segunda-feira, 3 de junho de 2019

No espaço dos mestres invisíveis II


















                                     No espaço dos mestres invisíveis II.









Na sequência da primeira parte deste texto, publicada em 3.5.2019, prosseguimos para expor que o avanço social e tecnológico produz efeitos sobre as pessoas de modo a entender que o mundo vai em frente e a população acha seu caminho, não ficando à espera de o Governo tomar atitudes, quando atrasado pela burocracia, brigas de gabinetes, lutas por poder, politicagem e a costumeira pobreza financeira e intelectual.
A tecnologia avançou, a iniciativa privada atualizou-se, o Governo não acompanhou nos setores que obrigatoriamente teria que fazê-lo; ficou enleado e atrasado em métodos, livros, aparelhos, falta de escola, equipe docente e discente qualificada, enquanto os jovens de hoje têm um computador na mão, prosseguem procurando escola  sozinhos, vão se ensinando com o que veem e estão expostos ao negativo também na medida que o “mundo” ensina assistematicamente e sem objetivo público e útil para o país. A sociedade avançou sozinha e mais do que o seu Governo, o qual se preocupa em manter a atualização tecnológica focada nos instrumentos de recebimento e controle da receita tributária, descurando do resto, onde encontramos a Educação. 
Mas no hiato deixado pelo Governo, “mestres invisíveis“ manipulados pela mais diversa fonte de interesses, atuam, treinam e educam as crianças, adolescentes e adultos em aspectos positivos e negativos, gerando uma lógica geralmente de reforço egoístico, gerando atitudes correspondentes que entram em conflito com forças conservadoras, mas que sempre trazem o novo e vencem para fazer uma nova época com seus avanços ou para se tornarem a sementeira do empobrecimento intelectual e escravidão.
No espaço acima referido, o qual tem crescimento geométrico, o país na medida em que o Governo dorme nos setores em que deveria estar bem acordado, fica no atraso enquanto o mundo avança, as pessoas se desqualificam ou gastam a energia à mercê de lições extravagantes, de modinha e de pura distração promovidas por várias fontes de interesses diversos. Sem qualificação formal para o desempenho de atividades úteis para o crescimento do país com qualidade e segurança, não haverá emprego mesmo que haja vagas a preencher.
A tecnologia, no mundo de progresso, avança a passos largos, cria novos modos de trabalho, as funções exigem mais técnica, é necessário saber antes de fazer, não vale mais o ir aprendendo ao fazer. Ademais, com o envelhecimento da população, por quantas décadas ainda teremos jovens? As funções de esforço físico estão sendo banidas do cenário pela robótica, porque o ser humano só causa problemas na ambiente de trabalho, enquanto os custos diretos e indiretos aumentam muito. Há indústrias que não precisarão mais de gente na linha de produção e outros setores. Com a tecnologia e sua rápida evolução há muitos empregos que ainda serão criados, todos virtuais, sem muita gente com força física.
O mundo lá fora anda rápido, estabelece novos modos de fazer e construir. Nós continuamos na época do Estado antigo, que vive de controle; de burocracia; dos sistemas antiquados, que são feitos para empregar alguns e funcionar pouco e se necessário não funcionar; da política pela política, benefícios e propinas.  Nosso Governo ficou velho, pobre, perdeu força, míope, gordo, lento. Ficou dentro da mesma caixinha e se desatualizou.
E quem decretou este fim melancólico, este crescente distanciamento entre o Brasil e o mundo inteiro? Certamente, o atraso, a falta de visão, a falta de mobilidade, a burocracia intencional, a corrupção, a falta de gente pensante, a política arcaica, o analfabetismo.
E como foi sendo formado o avanço mundial, as forças jovens e democráticas que hoje fornecem desejos e conteúdos que percorrem a informática e seus instrumentos? Fontes difusas contribuíram para mudanças nos modos de ver, sentir e agir; nova mentalidade, atingindo pontos irreversíveis. Afinal, os jovens é que sempre estão mudando o mundo; a nossa juventude fará o seu com o computador na mão; se estão errados ou não, enfrentarão seus próprios sucessos e erros, mas como qualquer ser humano, todos terão que pagar suas contas no final do mês. Depois, com o tempo, os jovens de cada tempo, também perderão o controle, o poder e novas gerações farão seu papel com as inovações da época.
