domingo, 3 de setembro de 2017

Músicas e músicos nas artes e peças que o país faz e prega.








                            





                                     Músicas e músicos nas artes e peças que o país faz e prega.    




Impressionante foto, que cria uma imagem até surreal, levando a mente a imaginar o que teria ocorrido ao dono do violão, assim tão maltratado. Quantas músicas tocou, para quem dedicou tantas letras e músicas, verdadeiras poesias ou em quantas festas alegrou pessoas e fez o momento?
É foto real, tirada, não num grande centro musical do país nem em cidade capital. Foi foto feita em meio ao que se pode inesperadamente encontrar numa destas manhãs ensolaradas, à beira de uma estrada de cidade pequena, não muito distante do mar, o que provoca ainda mais graves indagações. Por que e quem teria coragem de detonar um violão nessas circunstâncias em pleno verão? Certamente, não foi ato de revolta, como a de Sérgio Ricardo no Festival da Canção em 1967 nem qualquer ato de protesto igual ao dos artistas liderados por Elis Regina na passeata da MPB e Bossa Nova contra a Guitarra Elétrica na mesma década em São Paulo, em plena explosão do programa Jovem Guarda. Esse violão quebrado foi um ato mais recente, que incorpora talvez outro tipo de revolta. Talvez, a de um músico regional ou mesmo local, tomado por seus devaneios contra um amor perdido ou um evento qualquer que não lhe garantiu nem uma pousada para dormir. Sabe-se lá, algo aconteceu, algo que seja coerente com o mundo irado em que vivemos.
O violão e suas variações é instrumento que nos traz música de todas as épocas. O Brasil é um país musical com talentos enormes. Ninguém deixa de ter suas músicas na memória, aquela que marcou a infância, a que elevou os momentos do despertar do amor com o interesse pelo primeiro namoro, a música do casamento, a do filme preferido e tantas outras músicas que marcaram momentos individuais na existência. E por trás da música, há os famosos cantores, seus conjuntos, os interpretes nacionais e internacionais e os avanços da tecnologia que facilitaram progressos de muita qualidade e democratização do acesso às artes em geral. 
Há sempre música que marca momentos do país e seus anseios políticos e tantas outras que fazem, 24 horas por dia, as pessoas se alegrarem ou pensarem, escutando rádio e aparelhos de som, em lares, escritórios, fábricas, restaurantes, supermercados e lojas espalhados pelo mundo. É o mundo da música, uma indústria representativa e de grande competição, que gera milhares de reais e de dólares por mês, enriquecendo produtores, gravadoras e promotores de shows.
A mesma sorte, muitas vezes, não alcança o cantor/cantora durante todo o tempo, já que este atinge a fama, mas pode também rapidamente deixá-la por múltiplos fatores que incluem: perda da voz; escassez de músicas novas; desacertos com os produtores; casamento; falta de inovação; mudança espiritual; mudança na preferência do ouvinte; surgimento de outras modas e movimentos; alto custo da produção de qualquer obra; que se financiados por órgãos oficiais triplica o custo; dificuldade de parcerias e arranjos; envelhecimento; desgaste da saúde; cansaço resultante de uma vida desregrada para atender caprichos e às exigências da “carreira”; ausência de família definitiva e a solidão; talvez drogas e uma vida egoística para atender a promoções e marketing, etc. É que o interprete, cantor/ cantora, famoso joga roda de cartas perigosas com o Tempo. Se por qualquer dos motivos acima, deixa de ser o cantor mais aceito, deixa logo de ser remunerado, perdendo contratos. Quem o viu ou ouviu na era de ouro, agora nem imagina por onde anda, geralmente em caminhos de dívidas e solidão. Acabou o negócio e acabou o dinheiro e daí tudo que isto implica. Músicos famosos ainda têm o recurso de fazer um show aqui e ali para antigos fãs e assim ganhar uns trocados, já que viver de direitos autorais encontra diversidades mais cruéis.
O show tem que continuar. Para isto o produtor e o promotor sempre escolhem outro artista para viabilizar sua empresa e assim continuam movimentando seu negócio. Nada de mais. Se não fosse o polêmico Carlos Imperial e seus empreendimentos para localizar e lançar cantores, muito teria deixado de existir no Brasil. Assim, após a queda de um cantor/cantora, o novo intérprete recebe agora a atenção e o marketing recaí sobre ele/ela. O eleito cantor /cantora de sucesso vai à luta, defender seu contrato, mas não deixa de ser um tipo de  oprimido na mão dos empresários. É o jogo da fama. A produção custa caro e envolve muitas pessoas. O investimento tem que ter retorno.  Ou canta, produz conforme o contratado, ou está fora. Se cair fora, a história repete-se, poderá viver por um tempo com shows autônomos, revivendo e repetindo as músicas de sucesso até esgotar a audiência. Depois é a vida de luta sem CD novo, sem disco, sem compositor, sem marketing, sem grande dinheiro para bancar tudo.  Se for compositor e intérprete de suas próprias canções terá uma chance de sobrevida.
Se o cantor/cantora sofre, o que falar do músico instrumental especializado, do letrista, do maestro de arranjo, do compositor. Estas figuras, sempre de background, nunca recebem fama. São pardos vultos nos panos de fundo da apresentação musical, direcionada para fazer o cantor/cantora aparecer, ter sucesso e render conforme o contrato e dentro do número de shows que tem obrigação de fazer. É a mão de obra, nada barata, mas dependente do sucesso do intérprete.
Este é um lado do mundo musical, que se arrasta pelos tempos e que como indústria, usa seus componentes e integrantes para ter rendimento. Um mundo que não se distancia em nada do sistema atual das empresas, todavia, com a  aparência de promover alegria e cultura para o povo consumidor. Uma indústria de alto risco de investimento, pois seu objeto é arte, é o belo, itens bem controversos num país em permanente crise econômica. Uma indústria que sofre os problemas de qualidade e mão de obra como qualquer outra e mais, é inteiramente dependente de inspiração criativa.
Hoje está ficando evidente que algo também está afetando as bases da criação musical, a mente do artista e dos compositores e letristas. O Brasil é feito de música, mas não como em outros tempos de música nova. E tal crise vem se agravando às escondidas, tanto é que se prestarmos atenção na qualidade de música que temos hoje, vemos que é a voltada para uma juventude, acusada de ser vazia, descolada, sem interesse em nada, sem compromisso e cheia de enormes problemas que contaminam o futuro em que viverão. Sem dúvida, antevemos um tempo onde não haverá mais shows com os famosos do mundo musical. O fato é que a indústria musical hoje sobrevive de músicos de várias décadas e que ainda são chamados para manter os negócios em andamento. Se músicos de mais de 70 anos estão sendo chamados para fazerem shows, com músicas da década de 1960-1980, portanto de 40-50 anos atrás, é porque são realmente bons, e se a plateia é quase toda de jovens entre 18 e 35 anos, isto denota que há um “gap” muito grande na produção musical. Essas celebridades, no entanto, também são meros servos do Tempo. Observe-se um fato inusitado: a série de shows, já em curso, chamado “Nelson com Vida”, onde o sambista Nelson Sargento, de 93 anos, comanda o show com a participação de vários outros artistas. Sem dúvida uma exceção. 
É certo também que cada época tem sua música e as produtoras e promotoras conseguem um jeito de sobreviver. Na falta de estrelas nacionais serão capazes de promover até a música japonesa se for mais lucrativo fazer isto e manter a lucratividade. Afinal, basta colocar uma propaganda insistente e o povo seguirá. A sorte no Brasil é que as músicas antigas que ainda estão sendo tocadas são de romantismo, amor e aproximação entre as pessoas e de certo modo ainda há ouvintes e o preenchimento de certa carência afetiva nacional.
Para a música nova, ou seja, a que seja fruto da época atual, surgem movimentos como o funk e o rap, a música sertaneja. A questão é a da qualidade e a temática, o que arrepia um senso de Belo clássico ou mesmo mais o cotidiano musical. Drogas, crimes e sexo fazem letra atual. Já se pode observar que muitas músicas de produção recente continuarão a sacudir certa parte da juventude com está temática, embora com a música em ritmo bastante discutível em termos sonoros. Mas isto já será suficiente para alimentar a indústria, talvez promovendo não mega shows, mas shows menores no local onde a população se reúne, isto enquanto o envelhecimento da população não for regra. Depois não se sabe como serão os shows nas comunidades etc., onde os jovens estarão ainda mais frios, calculistas e insatisfeitos. Mas não podemos  esquecer que a guitarra elétrica e o rock tiveram o mesmo impacto negativo no ouvido brasileiro, mas caíram no gosto da  juventude e persistiram até hoje.   
Por enquanto, as gerações mais antigas, de 40 a 70 anos, continuarão ouvindo músicas dos tempos de romantismo, amor e poesia entre os seres humanos, mesmo que embutidas em “rocks” e outras modas. Letras de música de antes de 1980 permitem verificar com facilidade ainda a existência do romance e do relacionamento entre homens e mulheres enamorados, a busca pela aproximação e encontro ou o insucesso nessa intenção. E hoje, as letras da cintura para baixo, descrevendo atos operacionais, mecânicos, o relacionamento totalmente egoístico, onde uma pessoa usa a outra sem qualquer romance, letras de separação e individualismo. Nada mudará isto; é a pura expressão da cultura do povo, suas preferências e seus anseios.  Gravadoras e produtoras abrem espaços de grande fortuna divulgando isto. E é só o começo. Quem falou em qualidade na cultura? É a música e suas épocas. Muita propaganda e repetição e o povo acaba acostumado, como acontece com qualquer produto. 
