso sub-limiar a favor de ideais ultrapassadas da esquerda, a persistente luta contra os meios de produção e seus donos, a defesa do paternalismo trabalhista e a alimentação da ideia de um Estado central forte, dominante, gerador de empregos etc, não deu e não vai dar em nada, a menos que a intenção seja de república banana, última salvaguarda do pensamento já demolido.
A imprensa tem este desafio, achar um modelo mais positivo, que faça cada cidadão atuar como brasileiro acreditando na sua iniciativa e que as coisas darão certo. O derrotismo não ajudará nenhum jovem.
A verdadeira liberdade de imprensa será atingida quando a imprensa libertar-se do jogo tendencioso entre as forças de oposição e situação e assumir verdadeiramente seu poder de passar uma mensagem progressista e de sucesso de um povo e não a imagem focada exclusivamente no negativo e na derrota diária da ética e da moral. Um povo de cidadãos jovens permanentemente açodados pelo negativismo e sem modelos sadios e fortes de caráter progressista não dará em nada.
Espero que não ocorra o dia em que haja um substrato social tão demoníaco que ao toque de um celular iniciem-se movimentos negativos sem precedentes e que a nada levarão a não ser à desordem e desobediência civil incontroláveis. Nem progresso nem Ordem, só confusão mental e social. Que Nação poderá sobreviver com isto?
Talvez agora, afastando-se o regime corrupto, a fonte de males e injustiças. Talvez agora com o esforço da limpeza nacional promovida pela Operação Lavajato com a esplêndida atuação do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e da Justiça Federal, surja espaço para a imprensa criar um ambiente de otimismo e progresso, sem ser taxada de fascista.  A mudança de foco para o positivo dará uma chance ao dono de celular para que ele acredite em algo novo para si, sua vida e seu país. Mas por enquanto o dono do celular é também dono de uma cabeça cheia de dúvidas, contrariada em seu ego, massificada, robotizada, sufocada, estressada e certamente pronto para reagir com violência contra o insuflado castelo de vento. O poder supremo de agir e executar tornou-se imediato e está na mão pouco institucional. Está agora com novo dono.  Se depois a imprensa ,o rádio,  a TV , o Governo e a Justiça vão agir , isto é só no campo de registro do passado ou punitivo e corretivo de ações que já eram.  A qualidade da ação ao celular é que leva à questão: What´s next? A criação de fatos pelo indivíduo depende de um intrincado complexo de itens, mas resultam ou não em consciência e discernimento. Como estão os níveis de discernimento e consciência dos milhares de donos de celular?
Odilon Reinhardt.   

sábado, 1 de outubro de 2016

As ruas de tantas faces.



Blog  1.10.2016 


 





                                         As ruas de tantas faces.


Andando pela rua da cidade, pode-se ver um povo.

Rua de feições
preocupadas, cansadas,
estressadas, enfezadas,
rua de muitas visões.

Rua de caras
estafadas, enrugadas,
tristes, perturbadas,
rua de caras secas.

Rua de rostos
fechados,cabeças baixas,
silenciados, amassados,
rua de olhos desgostosos.

Rua de semblantes
carrancudos, soturnos,
uniformizados, massificados,
rua de pessoas de olhares distantes.

Rua de faces
soterradas, desfiguradas,
rotineiras, infernizadas,
rua de calçadas e seus trastes.

E tantas são as ruas
com almas e suas fachadas,
indicando as realidades suas.

Tantas faces caladas
escondendo situações,
tantas, brutalizadas.

Tantos são os vulcões
por trás de tantas pessoas;
todos prestes a fazer suas explosões.

E assim vão as pessoas pelas ruas,
carregando suas faces pesadas,
com expressões caladas e não só suas.

Iludidas, dissimuladas, maquiadas, escondidas,
enfeitadas, falsas, vingativas, ameaçadas,
humilhadas, diminuídas, enfeitiçadas, emocionadas,
ressecadas, encurraladas, intrigadas.