Mudança, esta é a palavra chave e acompanha a humanidade. A meu ver, as mudanças foram formando-se a partir de algo muito básico: a vontade do ser humano de ser livre. É o anseio da liberdade, democracia e justiça.  Mudanças contra forças resistentes do poder de uma referida época, mas que sempre se estabeleceram. Neste sentido, a evolução pelo anseio de liberdade e maior participação passou por vários eventos, cada um acrescentando um novo passo e uma conquista da juventude em prol de todos. Todos se juntaram para atingir aleatoriamente a juventude.
Em países de permanente crise econômica, a libertação e a democracia, sem Educação de qualidade vira a pior das misérias: a escravidão da mente, eis que submetida à manipulação por forças externas, o vazio existencial, cheio de frustrações e as contrariedades pessoais bem como a violência decorrente. Com certeza, o bruto tem seus meios rudes, violentos, mas também quer liberdade e luta por ela com seus meios fisiológicos em detrimento do diálogo e entendimento.  Novamente a falta de Educação é entrave para a existência de bons avanços democráticos.
Ao longo da História, alguns eventos merecem citação, face sua importância na manifestação pela liberdade e democracia. Assim, o instinto de liberdade talvez tenha desaguado, com mais ênfase, nos tempos atuais a partir da Segunda Guerra Mundial, quando se quebrou a normalidade das fronteiras e das culturas, forçando a invasão de países através de imigração e da comunicação; a ruína das economias locais, causando a dependência de apoio de outros países, a queda do populismo originado com a Primeira Guerra Mundial, propiciando o avanço da democracia e a queda do colonialismo e das ditaduras. A estrutura política poder, que não foi capaz de evitar o conflito geral apresenta-se defasado; o “establisment” é contestado pelos jovens, a maioria transformada em soldados, que haviam sido obrigados a lutar.  O pós-guerra faz nascer uma nova ordem mundial. Surge a ONU e os povos começam a se conhecer culturalmente, surgindo intercâmbios e alianças comerciais. Surgem os Estados Unidos da América do Norte como líder e modelo para tudo, fornecendo dinheiro, novas máquinas e tecnologia, inspirando negócios e a ideia de que “time is money”.
Face à vitória da economia americana, após a Guerra da Coréia, a juventude americana tem sua grande revolução de contestação, quer novo modo de vida, quer liberdade. O rapaz não quer ser a cópia do seu pai; a moça não quer seguir os mesmos passos de sua mãe. A juventude não quer ser clichê, continuidade, quer tentar algo novo. Com movimentos musicais bem claros como o Rock and Roll , a juventude americana quer viver o “american dream”, “o american way of life” . Concomitantemente surge a cultura anti-establisment dos Beatnicks e uma enorme onda de fertilidade que fez surgir milhares de novos bebês, gerando o que se conheceu como “Baby-Boomers”. Tal fenômeno impulsionou a economia para novos ciclos à medida que os babys iam crescendo. Surge a juventude revoltada que fez surgir o problema do “gap” de gerações. A Educação em casa e na escola sofre revoluções. Os modos antigos de se comportar, se vestir e se divertir são alterados substancialmente.  A juventude do pós–guerra controla o país e cria novos ambientes sociais a serem copiados pela juventude do mundo inteiro. Na sequência, a revolta contra o “establisment”, este baseado no poder dos país,  disciplina, autoritarismo e militarismo, falta de diálogo e democracia,  ganha alguns ídolos num ambiente em que o socialismo e o comunismo tentam avançar para o Ocidente, desafiando a América. Assim em 1958, surge Fidel Castro e Che Guevara, para inspirar ideais libertários e moldar ideias de queda de poder por meios violentos. Nos EUA, o avanço é rechaçado prontamente com o Macartismo e as forças democráticas. Mas a juventude pós–guerra, com coca-cola na mão, continua com seus ideais libertários focados na flexibilização dos  costumes e comportamentos, mas não na política, pois a democracia é convincente e forte, acompanhada de uma escolaridade de primeira linha e uma economia sólida e próspera.