Certamente, como em qualquer tempo, muitos jovens vão lembrar o momento que ficou marcado pela música que escutaram. O operário, cortando frangos na fábrica, recordará como conquistou sua namorada na linha de produção; o peão lembrará do rodeio e a música que marcou seu primeiro troféu; a menina lembrará do momento em que “ficou” como o primeiro “cara” no baile “funk” etc., etc.; o jovem corrupto lembrará da primeira volta como o carro importando, comprado com o dinheiro de “fumo” ou da propina ganha sem trabalhar. E assim irá a vida, sendo marcado em seus momentos mais gloriosos na memória pessoal de cada um e de acordo com cada tempo. Eles todos também dirão no futuro ao ouvirem uma música do passado “esta é da minha época”, igualmente como muitos fazem hoje e também sem se referir a qual tempo, se era o tempo de jovem, de adolescente, o tempo em que era feliz, sabe-se lá.
É que a música e seu mundo não podem se afastar do que se passa na evolução da sociedade e do que fizeram dela, especialmente no Brasil depois de tantos anos de corrupção. A música acompanha e se amolda à necessidade de expressão do tecido social, daí o “funk”, o rap, etc., como músicas de sucesso, mas para os meios musicais ortodoxos, sem conteúdo. A música dessa juventude revela as tendências sociais de pessoas já engolidas pelo pragmatismo e pelo que é útil, racional, mecânico, egoico; padecendo em falta de essência, todavia, ritmo que obtém sucesso e gerando dinheiro, mesmo que os cantores sejam tão efêmeros quanto a vida neste meio menos favorecido materialmente.  Músicas repetitivas, quase infantis em seu som, com letras para a plateia feita de seguidores operacionais e tarefeiros, onde o vocabulário é pobre, fazendo a festa sexualizada ou não, mas que descontraem seus ouvintes, afogados no stress da carência intelectual, da miséria material e do vazio de perspectivas existenciais. O rap e o “funk” são parte da história musical, do mesmo modo que o samba nasceu no morro e fez a carnaval gerando milhões em receita de turismo. 
Nada de espanto com estes movimentos populares da música. O mesmo ocorreu nas décadas de 1950 e 1960 na Europa conservadora. Tentando imitar timidamente os movimentos americanos representados por ícones da música jovem, os jovens europeus logo evoluíram, quebrando as rígidas e suntuosas regras do mundo musical erudito e mesmo com o popular da época. O fenômeno promocional criado pelas gravadoras e produtoras com os Beatles e os Rolling Stones foi revolucionário. Os primeiros, com seus arranjos, ao início simples e com letras do cotidiano, explodiram nas paradas de sucesso. Tornaram-se a voz da juventude do mundo, a primeira depois da Segunda Guerra Mundial, que desejava liberdade e autodeterminação, conforme os novos tempos. Já os Rolling Stones usavam letras de protesto e rock de maior peso e acordes bem inovadores. A música “I can get no Satisfaction” já continha a semente do protesto jovem.  Entre 1960 e 1968, o movimento jovem revolucionou o mundo. Era a expressão da nova época. Enquanto o jovem americano era mandado para o Vietnam por um governo duro e conservador, que comprou o conflito, até então nas mãos da França, presumivelmente com a finalidade de recolocar a juventude americana na linha da educação tradicional, o jovem europeu livrou-se e foi em frente, mesmo assim sem deixar de ser acompanhado e copiado pela insistente juventude americana e do mundo. Era a expressão da época, não haveria retorno. Após a viagem à Índia, os Beatles amadurecem, talvez George e John tenham entendido melhor a realidade e talvez o quanto estavam sendo usados. O grupo acaba em 1968, deixando um legado para a juventude, que continuaria em busca de sua “liberdade”, cultuando a fantasia de ser diferente, o que na época serviu para a euforia, mas ofuscou cruelmente a visão de futuro, escravizando a todos de outro modo e para uma realidade onde não há liberdade.   
Se os novos tempos representavam um empobrecimento musical, se a música orquestrada e seus músicos perderiam o emprego lentamente nas próximas décadas, isto não interessava mais. A indústria já havia entendido o que estava ocorrendo e viu tudo como uma grande oportunidade de mudança na moda, no consumo, nos empregos etc. Tudo passou a visar rendimento vindo do consumidor jovem e suas necessidades sem limite. O capitalismo renovou-se, descobriu um consumidor maior e aparentemente sem limites, os “baby-boomers”. 
A reação conservadora das gerações mais adultas indagava o que seria dos jovens sem a educação tradicional, sem o controle familiar. Indagava no que daria tudo aquilo. Surgem a liberdade sexual, as drogas, os movimentos libertários do espírito inspirados em pensadores orientais, a “generation gap” e toda sua expressão artística. Tudo numa década só. Era uma perdição, diziam os adultos. As inovações sempre agitaram o status de qualquer setor. O Poder sempre teme o descontrole. Temos que o que antes era muito comum no campo da pintura, sempre abalado com movimentos novos e revoluções, provocando reação acadêmica, passou então para o mundo da música com muito mais ênfase. O rock era algo novo e provocava a elite musical que vivia com sua visão quadrada e erudita. Na música de repente em uma década tudo mudou.      
No Brasil não foi diferente. A pequena juventude que não era da classe alta, bem localizadas no Rio e São Paulo, começava a tocar uma nova bossa, fazia mudanças em relação ao samba e à Bossa Nova da elite e iniciava o maior movimento musical já acontecido no Brasil, o que acabou concentrando-se no programa Jovem Guarda, com dezenas de músicos e cantores reunidos por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia.  Esta parte da juventude já vinha sendo desperta com músicos e grupos do começo do Rock no Brasil, usando músicas estrangeiras, mas com letras nacionais, as chamadas versões, até que começaram a fazer suas próprias músicas. Uma delas “Quero que vá tudo para o inferno” chegava a ser tocada de cinco em cinco minutos em certas rádios. E tudo nasceu em 1965, por ocasião de conveniência da TV Record-Canal 7, em preencher o horário da TV nos domingos à tarde. O programa era para durar só um mês, seria apresentado por Roberto Carlos, receberia o nome de Jovem Guarda e nasceu sem aviso, nem publicidade. No segundo domingo, já havia conquistado uma multidão de jovens e São Paulo parava; atingiu mais de 80% de a TV e durou 3 anos. Iniciava-se uma revolução na mentalidade do jovem brasileiro a caminho de sua modernização e liberdade em relação à educação familiar tradicional, o que criou inúmeros incidentes domésticos e colegiais que marcaram a vida privada. Os filhos tornaram-se incontroláveis. Felizmente naquela etapa do país, repita-se sempre, onde hoje temos 96% de semianalfabetos e dentre estes só 8% podem ler e interpretar um texto, o movimento de jovens não foi acompanhado por um costumeiro abandono dos estudos, mas já havia a tendência. O comportamento mais relaxado nos colégios era punido. Se hoje o problema é o celular, naquela época era o cabelo comprido dos meninos e a minisaia das meninas, todos mascando chicletes e usando gíria nova como barra limpa, careta, legal, brotinho, carango, inferninho, motor envenenado, festinha etc,.
Enquanto a Jovem Guarda em São Paulo espalhava-se pelo país, a Bossa Nova no Rio ia dizendo adeus e dando lugar para a Música Popular Brasileira, vista pela Ditadura Militar com olhos vigilantes, pois as letras, direta ou pretensamente atacavam o Regime Militar. Entre a Jovem Guarda e o MPB houve certos atritos, pois os músicos engajados em política atacavam os músicos da Jovem Guarda com a crítica de serem estes alienados ao não fazerem letras contra o Regime.
Na verdade, o movimento de Jovem Guarda não era da juventude da elite social. Era feita de jovens músicos do arrabalde, jovens do povo que não tinham nome famoso nem eram de família da elite; Roberto Carlos e Erasmo Carlos não eram de São Paulo e toda a turma cantava o romance, o amor, a aproximação entre jovens em plena São Paulo industrializada e já robotizada pelas filosofias da indústria.  Eram jovens do povo, não tinham nome famoso nem eram de família da elite nem tinham consciência política. Todavia, no fundo foi muito mais importante porque mexeu na mentalidade dos jovens de todas as classes sociais, mudando seu comportamento e reforçando seu ímpeto de liberdade. Faziam música pelo prazer de fazer. Se certo ou errado, nada foi mais terrível que o AI -5 de 1968 que calava o país por motivos políticos. O Programa Jovem Guarda já havia acabado em agosto de 1968, mas a juventude já estava sendo outra. Os cantores e grupos da Jovem Guarda continuaram em carreira solo pregando o romance e o amor, o que já se mostrava ineficiente para conter a invasão de filosofias do primeiro mundo que eram perfeitas para o mundo da linha de produção e fábrica e que acabou por contaminar o relacionamento humano. Chico Buarque em várias letras da MPB retratava isto com muita propriedade e ia se defender no Dops. Um grupo de jovens da Jovem Guarda, “Os Caçulas”, lançou a música em 1968. “Chuva que caí” retratando melancolicamente o fato de o mundo estar mudando para pior.   
Hoje, em termos musicais, a miséria, a falta de estudo, a entrada do individualismo, do pragmatismo etc. também contaminou e contamina a juventude com maior intensidade. É uma juventude que se encontra comprometida, face às consequências da negligência com que nossos “líderes” ajudaram a montar o país de Cabral a Cabral, como se não houvesse nada a temer. Portanto, o tipo de música que surge é expressão do popular. O que ocorre hoje é resultado dos 517 anos de Brasil; foi a evolução humana que conseguimos e o Rio de Janeiro é o modelo do que pode virar a vida privada depois de tantos anos de corrupção e descaso com a juventude, hoje feita de jovens com suas famílias destroçadas, seus pais entregues à sorte, a vida sem futuro, mas que ainda pensam em se reunir, dançar, escutar música no seu nível.
Seria uma grande “capcio de minucio” menosprezar a evolução da realidade e o aproveitamento de tudo pela indústria e culpar os jovens por serem jovens nesta realidade. São jovens vivendo sua época, com os modelos que a sociedade lhes forneceu. De certo modo pregam amor, romance, mas ao seu modo e com seu vocabulário e expressão musical de época.  