Assustadas, afogadas, frustradas, deprimidas,
irritadas, insatisfeitas, contrariadas, reprimidas,
fechadas, contraídas, enlutadas, apertadas,
sofridas, nervosas, surpreendidas, desanimadas.

Desesperadas, contrariadas, aterrorizadas, iradas,
escravizadas, encarceradas, enganadas, inseguras,
instáveis, espantadas, abatidas, desamparadas,
intimidadas, desiludidas, carentes, alarmadas.

Satanizadas, condenadas, feridas, horrorizadas,
silenciadas, desenganadas, chocadas, anestesiadas,
dormentes, embrutecidas, enfraquecidas, sombreadas,
constrangidas, fingidas, endividadas, escancaradas.

Angustiadas, endiabradas, infernizadas, empalhadas,
amedrontadas, fingidas, judiadas, descontroladas,
descontroladas, desgovernadas, inchadas, embatatadas,
oprimidas, culpadas, inferiorizadas, vitimizadas, estarrecidas.

Enfurecidas, enciumadas, orgulhosas, invejosas, enciumadas,
desequilibradas, bloqueadas, manipuladas, paralisadas, congeladas,
patéticas, afobadas, estiradas, superadas, esquecidas, anônimas,
entristecidas, apagadas, suprimidas, violentadas, esticadas, roubadas.

Desencorajadas, desacreditadas, envelhecidas, envergonhadas,
afrontadas, desafiadas, reveladas, desenganadas, desfiguradas,
alienadas, compenetradas, isoladas, rebaixadas, fracassadas,
atiçadas, desafiadas, agredidas, desaprovadas, rejeitadas.

Espezinhadas, entregues, caídas, apressadas, violentadas,
condicionadas, uniformizadas, dominadas, maltratadas,
empobrecidas, esvaziadas, classificadas, rotuladas, asfixiadas,
desclassificadas, arrasadas, indignadas, desconfiadas. 

Ruas da cidade,
corredores do dia à dia,
a realidade.

Subidas e descidas,
ladeiras da crise,
almas desiludidas.  

Poucas faces alegres, satisfeitas, descontraídas,
sorridentes, felizes, abertas, animadas, contentes,
livres, iluminadas, brilhantes, claras, inspiradas,
entusiasmadas, positivas.

A grande maioria que vai pela rua
tem caras estafadas, preocupadas, apavoradas,
decepcionadas, ressabiadas, arrependidas, enrugadas,
pasmadas, aflitas, de natureza tosca e crua.

E na rua de tantas caras há um silêncio,
barulhento, profundo em sua mensagem,
uma insatisfação maior que qualquer estipêndio.

Já houve períodos desse silêncio antes,
tão perturbador que acabou com um Governo,
continua agora com as consequências de antes.

Esta infindável crise, esta perpétua depressão,
o país encalhado, a Pátria enrolada,
um Governo materialista que comprometeu a Nação.

Mas não é de agora,
tudo é um processo de décadas
e piora a toda hora.

E assim vai a rua
em calçadas de vidas descalçadas,
expondo a verdade crua. 

Neste vai e vem,
vive-se com medo do humano
e há solidão no caminho de todo ninguém.

Casas e prédios com grades e alarmes,
cirenes e cercas de ferro e vidro,
todos fogem dos estranhos infames.

O vai e vem na rua do desencontro,
de cada bairro e vilarejo,
onde deveria haver alegria no alegre encontro. 

Tantas faces pensando em se esconder,
escorrem pelas ruas, encaram o Próximo como inimigo,
mas ali tudo se pode ler e entender.

O que vai na mente
deve estar num dos adjetivos acima,
e assim vai essa gente.  

Que país é este, onde há uma insatisfação patológica, comprometendo o corpo e a mente? Onde um ex-presidente diz abertamente que montou uma quadrilha para tirar 30 milhões da miséria?