A vida segue no mundo e o progresso econômico é gritante. Mas novamente há guerra e a juventude está para ser castigada. É o Vietnam, guerra sem objetivo, lógica, sem razão. Talvez o modo do Governo americano de amedrontar sua juventude transviada, rebelde, contestadora. Milhares foram jogados na guerra, milhares ficaram em casa. E os que ficaram, o fizeram para prosseguir na luta pela liberdade. Assim, a guerra surgiu em meio a manifestações da juventude libertária americana, sempre enredada em música e música de protesto com suas letras simples, fazendo surgir ídolos que modernizavam a expressão popular, liderando a juventude do primeiro mundo e popularizando seus anseios para a juventude de outros países.  É a época das filosofias da Índia, do love-power, dos hyppies, da juventude desligada, revolução sexual, igualdade dos sexos, divórcio, libertação dos costumes, luta pelos direitos sociais dos afro-descentes nos EUA, transformações de base na moda, na cultura, a época da pílula anticoncepcional, do amor livre, das drogas afrontando tudo que os adultos da época haviam tido como regime e educação. Beatles, Rolling-stones e milhares de outros sucessores de Elvis Presley dão a melodia para a juventude avançar. O mundo não seria jamais o mesmo. A TV surge, com muita importância no mundo, como eficaz e rápida difusora de tudo que estava ocorrendo e possibilitando a cópia pela juventude de todos os países, cada uma com suas particularidades e circunstancias do país onde estava inserida. O cinema mostra modelos de vida solta, livre, afrontando as regras da sociedade como os filmes Easy Rider e os de James Dean. Evidentemente, uma letra de música (ou filme) existente no primeiro mundo era entendido em outros países só como música (ou cenas diferentes), mas era copiada e servia para embalar os atos que afastassem a juventude local dos condicionamentos ligados aos costumes e a educação rígida e inflexível. Ia sendo contestada a educação da vara de marmelo, do chinelo e da palmada. Contestavam-se dogmas e tabus religiosos. A religião católica entra em crise, mesmo porque na época as missas eram em latim e o sacerdote mal falava o Português ou a língua do país; não atinge o povo e quando o faz torna-se adoração cega, pois as metáforas da Bíblia não são entendidas pelos semianalfabetos. Os padres na maioria italianos nem sabem falar o Português direito e não entendem as carências do povo. Surgem seitas; religiões mais populares começam a crescer.
A juventude vai aos poucos moldando seus valores, princípios, gostos e desejos e principalmente sua visão de vida e mundo, dentro de sua lógica e meios para prosseguir. Agora já são os filhos da juventude coca-cola que estão na jogada. Nascidos na década de 50, já estão na adolescência. Se a primeira era rebelde, transviada, esta última é desligada quanto ao “establisment”, quer libertar-se de vez dos resquícios de autoritarismo, fascismo e educação “quadrada”, rígida, autoritária. Nada que tenha conexão com o sistema antigo é válido; o jovem quer lançar-se a sua própria experiência, bater a cabeça no muro por sua conta. São estimulados a isto pela indústria e comércio que desejam explorar a onda e modelar novos consumidores. As forças econômicas de produção e consumo logo viram nos jovens um mercado consumidor nunca antes visto. Há produtos novos para os jovens, produtos unisex, produtos de todos os tipos e há os produtos nocivos também. Os meninos usam cabelos compridos, afrontando o machismo ocidental. Os milhares de instrumentos e peças de vestuário possibilitariam a expansão do comércio do Ocidente para o mundo. E o episódio mais marcante desta época é a revolução da juventude na França em 1968, o que se espalhou pelo mundo ocidental, dizendo que não queria seguir os velhos métodos e educação rígida de até então. Era a mais moderna revolução francesa, num contexto cheio de uma juventude ansiosa e com sonhos de liberdade com vias à libertinagem e perda da dignidade, o abandono de si como protesto, o uso de drogas. Já aí verificam-se os primeiros atos das forças econômicas para exploração da juventude e a própria extensão da juventude até os 30 anos com protelação de casamentos, alongamento do período de entrada no mercado de trabalho, filosofias existencialistas, desnecessidade de fazer patrimônio, de “ter”, ideologia do “ have fun”. A fase da adolescência e juventude marcada pela vontade de a pessoa ser aceita e o início da sociabilidade é explorada ao extremo e lança tendências para a juventude do mundo inteiro.  Com as drogas vem o negativismo, as tatuagens, o obscurantismo cultural, o exotérico cadavérico. O anseio de liberdade concentra-se na mediocridade de afrontar o comum, o visual, a moda tradicional, o comportamento regular entre as pessoas. O negócio é escandalizar os mais velhos. 