O “funk”, o rap, o sertanejo universitário etc., o pancadão etc. podem significar uma involução em referência à música de qualidade ou contrastar com a música que vinha sendo feita, mas não deixa de ser música e expressão de uma realidade miserável e pobre materialmente, mas em coerência perfeita com o mundo entregue ao ego, á competição e comparação através de bens materiais. E isto não deixa de receber a mesma e costumeira reação dos músicos tradicionais e da sociedade. Mas não há retorno. O Brasil pobre terá sua música pobre. Mas de tanto se escutar a mesma coisa acaba-se achando-s lindo, não é? Aguardem o rock–rap-sertanejo, o rap-universitário, o “funk” de elite, etc. Afinal, é só diversão, não é?.
Ademais, há muito de pior que vem infiltrando-se na mentalidade da geração de jovens após 1980, que já está marcada com o estigma de grande crueldade e a coloca como vítima dos tempos, representando o enfraquecimento da mão de obra do país. Muitos já estão muito longe da casinha e cada vez mais marginalizados; ficarão mais insatisfeitos quando descobrirem o engano que os envolveu e que não mais poderão entrar na casinha da produção sem escola de qualidade etc. Que música cantarão a tal época? Quais serão os meios de expressão de revolta e insatisfação? A resposta já está nas ruas dos bairros em muitos sinais e perspectivas ruins.    
O seria, se menosprezássemos a evolução social e continuássemos produzindo e escutando rumba, tangos etc. A música é produto humano da época. Se a época é de miséria e pobreza espiritual, a música acompanha sua expressão, conforme a tendência atual: fisiológica e egoística.                    
Temos um país tão rico em sua musicalidade, cheios de bons talentos, mas que negligenciou as artes no geral, no afã de fazer a infraestrutura, com obras para ganhar propina em projetos de duvidosa necessidade; perdeu o rumo e o controle da população jovem. São novos tempos.  
Quantos talentos há entre os jovens e que jamais serão considerados, face ao despreparo da rede educacional em localizar e valorizar talentos. Mas a este respeito, deve-se também considerar que a música e as artes sempre foram tidas como marginais e ameaçadoras para os pais, que temiam que seus filhos se dedicassem a algo abstrato, algo que não garantisse o futuro material em termos  financeiros. Sempre há o temor que os jovens se afastem do quadrado espaço do preparo para produzir e todo o pragmatismo exigido para isto. Assim as artes e a música em especial sempre foram temidos como um perigoso desvio e um incontrolável campo que escapa à educação do pai/mãe de família, preocupado com a segurança material, seus bens e a sucessão, preocupado em ensinar a fazer, não necessariamente a pensar. Assim, usando um exemplo um pouco mais elevado, se o filho do dono da rede de supermercados pegasse caminho diverso e optasse por ser músico, o negócio iria à falência. E assim com tantas outras famílias preocupadas com a sucessão. De qualquer forma não foi o que acabou acontecendo? Isto porque o filho tinha outro talento, o qual foi obrigado a contrariar, vivendo insatisfeito pela vida inteira, e descuidando dos negócios. Ainda hoje, um filho com ideias diferentes, um violão na mão, uma poesia ou o teatro na cabeça é visto como algo não produtivo, algo independente demais e que foge ao controle da família, quando há família.     
De certo modo, a preocupação procede em termos, porque no geral só em raríssimas exceções consegue-se viver de música neste país. Por vários motivos, entre eles um universal, o mercado da música é tomado pelas produtoras e promotores com seus cantores de momento, escolhidos a dedo.  Há luta entre os titãs do mercado internacional e do nacional, com grande privilégio para quem tiver dólares. Ambos pagam para açambarcar o mercado e os espaços existentes. Entre esses espaços o tempo de rádio e televisão. Ora, não é possível tocar mais que uma música no mesmo espaço de tempo.  A disputa é enorme, feroz e custa caro.  A tecnologia também amedrontou o mundo musical porque a internet propiciou o acesso grátis para milhares de fãs, que fazendo cópias e divulgando as músicas, detonaram o mercado de discos e Cds. Todavia, o mundo virtual ressuscitou músicos e músicas de várias décadas e possibilitou a ampla pesquisa e uma infinita democratização do acesso às artes. A enciclopédia mundial está agora aberta a todos de todas as gerações e em todos os países. São shows, “clipes”, etc., de todos os tempos. Ninguém pode reclamar de falta de vitrine, luz e palco grátis no mundo da “internet”. Fica muito claro que tudo promove o acesso popular às obras musicais, todavia, sem remuneração ao cantor ou compositor, os quais hoje já não alimentam nenhuma esperança de poder viver da música.  A pirataria de obras musicais também atrapalhou muito, sendo que em certos casos o CD oficial nem entrou no mercado e já há cópias piratas sendo vendidas, causando prejuízo enorme aos músicos e cantores.
A Constituição da República tem artigo protegendo a produção artística regional o que ficou mais para a Rádio e TVs educativas, as quais não cumprem tal mandamento constitucional simplesmente, porque não há suficiente produção local e regional para preencher os espaços, pelo que se socorrem da música nacional e aí com músicas de 40 a 50 anos atrás. E ainda surge neste campo a figura do programador da emissora de rádio, ele é que tem o poder supremo de escolher a música que vai tocar. Ele é que inclui ou exclui, que faz nascer ou morrer. Está posicionado no topo da linha e atende à indústria musical ou não. Nos bastidores é a figura mais importante, é o porteiro para o ar, para o mundo.   
Neste contexto, o artista, o cantor/cantora local de pequenas e médias cidades longe das capitais da música, enfrenta inúmeras dificuldades para existir e prosseguir. E no campo da música, repita-se, deve-se ter em consideração que quem vai aparecer ao público é o cantor /cantora, representante final da criação. Para eles o mercado encolhe dia a dia. As dificuldades se multiplicam e com elas o mundo dos bastidores também é afetado. O grupo dos bastidores só sobrevive se houver intérprete. Poetas, letristas, compositores, instrumentistas, o maestro do arranjo, a mesa da gravadora etc. fazem parte dos bastidores. A diferença é que estes artistas tem vida própria em ternos de criação, pelo que as dificuldades que possam passar os intérpretes não os afeta moralmente da mesma maneira, embora a remuneração sofra. A realização destas pessoas de bastidor nunca deixa de ser grande, pois realizam o que gostam e sabem que vivem sem plateia, sem palco; vivem com o que conseguem de remuneração, mas estão muitas vezes mais felizes do que o povo assalariado que vive insatisfeito enquanto condicionado pelo mundo atual e suas mazelas materiais e espirituais.        
Mas no geral, cantores/cantoras locais e suas figuras de apoio são todos solitários sobreviventes que não pensam mais em ter sucesso ou fama para atender suas necessidades materiais como qualquer outro ser humano, ou seja, não pensam em tirar recursos financeiros da arte. Na verdade, insistem em sua missão de existência, fazendo o que os realiza, criar e criar a arte pela arte.  São muitos os poetas de poesias que ninguém lê, os escritores de livros que ninguém conhece, os cantores sem plateia, os artistas sem teatro, os maestros sem orquestra. Se tiverem sorte, sobrevivem com um show aqui, uma “canja” ali, uma parceria esporádica, mas persistem porque possuem o dom de criar. São os anormais que sobreviveram ao mundo atual, preservando a sensibilidade e resgatando a Essência, tendo vencido a batalha contra o ego de vaidade, ciúme, inveja na disputa por espaço na competição, a qual é muito comum no mundo artístico. Quem não se lembra do boicote aos equipamentos da mesa de som no show de estreia de Gal Tropical  no “Maracanãzinho”?
Todos são artistas que fazem a arte pela arte, vivendo em dimensão superior, desligados do mundo da linha de produção em grande parte. Vivem e conhecem a boa solidão da criação. Se sua arte preenche ou não os requisitos de ser ventável, promovível, rentável no mundo do mercado da produção, isto não interessa ao verdadeiro artista, pois sua criação é expressão de seu intelecto. Não é raro que criem com tanta normalidade e nem saibam valorizar o que fizeram. São os verdadeiros artistas sem egoísmo, criadores, que vivem com qualidade. Evitaram o profundo vazio em que caem os artistas de teatro, televisão e cantores famosos quando estão sem contrato ou são rejeitados ou sentem que sua época já passou e não são mais rentáveis nem elegíveis pelo marketing da indústria da música e da diversão, feita de competição e comparações. É muito difícil ficar sem uma peça para representar, uma música para interpretar, podendo ser até fatal, se o artista não estiver preparado para uma possível depressão. Para evitar o esquecimento, mesmo com a internet, muitos investem no marketing pessoal para se manterem empregáveis e entram num jogo caro e muito perigoso que pode levar a dívidas e riscos de saúde. 
As produtoras e gravadoras e a indústria da promoção de eventos e seu império, mesmo retirando a liberdade dos artistas para atender ao marketing e fazer dinheiro da diversão, cumprem sua tarefa de divulgação, embora seletiva. As artes e a música,  não poderia deixar de ser no mercado, são coisa de comércio e devem vender e garantir o retorno do investimento. Apesar de toda a seleção e das facilidades do mundo atual, tudo é muito caro e a indústria tem que sobreviver. Pelo número de artistas de sucesso e de novas criações, onde está o artista do disco de ouro? Existe CD de ouro? Há festivais de música nacionais? É evidente a falta de astros, de novas criações espontâneas, de músicas novas? O setor da produção musical está em crise de inovação. As mazelas nacionais e a crise econômica atingem também o bolso até dos desligados artistas em seu mundo de criação. No entanto, mesmo assim o mundo cultural, com base em artistas locais,  continua e promove todos os dias shows e apresentações, autônomas ou não, pelo país. São 24 horas de música em rádios e bares e “shopping centers” e restaurantes e lares, dentro da tendência de repetição e uso do cabedal passado do mundo musical. Há músicas de 50 a 60 anos ainda sendo tocadas e ocupando espaço que deveria ser de novas criações.              