Certamente, o ego de cada um faz parte disso e o Governo, materialista de primeira hora, só pensa que obras eleitoreiras poderão alavancar o processo de crescimento individual e coletivo de um modo totalitário de pensar ele ser o salvador paternalista que melhorará este carcomido estado de espírito. A Nação ficou e está ainda mais doente. A cura levará de 60 a 100 anos. É questão de maceração histórica, de evolução humana. Dificilmente os respingos da evolução de países mais avançados poderá fazer o doente melhorar subitamente e tampouco alguma solução virá da foice e do martelo ou qualquer de suas variantes imbecis. Nem um celular novo, uma estrada nova nem qualquer tecnologia material poderá amenizar as doloridas etapas do porvir até a cura numa geração futura. Gerações foram gastas no corte das matas e no estabelecimento do básico, tantas outras serão gastas até a civilização. 

Improvável que a psicologia de massa possa criar um circo tão fantasioso equivalente a um sofá de Lacan ou qualquer outro, a fim de tratar uma doença tal qual a do cachorro vira-lata , a qual não surgiu hoje, mas ao longo de décadas. Há crises neste país desde sua descoberta. A crise atual é só um estágio da crise histórica. Inegavelmente grave e com destino à violência maior.

A contrariedade sempre foi uma raiz; o ego pessoal e coletivo sua seiva. Nem ricos nem pobres estão satisfeitos. Por dentro há uma pobreza gritante, uma carência retumbante, uma insatisfação contaminante da mente. O sorriso é estérico, eufórico ou irreal e cínico. Poucos, muitos poucos livrar-se-ão de todo este perene clima desmotivado, mas violento.  

Muito embora a realidade de décadas tenha produzido faces tão amarguradas, os últimos culpados, ocupantes do Poder, construíram uma fantasiosa economia com inglório castelo de areia. Cegos pelo poder e pela ambição pessoal de ostentar e acumular riqueza pessoal, aproveitaram-se da carência nacional, da miséria do povo para saquear os cofres públicos. Falharam  horrorosamente e  mesmo assim ainda recebem a seu favor frases como “ é tudo parte de um espetáculo “, “ é uma estratégia ilusionista “ etc, etc. Tal risível discurso coloca a Nação na posição de idiota numa fantasiosa ópera do malandro.  

Fato é que a miséria nacional sempre foi bom discurso de oposição e desta vez serviu para alavancar a febre do doente, deixando-o prostrado em terra insegura. Mais uma vez usaram o povo. A demagogia e a fantasia eram cortinas para uma rapinagem de tamanho bilionário. E ainda tiveram o peito de dizer que era tudo democracia. Talvez fosse para eles, em seu fechado clubinho vermelho, onde o lema seria “ todo mundo poderá roubar igual e ficaremos no poder para sempre” , democrático , não?

Não deu certo, o dinheiro foi acabando. A casa foi caindo. Carniça no fim, urubus em trajeto de afastamento. Mas não queriam largar os ossos, não acreditavam que toda a fantasia estava no fim. De suas mansões e estilo de vida similares às das quichotescas e imaginárias “elite”,  muitos passarão algum tempo em espaços confinados minúsculos.

Resta perguntar qual o grau de participação de Governos nestas faces de tantos adjetivos ao início enumeradas. Faces dos populares e também dos ricos, que por si só expressam o ego contrariado de há muito tempo numa vida marcada pelo fisiologismo e muito pouco esclarecimento e consciência. Muita irritabilidade, impaciência, intolerância descamba para a hedionda violência crescente. 

Na verdade um paraíso para psicólogos, psiquiatras e psicanalistas que aproveitam a fartura de problemas, sem propor nada para a saúde coletiva da fazendola Brasil. Ninguém critica ou propõe nada contra o avanço do individualismo e do materialismo na terra da feirinha de eletrônicos.

Apesar da contribuição que a cultura política, os políticos e a administração da economia da fazendola possa ter contribuído para a expressão das faces das pessoas, não se pode negar que todas estas faces andam por aí, explodindo e fazendo clima na fila do banco, no assalto e nos homicídios, no arrombamento, na praça, nos locais de trabalho em empresas e escritórios, onde tradicionalmente já há um certo fascismo entre as pessoas, nas casas de família e em todos os locais da Pátria, arrastando os níveis de vida neste país.