Entre nós, a juventude universitária tinha uma motivação maior, pois estávamos no início da ditadura militar e os conflitos de rua, promovidos pelos estudantes universitários motivou o endurecimento do regime, dando a médio prazo mais combustível para o ideal libertário e democrático da juventude. Censura de obras culturais fechava o bico de qualquer expressão de revolta política ou libertária, tida como subversiva. Bane-se o ensino de Filosofia nas escolas e universidades para evitar o espírito crítico. Surge a restrição de direitos políticos etc. Tudo aguçava o anseio de liberdade. Os adultos tinham medo da repressão política e a população seguia o toque de caixa e a ordem do dia, mas o progresso seguia a toda. Havia programas de eliminação do analfabetismo como o Mobral e atendimento à miséria como o Projeto Rondon. O plano econômico era o do Milagre Brasileiro, a infraestrutura estava recebendo importantes obras para o futuro, a industrialização estava por conta de multinacionais, obras e mais obras surgiam no dia a dia, estradas estratégicas e aparelhamento de portos. As grandes cidades recebiam financiamentos para obras viárias, surgiam cidades industriais longe de São Paulo. Estava sendo construído um país realmente grande com financiamentos do exterior.  Era uma verdadeira revolução material, sem a qual hoje estaríamos em miséria muito maior.
O cenário político era pacificado com meios ditatoriais. A juventude em geral seguia livre, sendo abastecida por suficientes mensagens subliminares.  A indústria e o comércio investiam em propaganda para criar hábitos e também  aumentar o consumo.  O objetivo era condicionar e conduzir  a juventude, um mercado sem limites.  Para isto era necessário dar poder à juventude, libertá-la dos costumes domésticos e do poder do pai de família, que centralizava o poder aquisitivo. A vontade de liberdade virava negócio a ser explorado. Aqui o capitalismo não teria eira nem beira. Aqui, o choque de gerações corria mais lentamente com os pais perdendo poder e controle, mesmo porque os pais não queriam repetir a rigidez com que foram criados. A juventude coca-cola e, grande parte não tinha o pulso firme para educar e mesmo orientar os seus filhos na década de 60 e seguintes. Com o aumento do poder aquisitivo, muitos pais criavam seus filhos no pensamento de “eu não quero que meus filhos passem o que eu passei”, assim criavam reizinhos e cinderelas que também no futuro próximo já como adolescentes ou adultos, face às crises econômicas, não encontrariam reinos e seus príncipes, mas uma realidade mais dura que o esperado.  Também a necessidade de os pais trabalharem fora, deixava os filhos livres em casa, pelo que as forças influenciadoras externas estavam livres para agir como desejassem e moldar mentalidades mais “modernas”. A TV já funcionava trazendo para dentro de casa novelas de mudança radical em hábitos e costumes, veículo de lançamento de modas, integração de classes sociais, democratização e transformação social, tudo com viés político e econômico.  Os horários de estudo e leitura diminuíam. Já havia distração demais. Ao início ser livre era não estudar, fumar, beber, ir para a rua com os amigos, contrariar os pais para mostrar independência. Surgem os pais permissivos e as mães cheias de culpa por deixar os filhos em casa.
As novidades eram diárias e a vida prosseguia com as limitações de um país de terceiro mundo querendo crescer e participar do mundo, livrando-se da miséria, do analfabetismo, do atraso industrial etc.
Com o passar dos anos, o Governo militar preocupava-se em conter a crescente oposição política e os artistas censurados, também em busca da liberdade; a luta era travada no campo político e tomava conta do cenário e do noticiário enquanto a juventude seguia solta, mesmo porque a maioria sem escola mergulhava cega nos novos hábitos, comportamentos e atraída pelo brilho dos materiais de moda. Apesar dos esforços para eliminar o analfabetismo, este sempre estava por trás do cenário social. Poucos tinham oportunidade de estudar e uma minoria podia ir à universidade, na época, em grande maioria pública, que contando com restrições orçamentárias só podia oferecer um número limitado de vagas. Mesmo que houvesse mil bons candidatos, só 100 poderiam passar. Uma tragédia educacional.
Iniciada a década de 70, um fator ilusório de grande potencial aconteceu, o Brasil conquista pela terceira vez a Copa do Mundo de Futebol. O povo é distraído, a inflação está baixa, a industrialização está a todo ritmo e as fazendas agora plantam soja para exportação. A juventude universitária fica amedrontada com o endurecimento do regime militar, os políticos estão quietos e a TV agora é em cores. As cidades se incham com gente do campo, perdem identidade, surge o anonimato urbano e desaparece o controle social e visual de quem é quem e o que tem.  O emprego ainda não é problema. Os jovens que conseguem escola, estudam pelo sistema antigo enciclopédico, conforme a escola francesa. Salvo os bastidores políticos e artísticos, há estabilidade e a população está em relativa calma. O plano econômico Milagre Brasileiro vai bem. Todavia, em 1974, ocorre o choque do petróleo. A Arábia Saudita aumenta o preço e isto é fatal para muitas economias do mundo. O Brasil é atingido brutalmente e o regime militar sofre o impacto em suas estratégias econômicas e financeiras para o país. A inflação aparece para começar a minar a economia e todos os fundamentos são afetados. O regime militar muda o pensar porque entendeu que não haveria mais Milagre e o bom futuro seria interrompido, todavia, continua a repressão política e a censura, o que deixa a oposição irritada e em ação. No entanto, muitos programas reformadores do Governo continuam, agora sem muito entusiasmo.