Em verdade apesar de tudo que temos visto e observado e vivido neste país, as criações novas existem, mas ficam arquivadas ou são usadas só quando o músico é o próprio compositor. Mesmo com sua vida desligada e abstraída, o mundo exterior atinge a todos, mas o artista que é mesmo artista continua criando livremente. Nas condições atuais usa uma mega sublimação, quebra condicionamentos e sai da dimensão das coisas, cores, sabores, para atingir o nível superior da criação; criar uma música nova, inédita no mundo é inegavelmente uma ligação mais próxima com a Essência, a energia superior que alimenta o Universo. A ligação com as condições perfeitas para criar estão perfeitas no artista que conseguiu ligação com a Essência, iluminação. Se são muitos ou poucos, não se sabe, atualmente. O certo é que muitos forçam a ligação através do álcool e das drogas e acabam viciados e mortos. Artistas com problemas emocionais também criam ao se refugiarem na criação, onde se escondem da sua insatisfação, inconformidade com o mundo que gostariam que estivesse ocorrendo, fruto de sua incapacidade e imaturidade egoica de entender as forças do mundo interior, o que os leva a esquecer a sabedoria e a entregar-se à vã vontade de controlar o mundo através de uma visão uniforme e pessoal. Esses acabam perdendo a inspiração assim que chegue a maturidade ou a mudança de época de vida. Mesmo assim deixam grandes obras que expressam e sintetizam algo superior que pode conduzir o entendimento de um povo por algum momento de sua história. Artistas e seu mundo invisível da criação. Cada um com seu jeito, seu tempo, seu caminho, sua sorte e destino, seu tipo de ida e pensamento. É a liberdade. Se vão aparecer através da indústria musical, isto hoje é coisa do destino e da sorte. Muito fica na gaveta e não aparece jamais.  
Todos os tipos de arte são expressão da época. Todos os artistas são livres para criar conforme sua visão de mundo.  Não há arte boa ou ruim, se a mesma  expressa a espiritualidade do artista e sua visão do momento e da vida. Pode ser que a arte não seja ventável, não ganhe a estima dos empresários, mas nem por isso deixa de ser arte. Para cada música de sucesso existem milhares de outras que nunca serão conhecidas nem promovidas. Para uma música ser eleita pelo marketing da indústria deve atender à crítica, ao “merchadising”, às expectativas de investimento e retorno lucrativo.  Como tudo, deve receber a aprovação popular do consumidor. Quem é hoje a população consumidora em sua maioria, senão os jovens antes referidos? Será que gostam de tango, Mozart, etc.? Até podem gostar, mas evidentemente sua preferência é outra e mais atual e tende a expressar sua condição humana e as impaciências ansiosas da idade. 
Músicos independentes e também os já sem contrato de sucesso, procuram sobreviver também através dos programas de incentivo dos Estados, Municípios e União. Com muito esforço foram também aprovadas a Lei Rouanet e outras de incentivo, todavia todas sofrem problemas burocráticos, e não são tão ágeis. Mesmo assim foi um grande avanço. A maior dificuldade para o artista é a parte de captação de recursos financeiros. Lembrando também que a arte não é prioridade para o Governo que sofre com continuas depressões e os cortes financeiros são sempre uma ameaça para os produtores, promotores e artistas em geral que dependem da verba pública. Frente a tais dificuldades, muitos artistas não finalizam seus projetos, deixando de fazer a devida publicação.
Faz parte do dia do artista criar e ele o faz independentemente.Repita-se, a arte é fruto do artista em sua conversa com dimensões superiores do seu interior. Há muito artista que nunca aparecerá no mercado, músicos, pintores, poetas, escultores, pianistas, escritores que produzem sempre como parte de sua construção do dia. Talvez algum dia, alguns deles serão descobertos por alguém, mas não fazem questão disso. Muito Van Gogh só foi descoberto por acaso.
Não bastasse toda a adversidade que ronda o trabalho de criação, não se pode deixar de acrescentar que onde o Poder Público participa, traz consigo a politicagem também neste meio. Como há uma indústria da cultura, há interesses maiores em promover este ou aquele artista em shows que aumentem a rentabilidade. Há interesse em promoção na mídia e na publicidade do artista do momento. O consumo de um determinado produto aumenta muito se um determinado artista participar do comercial. É um subproduto de grande valor e favorável à renda do artista. Há políticos por trás da indicação de artistas para shows, filmes etc. Os favorecidos que aproveitem. 
Os órgãos de Governo encarregados da “Cultura” são resquícios de regimes políticos autoritários e fascistas; estão minados por burocratas entendidos e metidos em arte, pelo menos a “arte” que conhecem e preferem. Ali, nada se distancia da vida política nacional. Há os artistas preferidos e os excluídos, principalmente, se o artista tem engajamento político. Neste meio, há muita sinecura, muito nepotismo e artista empregado. Muitas vezes metidos a críticos de arte, com poder de selecionar e descartar nomes em shows oficiais ou não. Impera o paternalismo e o protecionismo seletivo e excludente. Prevalecem as preferências pessoais dos “órgãos técnicos” e também a escassez de verbas, sofrendo sempre brutais cortes conforme o estado das finanças públicas. É a consequência e a reprodução das mazelas e doenças da política para o combalido mundo nacional de artes. Para milhões de artistas, os órgãos de Cultura nem existem. 
Já que tocamos no assunto de órgãos de Cultura, temos que lembrar do período da Ditadura Militar. Quando do surgimento da Jovem Guarda, com seus inúmeros artista, quando do aparecimento dos Beatles, não houve muita oposição por parte do Governo, mas quando foi instituída a censura, começou um grande problema para o mundo artístico e principalmente para a MPB.  Toda manifestação, qualquer letra de música, peça de teatro ou filme, tinha que ser aprovada pelos censores, pessoas, em regra, despreparadas para atuar, o que de certo modo facilitava a alteração.  Nada podia ir contra o Regime, podendo ser caracterizado como crime contra a segurança nacional e ser taxado de subversivo e comunista. Foi o tempo do terror no mundo das artes, mas nem por isso o período deixou de ser produtivo e de fazer nascer muitos e muitos artistas musicais.  Só para registrar um fato, lembro de um famoso psicanalista curitibano, que retornando da Argentina com seus livros preferidos, foi barrado na vistoria de sua bagagem em Foz do Iguaçu. O soldado, encarregado da vistoria, com o fuzil ao ombro, ao folhar um dos livros, localizou numa das páginas as palavras “povo”, “popular” e “população” e alegou que o livro seria aprendido, porque o sargento havia instruído que nada que mencionasse “povo” poderia passar. Após uma confusão, o tenente, chamado ao caso, deixou o livro passar. A obra era “ História da Cultura” de autoria de Kaj Birket-Smith.
Eram os anos de Brasil fechado, com censura feroz também à imprensa. Nos jornais, matérias eram censuradas e substituídas por receitas culinárias e publicação de trechos de Os Lusíadas. Na TV, Chico Anísio foi censurado porque em pleno domingo na TV soltou algo como: “O que você acha da situação? Não acho nada. Meu amigo achou e nunca mais acharam ele!”. Era assim a censura prévia e a efetiva. Qualquer crítica ao Regime era punível e colocava a pessoa como subversiva e por vezes chamada de comunista. Foi um exagero desnecessário do Regime e que culminou com sua deterioração.
Foi a censura que fez artistas populares se engajarem contra o Regime militar, participando em manifestações de rua até a queda do Regime com a abertura política. Artistas renomados foram decisivos junto à juventude universitária. Muitos artistas de televisão, teatro e cinema, músicos, cantores e cantoras de sucesso contribuíram para a derrubada pacífica do chamado Regime. Lembrando que Caetano e Gilberto Gil chegaram a ser exilados. Havia a campanha “Brasil ame ou deixe-o”.  O Brasil era um quartel. Muitos artistas famosos, que sofreram a repressão política e a censura por fazerem obras e músicas que expressavam as necessidades da época, clamando por liberdade, anos mais tarde, ajudaram a eleger regime de esquerda, na esperança de solucionar os problemas de democracia e miséria ou seus problemas do mundo das artes. O que pensam hoje disto, não sei, a miséria continuou e até pior, a democracia segue limitada e a esperança decaída. Se algo sobrou de bom, foi a Lei Rouanet e talvez isto tenha deixado a elite dos beneficiários quieta. Mas este é outro assunto.
No mundo das artes nacionais sempre encontramos artistas que em plena rua, na calçada, na feirinha tentam mostrar e por vezes vender sua arte. Estes, sim, são verdadeiros heróis que criam em situações precárias, mas vivem seu talento ao pé da letra. São cantores para o mundo e vivem alegrando o dia e o momento de pessoas que muitas vezes nem se dignam em dedicar uma moedinha para aquela realidade que está ali na calçada. E assim há tantos talentos que estão fora das escolas, das academias, das exposições de arte, dos festivais e shows; excluídos do mundo oficial das artes. Mas não é essa a preocupação, músicos, artistas em geral sempre sobreviveram com seus talentos, tem a autonomia no coração e humanidade na alma e sabem cavar seus espaços. A problemática envolvida é a expressão popular atual dos jovens, que serão os futuros gerentes da vida aqui.  Como está expressão cultural da época. O que querem com seus “raps” e “funks”? Alguém está lendo isto como mensagem do futuro? Será que não está claro que há uma revolução de mentalidade em foco e que no pano de fundo da cena teatral da vida do país não está sendo consolidado algo mais grave?          
Pergunta-se: não há pelos muros da cidade expressões do sufocado, da exclusão, do grito para a volta do humano. Um clamor que sempre será isolado porque o artista é por origem um ser livre, mas muito consciente do que se passa com a humanidade. E aqui neste país, há muito tema ainda para rap e “funk” da pesada.
Talvez surjam letras não tão ingênuas como outrora, algo como:

 Eu quero explodir.

Que mundo é esse
que eu quero hoje explodir,
que gente é essa ,
que eu não quero seguir?

Eu quero explodir
essa gente podre
que nos faz cuspir
que nos faz mais pobre.

Onde colocaram a satisfação?
Socorro querem me matar e eu quero viver,
que tudo vá para o Inferno,
eu quero viver minha ação.

Que mundo é esse
que eu quero hoje quebrar,
que gente é essa
que eu não quero nem encontrar?  
                                          

 E o violão quebrado? Bem, o violão quebrado tinha sido produto de furto, protagonizado por um menor de idade e ventanista, que não sabendo o que fazer com ele, resolveu quebrá-lo. Nunca foi pego, mas se interrogado fosse sobre o por quê de tal ato, diria “ não tô nem aí mano, se liga mano.” Algo equivalente a “ fi-lo porque quí-lo”, quase com a mesma intenção e descompromisso com a responsabilidade com que a corrupção é praticada e tem minado a infraestrutura para o desenvolvimento e prosperidade das novas gerações. 

Odilon Reinhardt .

























quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Salseiros,entranhas,bugalhos, tralhas e malas.




Blog 3.8.2017
 
 


                                          Salseiros, entranhas, bugalhos, tralhas e malas. 



Que há honestos e verdadeiros no mundo da representação popular, não se pode negar. Que grandes nomes participaram de grandes momentos, deixando ali sua marca de inteligência e alto espírito patriótico, também não se pode esquecer. No entanto, que o sistema de financiamento é falho e dá vazão ao sistema corrupto, vindo a constituir uma das causas centrais dos problemas mais recentes, não se pode menosprezar.
Seria muito proveitoso, embora cansativo, discorrer sobre todos os aspectos históricos que foram tecendo a cultura política em sua roupagem atual, a politicagem.
Não seria de se falar de um ou outro caso, nem de pessoas, mas da natureza humana que está envolta neste meio, do qual poucos podem sair ilesos. Basta, portanto, focar o ser humano e a transformação operada quando se sentem com poder. 
A política em seu estado puro é de grande complexidade, é ciência aplicada, exigindo altruísmo e espírito coletivo e patriótico, grande conhecimento das relações humanas, da cultura do povo, muita percepção aguçada sobre o momento e sobre as tendências sociais, sendo um jogo de xadrez de mil peças, pelo que fascina e vicia. Já a politicagem, campo dos maus políticos, é derivação barata e amplamente praticada; campo do exercício explícito da vaidade, do orgulho, da inveja, da cobiça, da ganância, da luxúria etc., que ficam atiçados o tempo todo em tramas, traições, estratégias demoníacas de difamação, esquemas de maldade para atingir o prestígio e a imagem do Próximo num jogo, na maior parte do tempo, às escuras, e que remexe as entranhas do ser humano, usando-o como perpetrador do Mal em permanente estado de defesa, igualando-o ao animal, presa e predador.  
A representação é ciência humana de grande relevância para a estrutura de funcionamento da República, mas recebe inevitavelmente a contaminação da qualidade ou da falta desta no ser humano do local onde é exercida. Hoje, Maquiavel seria mero aprendiz inexperiente ao ver como evoluíram suas noções de política antiética. Impossível que esse meio não seja rudemente contaminado pela funesta estatística de que temos 4% de analfabetos e 96% semianalfabetos.
Já é dito popular que o poder corrompe. Após tantos séculos, o Poder já é um sistema pré-estabelecido, um mundo com princípios e valores, usos e costumes que foram se formando para apresentarem uma cultura que hoje é questionada, porque se revela ineficaz para representar o povo a contento. O poder que Abraham Lincoln previu como sendo “ power from the people, for the people and by the people”, entre nós, sofreu customização alfandegária: “ power from the people , away or against the people”. 
Ninguém, no entanto, irá tomar o poder pela força, já que pelo menos nossas instituições mostraram-se mais fortes e independentes. Todavia, pontualmente, para resolver algumas questões, já se observa a manifestação antidemocrática, selvagem, bruta, medíocre e animalesca, em barbarismo e vandalismo, e, grande parte voltada  para produzir danos ao patrimônio privado nas ruas do que ao Poder Público, geralmente estabelecido em prédios enormes e palácios. O único resultado de quebrar uma vitrine é ter a vitrine quebrada e só.
A tendência do vandalismo é perigoso sinal, semente que poderá germinar, se o sistema dialético democrático não for revisto com urgência, criando mecanismos mais rápidos para garantir a expressividade da reclamação popular. O político e familiares, muitas vezes no passado ovacionados em eventos públicos e até em particulares, passam agora a ser “ovocionados” pela massa, sofrendo “bullying” e ameaças em espaço público, aeroportos, restaurantes e a bordo de aviões. 
É de se questionar, se é o ser humano ou o sistema criado por ele que está defeituoso e não representa mais o eleitor. Mudando o sistema, mudam os homens? Mudando o homem muda o sistema? Sim, não?  E como fica a cultura secular, arraigada e que é expressão legítima de nosso subdesenvolvimento? Deve-se considerar que a vida política, desde há muito tempo, foi o recurso fácil dos que não serviram para estudar ou fazer comércio de loja, mas sempre foram bons de palavra, craques em dar nó em pingo de chuva e almejaram crescer sem fazer muito esforço, elevar a cabeça acima da plebe ignara e mostrar-se ricos, incluir-se entre os poderosos, portando valores da classe média de aparecer, mostrar status, posses, o que facilmente descamba para a ganância e megalomania. Qual o índice de dislexia na classe política? Quais as verdadeiras entranhas dessa classe que podem explicar tantas atitudes?     
Se nada for alterado, os protagonistas da politicagem continuarão a reinar aumentará; o hiato entre a capacidade de entendimento popular quanto às questões nacionais e esse mundo político e sua falta de transparência. Aumentará a radicalização, que nunca levará a nada de bom. Aumentará a raiva social, a ira do povo contra os que “aparentam mais”. A mediocridade se espalhará. É o nivelamento por baixo. Nas cidades já se formam guetos, onde os que “aparentam mais” não podem entrar. O fato é que a representação está em foco e o povo sufocado, embora silente, exige mudança.
Evidentemente que de um lado a ignorância popular sempre será entrave para a democracia. Se só 8% dos 96% de semianalfabetos pode entender um texto, é evidente que a falta de transparência e a falta de clareza nas informações sobre os projetos em discussão pode levar a uma situação de fácil condução e manipulação das massas para a baderna. De outro lado, o meio político que se tornou um campo restrito, onde habita o “político” profissional, dando direito à aposentadoria, décimo terceiro etc., torna-se a cada momento mais egoísta, excludente e onde se formam clubinhos de raposas, o grêmio dos maus, as quadrilhas de invasão, todos preocupados em sua perpetuação, na intenção viciada de simplesmente “ser importante”. Assim cada clubinho vive sua própria fantasia em interesses internos e logo dá as costas para quem, enganado por alguma campanha de marketing eleitoreiro, o legitimou baseado em alguma promessa de bom futuro ou qualquer falácia de igual valor.
O meio revelou-se podre, um mundo à parte, funciona com princípios ruins e valores questionáveis; ética e moral possuem contornos do submundo e os meios justificam os fins; defeito de caráter, mentira, dizer e desdizer é moeda comum; o meio baseia-se na luta do poder pelo poder: de “se fazer”; de se garantir contra a  miséria nacional, de aproveitar para enricar, de conseguir um lugar de prestígio que alimente a vaidade e o orgulho, de defender interesses privados oficializados como públicos, de criar dificuldades para vender facilidades, etc. Denúncias escandalosas só aparecem quando alguém não recebeu a sua parte. Se a imprensa silencia ninguém sabe de nada. Mesmo assim só aparece a ponta do iceberg e quando é de interesse dos meios de comunicação.
Quando do jogo entre oposição e situação algo escapa do controle e espirra para fora dos muros do mundo político em forma de escândalo, denúncia etc., a imprensa busca sensacionalismo para vender mais e rechear tudo com anúncios comerciais. Pouco importa a opinião popular, a qual fica perdida entre informações e contra informações num enrolado jogo televisivo que pode ser facilmente esquecido com a sobreposição de outros eventos mais atrativos ainda. Um jogo importante de futebol silencia a todos.
Há muito idealista neste país, que como marinheiro de primeira viagem, depara-se com o primeiro mandato, onde leva muito tempo para entender como funciona a casa legislativa, geralmente dominada por antigas raposas que se perpetuam no poder e controlam grupos de funcionários.