Que medidas trarão alívio, mesmo que temporário, para dar uma chance a tais faces. Talvez um bom humor, um sorriso? Utopia ou realidade? Possibilidade ou improbalilidade?

A Constituição da República tem que cumprir sua missão e conseguir, através do Governo, uma realidade melhor. Com a Justiça Federal que acordou, com o Ministério Público que se libertou e com a Polícia Federal que deixou suas algemas, talvez com a limpeza na corrupção, tudo e qualquer cidadão comece a respirar ares novos e alguém possa sorrir; espero que antes disso,  parte das novas gerações não tenha sido totalmente contaminada a ponto de comprometer o seu próprio futuro. Difícil.

É necessário resgatar o imã do progresso pessoal e coletivo de modo sólido, real e verdadeiro. Nada de castelos de areia e embustes partidários eleitoreiros, fadados a dar uma vida de nobre a líderes pobres de cabeça.

A ausência da corrupção, dando ao cidadão a garantia de honestidade, justiça e seriedade já seria parte de um remédio para reduzir as caras amassadas. Seria já um avanço também para detonar a nivelação por baixo, esta mediocridade que avança no país e faz as pessoas contentar-se com o ruim, como o jogado fora, com a simplicidade tacanha.

Fé e esperança simples já não adiantam tanto. É necessário fé e esperança escoradas na educação, no crédito ao Bom, ao sábio, às ideias boas e inteligentes, algo positivo, progressista para variar.

Mas se não aproveitarmos o momento para irmos para a frente, continuaremos  no clima de frustração, de derrota, de negativismo, de esquerda de botequim, de recalque,  contestando os ricos e “as elite”, tendo como princípio os lemas como a vontade de não trabalhar, de ver o Tesouro como alvo de espoliação, de ver um cargo eletivo ou não no Governo como uma “oportunidade para se fazer”, de ver o Governo como ação entre amigos, de esconder erros de amigos para não manchar o partido no Governo, de  usar a mentira como modo de escamotear realidades etc, etc.

Teremos que, depois de 516 anos, começar do ano 1, aceitando que os impostos não caem do céu e que seu recolhimento forma a receita pública que deve ser usada por um Governo “ from the people, for the people, by the people “, conforme receita de Abraham Lincoln.

E um dia, o Brasil será então diferente, com políticos diferentes num país positivo, de gente com cara amiga, satisfeitas e realizadas, pelo menos na parte que compete ao Governo.  
                                                                     Odilon Reinhardt


terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Rio e o Riacho de cada vila.



                                       O Rio e o Riacho de cada vila.