Mesmo com as agitações e motivações políticas, a juventude continua com seu ideário inovador. A música agora é do “tropicalismo”, bastante brasileira, inovadora, mas seu conteúdo muito popular e brasileiro contraria o regime e a censura age. É lançada a campanha “Brasil ame-o ou deixe-o”. Muitos são exilados ou abandonam o país temporariamente. As forças de influência sobre a juventude e a população em geral continuam, com ou sem conhecimento oficial.
Apesar de o choque do petróleo ter abortado os sonhos brasileiros de economia forte, muitos resultados começam a aflorar comércio e a indústria através do marketing muito bem estudado trabalham em conjunto com a TV para intensificar a mudança de hábitos de consumo e a cultura do país de modo uniforme, espalhando o estado de evolução social de Rio e São Paulo para todos os cantos do país.  O país deixa de ser o local só de “jeep”, FNM e fusca. Há uma pluralidade de modelos de carros fabricados aqui mesmo. Os “sports” nascem com força após as Olimpíadas do Canadá e o país deixa de ser só do futebol. Os jovens tem mais campo para diversão e também futura profissão.  O comércio e a indústria crescem e continuam a afrontar os paradigmas católicos, entre eles o que pregava que o lucro é pecado. Já há jovens entrando no mercado de trabalho com salários maiores do que o de seus pais. A grande maioria de jovens que são empregados nas áreas de serviços ganham salário suficiente para bancarem sua independência e liberdade. O plano de acabar com o chefe de família começa a dar certo e a juventude ganha as ruas e pode comprar o que desejar.  Homens e mulheres jovens adquirem poder aquisitivo e o dinheiro fala mais alto do que o poder dos pais em casa. Mulheres começam, em maior escala, a assumir funções até então só para homens, a mulher começa a ter liberdade de escolha e salário para calçar seus projetos. 
Na escola, para os poucos privilegiados, os estudantes ainda continuam com o curriculum enciclopédico, aprendendo quase de tudo, no sentido de que a escola deveria mostrar ao estudante todos os cantos do saber e assim formar cidadãos inteligentes, esclarecidos e críticos. Tal motivação, no entanto, foi também objeto de reforma. Surge a reforma do ensino. O estudante não precisava mais ter noções de todas as matérias, entre elas filosofia, sociologia, psicologia, literatura, música etc. Bastaria Português, Matemática, História e Geografia, pois o objetivo era democratizar o ensino e fazê-lo se dobrar as necessidades práticas da indústria e comércio. Hoje, tantos anos depois sabemos no que resultou tal reforma e continuamos a ter 96% de semianalfabetos. As vagas no ensino público continuam no mesmo número e o vestibular segrega milhares de jovens.
Assim na década de 70, ainda tínhamos um Brasil identificável com anos anteriores quanto aos movimentos sociais; a juventude, embora toda a estrutura mediática para torná-la consumidora, ainda era familiar; os que tinham condição de estudar o faziam e os pais e a família ainda eram referência, embora já descorada. A liberdade era limitada a fumar, beber, sair sem permissão dos pais, contrariar alguma ordem ou costume social, tudo ainda dentro dos tímidos limites da sociedade. Poucos jovens deixavam de estudar, de ver o estudo como segurança para o futuro, de perder interesse pelo coletivo, de não se interessar pelo conhecimento e de desrespeitar o Governo. A violência era aquela normal, com crimes geralmente de origem patrimonial. As drogas ainda eram a maconha e a bolinha de anfetamina, vindas do Paraguai e os jovens usuários eram facilmente identificados.
E então chegamos aos anos 80, com o regime militar já desistindo do Poder e preparando-se para a redemocratização do país. O cenário político agitava-se com tal perspectiva. Os exilados voltam, ocorrem eleições diretas, a política dos atuais políticos é restabelecida. Os militares retiram-se lentamente e conforme sua programação, não obstante a oposição ( basicamente o MDB) não perdesse tempo em promover passeatas e comícios para faturar o momento e fazer-se de grande vencedor . Com a retirada dos militares, a horta está aberta aos sedentos e famintos que haviam sido impedidos de fazer negócios por mais de 20 anos. As porteiras estavam abertas aos corruptos. No entanto, o país já estava em outra época. As obras do regime militar surtiam efeitos e havia infraestrutura, empresas públicas, as economias mistas de luz e saneamento. Agora tudo entregue às mãos dos políticos, muitos hoje na cadeia e com múltiplos processos criminais.