Os novatos ou jogam o jogo dos políticos antigos ou não se reelegem. Ou aceitam os jogos do Poder e os esquemas de corrupção já estabelecidos ou são marginalizados. Há esquemas fixos de corrupção que subexistem a todos os mandatos, independente dos políticos que se revezem no poder. São esquemas que usam as pessoas a seu bel prazer, transformando-as, obrigando-as a cumprir o que for determinado com fidelidade ao comando. A opção é corromper-se ou cair fora. A este ponto, o indivíduo se vê menor que o clubinho e sua impotência o paraliza. Há todo um sistema para atrelar o indivíduo, amarrá-lo e cobrá-lo, retirando sua liberdade. O campo é sedutor, ganha facilmente as pessoas vaidosas que se deixam levar pelo canto da sereia. Todavia muitos dos idealistas abandonam o clubinho e o país perde talentos e soluções para o futuro. Os virtuosos não se sujeitam ao campo da política, onde o ego reina para comandar os que ficam para alimentar o sistema em que são vítimas de si mesmos, embora tenham lá seus momentos de bravura de touro preso; no mais, estão obrigados a seguir as regras do jogo, acordos nos quais devem se submeter ao indizível. Inevitável que após certo tempo, já tenham vendido a mãe e a alma esteja prostituída de tanto sofrer pressões e defender interesses distintos e contrariar-se como ser humano íntegro e coerente. 
Sócrates, em seu diálogo com Glauco, na obra “A República” disse que “ Ora, a verdade é que toda sociedade onde os que mandam não mostram nenhuma ânsia de se elevarem, é necessariamente bem governada e nela residem a paz e a concórdia; mas onde quer que o mando se obtém à força de intrigas, sucede precisamente o contrário.” 
O jogo político é pesado, baseado na politicagem, gera sofrimento, agonia, ansiedade pelo medo de perder a imagem, o prestígio, as eleições etc., mesmo que muita vitória seja de Pirro e que, se derrotado, passe a ser “ninguém”, mas cheio de dívidas e solidão. É o tempo de pagar pelo ego contrariado.
Os que ficam no clubinho permanecem submetidos às regras do jogo. A preocupação maior é se reeleger. A outra é achar tetas livres para indicar seus parentes e os ajudantes de campanha ou garantir recursos para a próxima  eleição. A cada votação de projetos do Governo surge a oportunidade de negócios. Tudo num mundo que se gera e se basta em intrigas de corredor, queimando energia na mediocridade entre oposição e situação, totalmente alheios ao interesse do povo. Os dias, noites e madrugadas são preenchidos em negociatas para votação e com jogos de desdouro e denúncias para manchar o prestígio do oponente. Nesse mundo todos são “migos”, ou seja, amigos ou inimigos de ocasião. Falsidade, fingimento e soberba são o ar dessa gente. As decisões são quase todas contaminadas por interesses dos financiadores de campanha ou eventuais empresas corruptoras com interesses em aprovar emendas e ressalvas em projetos. Na maioria dos casos são lobistas de interesses privados que assediam políticos para fazer aprovar seus interesses. Qual a qualidade desses interesses, quando se sabe que muitos tendem a eliminar a concorrência, causam danos à economia, ao Governo e, conforme se verificou, têm pago caro pela atividade legislativa orientada e têm ocasionado a paralisação de obra públicas quando já satisfeitos os esquemas de corrupção e “propinagem”?
E cada sócio do clubinho possui seus assessores, seu marketing para criar confusão e desinformação, proteger sua imagem. Possuem serviçais caros e também seus indicados que invadem empresas de economia mista e públicas como gente estranha, gerando ali as mais esquisitas sensações de iniquidade e onde, geralmente em posição de mando, estabelecem seu balcão de negócios. É assim que por acordos de venda de apoio, compram o direito de preencher cargos na estrutura, propiciando que verdadeiras “nulidades” ocupem lugares no Governo , com salários facilmente superiores aos de quem indicou. Um escândalo que é engolido como sapo pelos regulares empregados concursados, que sempre como técnicos são pautados pela “meritologia”.  Ao mesmo tempo, sem mérito algum, a camarilha política, paga com o dinheiro dos impostos, constitui, de tempos em tempos, a nobreza da República, a classe política, e não poupa em ostentação e soberba, esnobando as regras para concurso público impostas ao vulgo.
De costas para a população, os vários clubinhos fazem seus jogos, ditos por eles patrióticos, e vivem sem tempo para cuidar dos verdadeiros interesses verdadeiramente nacionais das empresas. O tempo de negociatas, acordos, tramas etc. lhes toma todo o tempo e assim vive o mundo político entre seus muros intransponíveis pela população que a cada dia esforça-se para tocar a rotina dura que lhe impuseram.
Como resultado de nossa cultura de tanta idiossincrasia, este quadro acima perfunctoriamente analisado foi o que temos hoje como top da evolução política, após a forja, a ferro frio, durante séculos. Seria legítimo desrespeitar tais conquistas, se considerarmos que os representantes do povo são a essência do próprio povo em seu caminho histórico? Ou a politicagem que tomou conta é exceção?O jeitinho brasileiro era corrupção na veia? Incríveis as respostas que um questionamento filosófico traria, devendo-se ressaltar, entretanto, que é prudente considerar que exceções não fazem a regra, pois a população em sua grande maioria, gozando de simplicidade intelectual, o que lhe dá timidez social, é honesta e trabalhadora e, embora vítima secular da negligência quanto à educação formal, tem bom-senso e sabe o que é certo e errado, principalmente quando há dinheiro em jogo, já que isto o toca no sentimento de justiça e equidade.
Sem embargo de todas as questões que podem ser levantadas, o que importa são as consequências para a acidentada vida social de hoje. O resultado em alguns casos é tétrico, pois atingiu a saúde pública ocasionando a morte ou aposentadoria por doença de milhares; atingiu a educação, condenando gerações e gerações ao cárcere da ignorância e à permanência no nível operacional; atingiu a segurança pública, gerando violência e total insegurança, levando a uma verdadeira guerra civil diária. Inacreditável ter nascido aqui a frase ”ele rouba, mas faz”. Quais os verdadeiros números da violência, da saúde, da educação? Há manipulação e um jogo de esconde-esconde para não revelar a ineficiência dos serviços públicos e não afetar a imagem política dos gestores, municiando a oposição. No entanto, no espaço da insuficiência, surge o império do crime, que controla bairros da periferia e produz notícias de insegurança diária. 
Em todos os dias, passou a ser possível ver relatórios sociais televisivos enunciando, indicando, denunciando, avisando sobre o processo evolutivo da sociedade que está em trilhas humanas duvidosas, embora andando em praças e avenidas mais modernas cheias de conquistas materiais e iluminação artificial.      
Num país de tamanho continental, com tantas realidades diferentes, onde se pode encontrar facilmente desde o Brasil de 1920 ao de 1980, o que vem chamando a atenção são as consequências da descura que estão crescendo e o povo está mostrando sinais de esgotamento. Buscando causas, que estejam além da realidade política e do mundo dos políticos, para os resultados de séculos de negligência quanto ao verdadeiro progresso e de hipervalorização do umbigo de alguns, encontramos doenças históricas que mereceriam ser objeto de um  tratamento psicanalítico para efetivamente possibilitar o progresso maior pela educação. Muitas das causas do momento atual estão na acomodação social, no analfabetismo e em sistemas oficiais que não foram revistos ou substituídos adequadamente.  
A centralização na União do poder de distribuir as verbas, garantindo o controle político e a sua manipulação em favor sempre dos aliados da situação, foi essencial para criar o caos que vem sendo anunciado. O Brasil ainda é o Império, ainda tem os coronéis e ainda vive ilhado em Estados, onde a política local é a mesma de décadas e sofre de uma cegueira histórica.
Ainda somos a pátria enrolada numa burocracia sem limites. Somos um país cartorial, apegado aos sistemas de controle tradicionais do país colonial de Portugal. Somos barrocos em vários sentidos e valorizamos mais os meios do que os fins. Não é a papelada que vai reduzir a má-fé e a malandragem na operação das empresas e no relacionamento pessoal. Criamos sinecuras para alimentar o nepotismo agora cruzado, camuflado, a fim de garantir altos salários para a nobreza. Somos ágeis em criar dificuldades para vender facilidades na agilização dos procedimentos bisonhos. Muito papel e mais corrupção para destravar processos. A desburocratização tem sido lenta desde os primeiros esforços de Hélio Beltrão para acabar com o excesso de exigências. Deve-se lembrar que o INSS por muito tempo exigia o famoso “atestado de vida” que tinha que ser apresentado pelo aposentado.  