Entre tantas vilas no país, havia uma quase ao pé da Serra, por onde passavam vários rios, sendo que de tempos em tempos, a população deveria escolher o rio predileto, a ser homenageado numa festa democrática.
Entre os rios do local, podia haver um, o de águas mais experientes, caudalosas, que depois de passar pela vila poderia alimentar o turismo de outras regiões. O rio passava por pinheirais sempre num clima tradicional, inspirador de músicas, folclore e muitas ideias para a vila provinciana na essência.
Outro rio, embora não tão majestoso, era preparado, sério, seguia  com seriedade e humildade, mas enfrentava uma seca, mal podendo alimentar e manter os parques da vila, eis que havia se misturado com águas vermelhas que se revelaram bem  pouco recomendáveis.
Outros rios também possuíam seus valores e histórico na vila, de modo que cabia aos cidadãos avaliar cada um. Como sempre eram os rios os que chamavam a atenção na propaganda e deveriam ser olhados e avaliados para a escolha final. Todavia, o costume da população de não analisar muito bem o rio, desta vez, levantava preocupação mais séria entre alguns poucos cidadãos da vila.  Na verdade, a visão de uma minoria, ainda pensante, estava voltada para o riacho que acompanhava cada rio. 
Cada rio tinha, sim, um riacho que o alimentava a partir de certo trecho. A vila prosseguia sua vida rotineira enquanto cada rio  enfeitava-se para melhor parecer grande e apto aos olhos da população.
A época, todavia, não era de grande ânimo e encantamento, pois os cidadãos da vila, aos moldes de todas as vilas do país, tinham  sofrido um grande baque ao saber de coisas horrendas que haviam acontecido devido a canoas de piratas. Gente dessas canoas havia descido pelos rios então eleitos e penetrado em todas as vilas para negociar, roubar e saquear o que fosse público.  Assim, a vila, com mente provinciana, não esperava muito de rio nenhum, pois já sabia como tudo repetir-se-ia numa roda viva histórica. O rio que viesse a ser escolhido até a data da escolha, mostrar-se ia com todo seu cabedal, mas depois, a realidade do dia a dia na vila poderia mudar tudo; a seca prolongada persistiria e as soluções contariam com pouca margem para obter sucesso.
Nesse quadro, era previsível que o rio vencedor poderia perder água e sofrer pressão a tal ponto de suspender suas atividades, quando então chamaria o riacho para lhe fazer as vezes, agindo como se rio fosse. Era uma hipótese que rondava todos os rios candidatos.
Os provincianos e aldeões, de maior visão, preocupavam-se com esta questão, a do riacho vir a ser chamado para desempenhar a função de rio. Que tipo de águas tinha cada riacho, por onde haviam passado, oportunamente, que tipos de canoas por ele desceriam para chegar à vila? Oportunistas, vigaristas, gente mal intencionada, golpistas?  Que gente chegaria ali?
Sabia-se que pelo menos um dos riachos passava por uma fazenda de palmito e pimenta, cujo dono tinha no passado sido muito importante, outros tinham pouca água e luz e outros ainda tinham um potencial promissor e sério. Os riachos tinham todos características bem distintas, que, todavia, eram pouco ou nada considerados para o dia da escolha.  
O pessoal da vila prosseguia pelos corredores de sua rotina, a maioria esgotados, alienados e cegos pelos seus problemas de ego e da visão concentrada no aqui-agora fisiológico. Poucos  pensavam na escolha que deveriam fazer ou na água do rio ou do riacho que iriam beber. Mal conseguiam ver as calçadas por onde andavam de modo que não tinham a mente suficiente para se preocupar com hipóteses; não era sua tradição nem tinham muitos hábitos pensantes voltados para isso. 
E a vila prosseguia no seu vai e vem com muita neblina. O país, onde a vila estava localizada, passava ainda por momentos históricos no mundo da política, do crime e dos esportes. Todos estes mundos proporcionavam shows suficientes para sessões circenses e distraiam a todos, impedindo maiores preocupações com rios e riachos, os quais naquele ano contavam com poucos meios para alegorias. 
À boca pequena, em vielas do centro da cidade, os aldeões mais experientes coçavam seus bigodes. Sabiam que os rios até poderiam ser escolhidos, mas a questão era voltada para os riachos. Alguns riachos, além de desconhecidos e inexperientes, não teriam a menor chance de fazer as vezes do rio que alimentavam. A vila, de certo modo, estaria  em perigo futuro, numa hipótese que ninguém desejaria que acontecesse.