Sossegado o país quanto à política, o discurso contra a ditadura etc. desaparece e o país respira ares novos: cheios de inflação, crise econômica, dívidas externas monstruosas, as quais teriam sido facilmente pagas não fosse o choque do petróleo e a continuidade do plano econômico traçado.  Não obstante a crise econômica, comércio e indústria vão em frente e continuam com mensagens inovadoras para aumentar o consumo via a mudança de hábitos sociais, utilizando companhias de marketing com direta participação na TV, aparelho agora mais acessível. Jovens são escolados na TV em várias orientações libertárias contra os pais, a família, ressaltando o individualismo, o hedonismo, pragmatismo, o existencialismo etc. Em tudo o país, católico em sua maioria até então, ressente a contrariedade aos valores e princípios com que foram criados no rebanho e o certo e o errado estão sendo contestados. O sentimento é de incertezas e desorientação que a inversão de princípios traz, mas nada é feito por quem deveria tomar providências. Com os pais fora de casa, face à dificuldade econômica e os anseios de liberdade já mencionados como características das gerações pós-guerra, a informática vai surgindo com seus aparelhos, jogos e uma lógica agressiva contra o Próximo. Ao início apresenta-se como maravilha do século e um belo modo de distração. O instrumental é uma luva na mão dos professores invisíveis e seus intentos libertários, que fazem surgir  das telas de computador uma nova mentalidade, uma nova lógica só acessível aos jovens em formação e apartada da mentalidade dos pais, muitos dos quais delegavam à escola toda a parte educacional. (Também pais semianalfabetos ou muito ocupados que já não tinham condição de acompanhar o aprendizado dos filhos na escola, acabaram deixando os filhos soltos neste campo. Ainda outro aspecto a ser considerado é a falta de espaço em casa para estudar e ter livros face à miséria das residências onde não havia hábito de leitura etc. Com pais semianalfabetos ou analfabetos, onde encaixar a necessidade de estudo e sua validade na vida diária, qual o incentivo prático diante da necessidade de sobrevivência pelos pais? Sem exemplos e sem incentivo, o jovem estava sozinho também neste sentido.) Como a escola não possuía computadores e ainda funcionava com métodos antigos para a aplicação de um curriculum escolar pobre, os jovens vão criando um mundo à parte entre eles, dissociado da dos pais. Vai nascendo um hiato, campo livre onde as mensagens subliminares com diversos interesses de caráter libertário comportamental atingem os jovens de todas as idades na solidão de seus quartos e salas. O Governo, priorizando obras de propina, de longe abandona a Educação Pública, porque não há verbas, não dá voto e os resultados são de longo prazo. O espaço entre escola-pais-jovens está livre para qualquer orientação.
Aos poucos, os pais vão ficando como dinossauros e a escola como parque dos desinteresses.  Aliás, a escola como espaço físico esta a cada dia sofrendo os reflexos da selvageria humana, pois as notícias trazem fatos alarmantes como vandalismo, furto de objetos para o ensino, furto de comida, “bullying” entre os alunos, assaltos em horário de aula, venda e consumo de drogas, tiroteios e mortes, professores ameaçados e agredidos por alunos etc. A questão é só falta de verba? A área da Educação ficou isenta da corrupção e das negociatas feitas por políticos? A escola é centro seguro de ensino hoje?
Ao mesmo tempo, atendendo aos chamados do comércio e indústria, milhares de jovens procuram trabalho no setor de serviços em busca do salário que lhes daria a liberdade e independência e passaporte ao poder de compra e acesso a milhares de novos produtos da indústria brasileira. Começam as surgir os supermercados e as redes de lojas de departamentos com mais intensidade e fora de São Paulo e Rio. Criadas as necessidades de consumo, a juventude entra de cabeça e tudo na onda de serviços, prevista por Peter Drucker. A pressão consumista aumenta com a crise econômica e a necessidade de o Governo aumentar a receita tributária.  Todavia, a chance de trabalho em subempregos  atrai estudantes e jovens sem estudo. Muitos passam a estudar à noite e muitos abandonam os estudos ou mesmo desistem de tentar achar uma vaga no sistema escolar. Há então menos horas de estudo, menos tempo para leitura, a juventude é conduzida pela dinâmica do mercado-salário-consumo.  A juventude que fica em casa é distraída pelos aparelhos da informática e jogos de computador. A escola fica mais distante com seus conteúdos sem atração ou de dinâmica atrasada em relação ao mundo que os jovens estavam adotando.