Possuímos resquícios de sistemas tributários antigos, com as taxas e emolumentos, tudo com muito carimbo, guias de pagamento e procedimentos medievais para garantir emprego e ocupação à custa do Estado. Manter o Estado como o maior empregador é resquício de um Brasil sem indústria e rural, onde a capital era centro administrativo rodeado pelas roças. Embora o setor privado hoje seja empregador, os grandes salários só são pagos pelo Governo que vive numa irrealidade. 
Nossa população sofre com a qualidade do regime alimentar imposto, produtos de má qualidade, nocivos à saúde, viciada em sal, açúcar e gordura, já demonstrando estar doente e sobrecarregando o serviço de saúde e diminuindo a força de trabalho em muitos aspectos. Os números da saúde são assustadores. Na hora de trabalhar e produzir a saúde não corresponde. Qual a verdadeira qualidade do ambiente de trabalho? Qual a realidade nas empresas com o absenteísmo, licença para tratamento de saúde etc.? Vamos importar mão de obra logo em mais intensidade. O que e quem vem aí?   E mais, com o envelhecimento da população, o consumo diminuirá, certamente uma ameaça grave para todo o sistema. Exportar será a saída. Temos produtos e qualidade para competir no mercado externo? Sairemos da marca de estar participando só com 1% nas exportações globais?
Os eleitores estão nas vilas e grandes cidades e são, em grande maioria, originários da zona rural, habitam na periferia e continuam a vir para o mundo novo, onde pensam haver emprego, mas logo verificam que não possuem qualificação para quase nada; perdem sua identidade e não conhecem a cidade, seu histórico, sua gente, seus costumes e doenças sociais, não conhecem nem o nome das ruas e vivem num estado permanente de marginalização e alienação. Mas são os que votam ou deixam de votar, diminuindo a participação democrática na renovação de sua representação. Com frequência não conhecem os candidatos, seu histórico e acabam votando conforme a campanha de marketing político os conduza. Ademais diante de tanta notícia e variação, a memória popular não grava mais e esquece. Na próxima eleição todos os candidatos estão limpos na imagem. Não conhecem os programas partidários porque os próprios partidos não os divulgam abertamente. Os partidos é que irão comandar os seus políticos eleitos. Então como não conhecer a que clube esse ou aquele candidato pertence? Os eleitores são os motoristas, diaristas, serventes, porteiros, entregadores, coletores etc., uma minoria que achou emprego na cidade; é a precária mão de obra no mundo dos serviços. Vivem na periferia a sua realidade no Brasil atrasado, de onde saem também os que vão assaltar a cidade como se fosse ela uma grande roça de ninguém. Ali a violência é expressão máxima de toda a negligência na saúde, educação e segurança. É onde a corrupção e a má gestão pública fazem suas vítimas, condenando gerações. Pessoas simples expostas ao pragmatismo, racionalismo, utilitarismo, etc., como filosofias feitas para a produção, que facilmente condicionaram os empregados, os quais transpuseram seus “ensinamentos” para o relacionamento pessoal, gerando o confronto com valores cristãos, ainda não muito sedimentados e geralmente muito mal interpretados por todos, cidadãos e políticos. Um verdadeiro salseiro.  Exigir que esses cidadãos exercitem o direito de voto acertadamente, parece conto da carochinha.
Face o elevado semianalfabetismo, o país vive na oralidade. Poucos leem, poucos escrevem. Jornais, revistas, bulas e contratos são decorativos. Vale o que se escuta e o que o ancora de TV prega todo dia. Vale a fofoca, o diz-que-diz, o rumor de feirinha. Para muitos a questão é se o Brasil foi descoberto por Dom Pedro ou pelo Rock? Duque de Caxias foi imperador ou irmão de Tiradentes?  Fazer campanha política com base em debate ideológico ou projetos parece mais um belo sonho na Terra do Nunca e seu bananal, principalmente, se os debates ocorrem muito tarde da noite, desrespeitando o trabalhador/eleitor que tem que levantar 5 horas da manhã para trabalhar. Como esclarecer o eleitor por meio de debates? Prevalece então o discurso oportunista baseado em questões menores, mas que atingem o que o povo quer ouvir.
A representação na História do Brasil era tradicionalmente feita por quem tinha bens, portanto, interesses. Votava quem tinha dinheiro. Com a democracia, o cidadão tornou-se eleitor. O sistema até pode funcionar para eleger ou não, mas na hora de legislar vale o poder econômico das empresas interessadas em projetos de seu campo de atuação e pelo Executivo, ambos interessados na  compra dos representantes populares através de promessa de cargos, propinas e  verbas, eliminando a conquista democrática. Por falta de educação e ciência, a dependência externa aumenta e o país vira a feirinha de eletrônicos, teste de remédios, campo de teste químico e de tantos outros produtos e modismos, pelo que há enormes interesses estrangeiros em nossa legislação de modo que quem tem dinheiro continua remunerando quem legisla. A eleição democrática de pessoas para representar o povo, após o momento de posse dos eleitos torna-se, em certos casos, um cheque em branco. Não é um ou outro o caso de rápido enriquecimento dos eleitos.
Para acompanhamento da gestão, há muito pouca transparência, pois as informações técnicas e estatísticas são do Governo.  A participação é mínima e grandemente sectária, pois exercida por técnicos, ONGs, sindicatos e associações. O povo está fora e por fora. Audiências públicas para participação popular resultam em quase nada. Ademais a população quer obras locais e isto nunca interessou muito, porque não rende propina e não preenche os cofres para a próxima campanha. Ademais, a falta de recursos sempre foi a desculpa. É certo que o Governo não gosta de escutar pleitos que aumentem a despesa fora do já programado por seus interesses e seus financiadores. Acaba executando só o que lhe apraz. Para o povo só há promessas e blá–blá–blá com muita mentira quanto à realidade. Sem dispor de informações honestas e uma visão de conjunto, o cidadão não pode ter ideais e nem participar a contento, pois suas ideias isoladas terão que ser aceitas pela política e pela trama de interesses em que o cidadão não participa e pouco sabe de sua conjuntura, pelo que as ideais acabam sendo recusadas, quando não politizadas e enquadradas no jogo entre situação e oposição. Cansado de tantos anos de promessas e falsas esperanças, a população, por repúdio ou simples ignorância, volta suas costas para tudo isso, o que beneficia o mundo político, continuando este no seu mundinho encantado. A participação diminui, o interesse some. Já se fala em o voto não ser obrigatório, o que seria o melhor cenário para os políticos, beneficiando-se ainda mais da  alienação e desinteresse. Somos o país onde existe “a lei que não pega”, que não cola.  Alguma lei municipal ou estadual pega com facilidade? Talvez algumas. E a qualidade das leis municipais e dos projetos de lei. No geral, quanto custa esta festa legislativa por ano? E os órgãos de fiscalização, são ilhas de isenção e honestidade? 
A sociedade tem seu passo evolutivo ao logo do tempo. Direitos e conquistas sociais sempre são forjados ao longo da História, são expressão da lenta evolução do elemento humano da Nação. Seria legítimo negar isto? Qual sistema poderia interromper esta evolução e num passo de mágica transformar o país? O sonho vermelho, o amarelo?   Teremos que esperar o tempo. Para as gerações atuais nada acontecerá rapidamente. Se a corrupção acabar, já será uma grande vitória. Se o mundo político mudar, será uma grande vitória, mas só o início de mudanças melhores.  Mesmo com toda a tecnologia e avanços neste campo, a mentalidade de um povo necessita de tempo, de 100 a 150 anos. Não adianta acreditar em sistemas ou doutrinas miraculosas, que possam reformar ou revolucionar uma Nação em sua caminhada humana. E como vai o humano aqui? Muito mal não?
No que isto possa pesar, a cada época temos que ter avanços e para os tempos atuais o que continua a prejudicar a boa evolução, é que ainda temos o autoritarismo como regra. O coronelismo consegue sobreviver nos Estados e dita a política local. No jogo de oposição e situação, a oposição jamais vai deixar de criticar e minar projetos da situação, pois o desejo é que esta se dê mal e seja derrotada nas eleições. Direita, esquerda e o país não vai para a frente com a energia, com a qual deveria ir. No processo, o debate é agressivo, ninguém quer escutar ninguém. Ademais, num país fisiológico, o que impera é o caráter egoico do cidadão. O autoritarismo é campeão, pois ninguém quer ser contrariado e toma-se como centro do universo. A inflexibilidade, a intolerância, a impaciência são instrumentos mais eficazes de defesa do ego. Como o modelo está baseado em aquisição de bens e geração de impostos e não consegue entregar o que promete ao cidadão em sonhos de consumo e qualidade de vida material, a insatisfação é constante e a contrariedade constitui a semente do conflito diário. O autoritarismo é consequência normal em tal contexto. O processo democrático descamba para a pancadaria, manifestações de quebra-quebra contra o patrimônio privado e agressão ao policial, como se este fosse o Governo e seus políticos. Não temos tradição de debater. Criticar é ato imediatamente colocado como oposição. Somos autoritários em todos os lugares. O Poder é o meio de imposição. Não é só o Governo que é ruim e nem a origem única da ruindade. Governo são pessoas, pessoas que não vieram do céu e nem da mais refinada  nobreza .