O pensamento indagativo era, por vezes, amenizado com a fé e esperança, pela hipótese de os ribeirinhos da vila poderem ter paciência e bolso para aguentar a seca e suas consequências. Talvez uma chuva, troncos de árvores robustas nas margens, pedras irremovíveis, poderiam ser o sustentáculo para tal período   destinado ao riacho, mas nem as árvores e nem as pedras tinham mostrado até então tanta força para remover as realidades que já haviam feito o histórico da vila e seu modo de viver e conviver politicamente. Todos se entrelaçavam em relações dos mais variados tipos e no fundo eram todos da mesma água. Perante o povo se opunham , brigavam e mostravam inimizade eterna, mas no clube dos poderosos se abraçavam e riam do teatro feito. 
Eram mesmo poucos os cidadãos conscientes que murmuravam pelos cantos, lembrando que alguns rios e riachos tinham hábitos de envolver e corroer pedras e árvores e não havia garantia alguma de que tais barreiras poderiam ser mesmo eficientes para impedir que canoas com gente ruim descessem pelo riacho e  fizessem coisas ruins. 
A tradicional esperança e fé era a de que a hipótese não se realizasse nunca naquela vila à beira dos pinheirais. Havia também uma velada vontade de que grande parte dos ribeirinhos abrissem os olhos e analisasse a capacidade de alguns riachos, mas era só um sonho idealista de pureza e de mundo íntegro e honesto.
E em todas as vilas do mesmo país, mais de 3 mil, havia este vai e vem, com a população enfeitando o rio de sua preferência e interesse, esperando fosse ele o eleito.
Mas os riachos? Ninguém sabia de alguns riachos e ninguém os enfeitava nem cantava em prosa e verso. O rio eleito levaria consigo o riacho, na usa sombra. E se um único voto, o riacho poderia fazer vezes do rio. Assim, simples, sem qualquer cerimônia. Uma espécie de pacote-surpesa que só seria aberto oportunamente. Nas vilas, a escolha democrática era só para o rio. O riacho era imposto autoritariamente, sem muita expressão, sem jamais sobressair. Era figurante das sombras no teatro político possível. 
Fato era que rio ou riacho, todos teriam que enfrentar o que se passava no ar de todas as vilas: gente dormindo nas ruas, desempregados, lojas fechadas, construções paradas, pessoas caçadas nas ruas para serem assaltadas, violência mortal em toda madrugada, pessoas sem salário e casa, expostas a tudo, famílias abandonadas, comércio sem movimento etc, etc. Tudo por causa de erros na condução do país, com muita ganância e ego dos ditos  poderosos que desceram por rios eleitos democraticamente, mas que em suas canoas só cuidavam de seus umbigos e iludiam os ribeirinhos com suas fantasias num sistema de  economia de mentira e inclusão social sem base alguma num castelo de areia .
Rio ou riacho teriam que enfrentar a realidade posta, pois era em cada vila que se concretizavam as consequências das mazelas nacionais, da cultura de fazer do governo um balcão de negócios, de assaltar os cofres públicos, de mentir e iludir a população sistematicamente. Na vila era que fazia sol ou chovia, que se lavava roupa e se fazia e se encarava a realidade das estatísticas mais duras.  
Entre gregos e troianos, cada rio então fazia sombra para seu riacho, o qual poderia vir a substituí-lo sem qualquer voto.
Assim, naquela vila de passagem entre o sul e o norte, cabia aos ribeirinhos olhar cada rio e o riacho correspondente. O voto, a escolha final estava com cada cidadão da vila.  Cada um dentre eles que escolhesse a água que iria ver passar e eventualmente beber.
Deve-se lembrar que a nível nacional de todas as vilas, no país abençoado por Deus, houvera rio que depois de eleito, até euforicamente escolhido, mediante a aplicação de estratégias de propaganda incríveis, ao invés de passar e ir direto ao mar, havia repartido-se em centenas de riachos, que não formaram nenhum estuário, mas um pântano de águas podres, criadouro de mosquitos venenosos imaginando no entanto, na sua alucinação , fantasia e delírio megalomaníaco,  poderem novamente nas  vilas do país num toque de mágica. Algo cínico e impressionista, esquecendo terem causado danos à população de todos os níveis e explodido os cofres públicos comprometendo o futuro por anos. Algo como ter vendido os ingredientes do bolo antes mesmo de fazê-lo pronto para distribuição. Reféns do seu ego ganancioso, deram vida triste ao ditado muito comum “quem come goiabada com as mãos se lambuza” ou “ quem tem pressa come cru”.
Agora restava esperar que Deus salvasse  a vila, cada vila, todas as vilas. Talvez após tantas prisões e escândalos no assalto aos cofres públicos, a escolha de um rio e seu riacho não fosse mais a autorização democrática para roubar e a cultura do “agora vou me fazer” começasse a acabar.
Rio e/ou riacho teriam então a oportunidade de construir para o povo e para as vilas e o governo talvez deixasse de ser o secular balcão de negócios. Em mais de 3000 vilas, este seria um bom começo após 516 anos. 

Odilon Reinhardt.
 30-8-2016.