As crises econômicas não evitaram que o país fosse tornado uma feirinha de eletrônicos. Um imenso mercado consumidor de televisão e computador, este ainda rudimentar. A década de 80 foi marcada por crises econômicas, inflação crescente e política estável. Desviava-se dinheiro público no silêncio dos balcões de negócio das empresas e repartições públicas, a corrupção era ignorada. As drogas e a violência social ainda não perturbavam as autoridades. A Educação não era prioridade mesmo, mas a consequência de tal crime contra a juventude e o país não eram sentidos claramente. O país acomodava-se a sua mediocridade, vazio cultural e ao fisiologismo, tudo de acordo com o estágio civilizatório possível no momento.
A população ainda ressentia-se do cenário passado onde tudo que exaltasse a Pátria era tido como adesão ao regime militar. Se de um lado a oposição havia pregado isto, de outro o regime tinha sido contra qualquer movimento que fizesse referência a manifestações populares, direitos e etc. que não estivesse estritamente contido nos limites da ordem do dia do quartel.
Nesta dualidade de negações, durante e após o regime, o espírito crítico era qualidade só para alguns. A juventude, em sua esmagadora maioria, ficava “a latere” e mesmo que com seu anseio de liberdade física e econômica não se interessava muito por política. Aos poucos e inconscientemente os jovens iam definindo sua visão de mundo com especificações novas, retiradas das lições dos mestres invisíveis, estes falsos libertários, interesseiros e com intenções escondidas, porque exploravam o instinto de liberdade humana e a manipulavam e conduziam para objetivos nunca transparentes como: destruição de valores e princípios, mudança de pensamento, hábitos e usos, transposição do individualismo, pragmatismo e comportamento egoístico sempre instigando a competição e a comparação entre os jovens e demais pessoas, o que vem caracterizando a sociedade como um todo e fornecendo alimento à violência, intolerância, fanatismo e extremismo na medida em que o ego não é satisfeito, gerando insatisfação, medo de perder e muita ansiedade colocada em prática través de ações se reações de conflito), pragmatismo, utilitarismo do ambiente de trabalho para o relacionamento pessoal, descrença em regras de respeito ao Próximo, transferência de caráter obsoleto e transitório dos materiais para a relação entre humanos, abandono do coletivo, desrespeito a autoridade do Estado e do pai de família, crença de que a vida é curta e não há o porquê de se entregar a algo definitivamente, total obliteração do conhecimento das fases da vida, desinteresse por reunir patrimônio e pelo casamento, emprego descartável, negativismo e adoção de padrões estéticos correspondentes, descrédito do estudo, leitura e pesquisa, exaltação das vaidades e do ego, adoção de comportamentos frios, calculistas etc., etc., etc. Destarte a juventude vai catando aos poucos subsídios para montar sua lógica de mundo e a partir dela escolher seus objetivos e sonhos de vida, diferentes da dos professores, pais, avós, diferentes das do Estado e de todas as gerações até então. Com tanta diversão e fontes de variação o mundo da informática ainda engatinha na década 80, mas se prepara para se apresentar como instrumental eficaz para as aulas dos mestres invisíveis de um modo a atingir a juventude fabulosamente.
Mesmo sem computador ou com os computadores pré-históricos, com  celulares bem limitados e sem aplicativos, a juventude apresenta-se desligada do mundo dos adultos da época, mas muito ligada ao seu mundo e ao instrumental fornecido por jogos de computador, cujo nascimento foi feito no treinamento de soldados americanos que necessitavam ir à guerra sem piedade de matar o inimigo; eram jogos para diminuir a sensibilidade humana. E o Governo não soube captar a importância do momento, negligenciou, deixou de aproveitar a energia do jovem e orientá-la para o Bem. Os professores estavam sem equipamentos e restritos à programação escolar defasada e monótona. Os pais de época não sabiam controlar a onda e ressentiam a perda de poder junto aos filhos porque não participavam do mesmo mundo, o virtual que ia fazendo o real, em divisão na mesma casa. As sementes lançadas progressivamente nas décadas anteriores iam germinando.