Para piorar, o avanço de filosofias como o individualismo e pragmatismo, cria o cidadão frio e calculista, preocupado com seu umbigo, cego e egoístico, não se preocupando muito com o coletivo. A participação diminui em interesse pela política e há escassez de candidatos. Cada um por si é o lema. Pode haver até protestos políticos e pontuais, mas não há uniformidade de reclamação e revolta. Na rua, cada um é uma célula isolada, protestando conforme e por causa de sua revolta pessoal contaminada por sua insatisfação. Muitos dos que “invadem” órgãos públicos nem sabem o que fazer e certamente, se tivessem Poder, agiriam do mesmo modo que os eleitos ou até pior. O bruto responde fisiologicamente, não há diálogo, só violência ou silêncio raivoso. Cordialidade etc. são atitudes do passado.
E no campo espiritual, reduzido aos cultos e missas de adoração, observa-se o divisionismo cristão.  Católicos e evangélicos são a nova divisão. Já há divisão, discriminação entre tais grupos com consequências para a harmonia social. Fanatismo e obsessão são sementes más para o futuro. Famílias já estão sendo divididas lentamente e as consequências começam a invadir a casa do cidadão com reflexos nas opções políticas.
A cada gestão, o país dorme mais quatro anos, empobrece em mão de obra, fica fraco em ciência, diminuí os sonhos e chances de prosperidade. O fracasso das gestões tem reflexo no custo de vida e a cada ano a vida na cidade fica mais cara. Um dia será insustentável. Em algumas cidades, já se verifica a mudança para zonas rurais e pequenas cidades satélites, onde pelo menos o IPTU e o aluguel são mais baratos. Em números já preocupantes, de cidade para cidade, há fuga de eleitores, o que poderá aumentar.
Devido à economia sempre estar em crise, às dificuldades da vida e à qualificação deficitária da população, há campo para a má-fé, proliferação de golpes, negócios escusos quase como regra. Um caso de genética curiosamente adquirida com o tempo pela espécie humana aqui colocada. Ninguém quer pagar impostos porque não vê resultados. O caixa dois é regra. A tendência é de o velho e tradicional esquema de enganação. Malas de corrupção voam todos os dias. Tudo contamina o cidadão de onde saem os políticos. Nada de transparência, igualdade, participação, debate, quando se sabe que há sempre algo a esconder.
E o que falar então dos erros de gestão. Vários erros deixaram o país à beira do caos econômico e social. O Judiciário pune a corrupção, mas não o erro de gestão.  Estratégias econômicas que causam danos enormes a empresas do Governo, empresas de economia mista no Estado ou Prefeitura ficam impunes. Só há questionamento na época de eleições, quando definidos os lados com mais objetividade. Em cidades menores impera o silêncio com medo de perseguição. Todos engolem os erros grosseiros de gestão que estouram em mais violência, menos saúde e quase nada de educação. O erro de gestão é intocável, inquestionável, se ocorreu sem envolvimento de corrupção e propina. As entranhas das empresas de economia mista, empresas públicas e fundações etc. deveriam ser examinadas de melhor modo. Ali é o paraíso do Governo; o grande cano de fuga de recursos. Muitas decisões ali assustariam qualquer um do povo, porque decorrem de pessoas que são incompetentes para o cargo e também ali devem seguir ordens superiores externas. Pergunta-se, por exemplo, se o curriculum-vitae de certos indicados a cargos de diretoria é analisado previamente? Pergunta-se qual a razão para tanta propaganda, se as empresas tem monopólio. Os erros e desperdícios são ao jogados para a tarifa e ali tudo é aceito com farofa. Essas empresas com acionistas, CVM e tudo mais, fazem o que bem querem em gestões que só diminuem a energia empresarial.
E assim vai a vida aqui. Entre mentiras e verdades tudo vai passando. As gerações que assumirão o Poder e o comando da vida sentirão os erros históricos e os efeitos perversos da falta de qualificação e saúde e conviverão com níveis bem perversos de violência em todos os campos, pois a falta de amor ao Próximo, bem como a falta de amor à Pátria, será ainda mais comum.
Esperança e fé fazem o ar que uma geração entrega à outra no passar da vida. Não preocupam as conquista materiais, pois elas continuarão acontecendo; o que preocupa é a qualidade de vida física e espiritual do cidadão, o qual passará pelas avenidas iluminadas e prédios modernos. Em que estado?
Se juntarmos os vários sinais e cenários da vida, já de má qualidade espalhadas nos tabuleiros da vida nacional, poderemos montar um quebra-cabeças que dará a ideia do pano de fundo que está sendo instalado lentamente. Rio e São Paulo podem fornecer as peças mais ilustrativas, mas o quadro geral é feito por peças de todos os lugares. Algo tão grave e feio que até o quadro de Guernica vira tão belo quanto o de Monalisa.
Se o mundo político no seu modo de atuar continuar a viver sua fantasia dantesca, esquecendo-se do povo, a violência em suas múltiplas formas será tal que a vida aqui será muito complicada, uma tralha a ser carregada de geração em geração, deixando seus bugalhos pelo caminho da História.
Segundo analista americano, em artigo publicado em jornal brasileiro em 2014, a crise econômica irá até 2020. Tal previsão já é realidade e pode piorar após janeiro de 2019. As próximas eleições assumem cada vez mais uma importância relevância na História.  Não haverá mais espaço para devaneios políticos. Dinheiro, poder e coisas materiais ficarão em segundo plano, pois o que ficará mais relevante serão as consequências da questão humana.
O Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal continuarão com papel importante para lavar o país. Sem estas instituições não há garantia alguma que poderemos começar um caminho melhor. O cinismo ainda é grande ao se considerar que toda esta corrupção é pertence ao “imaginário acusatório”, é “ilusão midiática”, é invenção com fins políticos. Tal considerar indica que alguns políticos continuam arrogantes, sonhando em seu mundo de fantasias.
A reação só pode vir dos bons políticos que ainda existem e que hoje se intimidam perante as velhas raposas; bons políticos são a esperança para mudar pelo menos o mundo da política, hoje dominado pela politicagem, seus valores e princípios. Se não houver mudança ou um processo mesmo que lento de mudança, talvez algumas questões possam explicitar a necessidade e o fim do comodismo: será que a Venezuela há trinta anos, rica em petróleo, pensava chegar ao estado em que chegou? Nada é descartado na História, todas as alternativas estão em aberto. Um salto no escuro e tudo muda ainda para pior. O país tem que ser criticado, questionado no foro íntimo de cada cidadão e num pacto nacional de união de todos. Há muita crise escondida gerando problemas que logo serão maiores. Quando a atitude é esconder problemas, acha-se confusão. A continuar o joguete entre situação e oposição quanto à imagem a ser preservada com vistas às eleições, nada mudará e o pano de fundo da vida nacional começará a ficar fora do padrão da cena teatral que estiver sendo representada, inclusive pelo país no cenário internacional. Conflito, divisionismo, ódio, acirramento da luta de classes, discriminação, segregação e intolerância não tardarão a se alastrar. É este o Brasil que queremos? Os sinais e perspectivas estão todos aí, é só observar e começar a juntar as peças para montar a imagem do futuro.
Cabe lembrar de Rui Barbosa que ,há mais ou menos 100 anos atrás, disse à juventude do Brasil: “ De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
O cidadão esclarecido e consciente vê Rui Barbosa valer em suas frases, sente-se fora do contexto; suas crenças em valores e princípios honestos são afastados cada vez mais; sente estar deslocado, até mesmo antiguado, pois a falsa modernidade e o progresso sem rumo, que estamos vendo, criam um estado mágico de ilusão imbecilizante. Para população o medo de ficar mais pobre, de perder o emprego, de passar fome, medo da insegurança, da violência etc. deve ser também complementado pelo medo de ser destruído pelo individualismo frio e calculista que se agarra ao pragmatismo para afastar as pessoas uma das outras e dividir o país e a Nação.

Odilon Reinhardt.






 
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