E aí chegamos à década 90. A crise econômica estava devastando o país com uma inflação tornando-se incontrolável. O cenário político era dos políticos e os militares estavam fora. Greves eram comuns. Agora o Partido dos Trabalhadores era a oposição. A corrupção certamente continuava às escondidas e nada era divulgado. Farra total na Bolsa de Valores e empresas estatais e de economia mista. Todavia, os interesses externos não perdiam de vista o mercado Brasil, a feirinha promissora para as telecomunicações, aparelhos de informática etc. O país ia mal, mas havia mecanismos de recuperação dos efeitos inflacionários que davam renda extra para muitos, eis que a havia uma distorção entre índices e o preço real no comércio. 
Foi a partir de 1994 que a economia melhorou. Com a estabilidade, a informática invade o país com maior qualidade, a telefonia recebe um grande impulso , os celulares melhoram , surge a internet, e daí em diante a evolução dos meios acompanha o mundo. O Brasil liga-se ao globo e a população usufruiu da abertura dos portos, dos produtos e tudo. A juventude vê um incremento substancial na comunicação para o seu mundo e o que dele  quer fazer. Tal fato reforça mais a separação deste mundo jovem quanto ao mundo da escola, dos pais, dos professores. O conteúdo escolar, mesmo nas escolas particulares, monótono e envelhecido não acompanha a agilidade de informações e possibilidade de pesquisa no mundo virtual. O Governo perde-se de vez quanto à Educação na medida em que não tem verbas para equipar as escolas e universidades.  
A revolução dos meios é contínua, agressiva, ansiosa, rápida e cativante. A escola fica no passado, as aulas ficam na boca de professores defasados. O discurso jovem divorcia-se da realidade da escola e até da família. Todavia, por mais brilhante que sejam os materiais, os meios de comunicação, há mensagens subliminares conduzindo a juventude para falsos objetivos e interesses meramente egoísticos de consumidor e aparência, esquecendo as fases seguintes da vida.  A juventude parece eterna, mas mesmo assim é estendida até os 30 anos.
Os meios podem ser variados, mas o fim, a vida é a mesma. Há contas para pagar o fim de cada mês, há responsabilidades, há o Enem, o vestibular, a seleção para o emprego e há as fases da vida. Não se vai poder trabalhar eternamente em subserviços, andar de skate, de boné, ganhar pouco e só para pagar contas, ter o celular para o exercício diário do vazio do ti-ti nas egoísticas redes sociais etc., etc. Mas o jovem continua sendo iludido, desorientado por mestres invisíveis que continuam atuando no espaço deixado aberto pelo Governo, pelos pais e escola.
Começa a ser mais visível a mudança de mentalidade do jovem com o desinteresse por itens fundamentais para a vida de adulto com responsabilidades.  Num mundo de “fazedores”, as rápidas mudanças de tecnologia dos anos 80 em diante, quebraram os ensinamentos de “avô-pai-filho-neto”. Há uma ruptura total e a quebra dos modelos e padrões de educação. O adolescente foi “empoderado” com equipamentos e aplicativos de informática que aceleraram a comunicação e a troca de informações; adquire poder de acesso a fontes de informação que só ele na família possui. Isto quebra o diálogo e faz surgir uma nova crise entre gerações, pois os “velhos” se retraem e deixam de passar ensinamentos para a vida e importantes para o relacionamento. Com redes sociais e tantos outros meios de comunicação, o diálogo fica mais distante e o jovem mergulha no seu mundo à parte com seus colegas e amigos virtuais que por vezes nem conhece. Os adultos, na maioria despreparados para lidar com esta realidade, sentem-se de lado, deixam de mostrar o caminho certo. As crianças ficam sozinhas na frente da tela de seus computadores de mão em casa, na sala de aula ou em qualquer lugar. Será que o pai da jovem que disparou a revolução da Primavera Árabe sabia que a filha pelo computador iria provocar a queda do Presidente?  Assim, hoje não se escuta o jovem dizer “meu pai  ou meu avô me ensinou que ...”, mas “eu vi na internet, no Face Book ou fulano me disse que ...” As orientações vem de fora de casa, de fontes diferentes. E isto ocorre muitas vezes no período de adolescência quando o jovem mais precisa de orientação para resolver suas inúmeras perguntas existenciais. O mundo virtual enche os jovens de sonhos manipulados, desprezando a realidade da vida e dos pais.
Logo a ilusão começa a desaparecer e a contrariedade do mundo feito como mundo real cria o desajuste, fazendo surgir os jovens sem leniência para enfrentar as situações de relacionamento pessoal, as dificuldades no emprego ou no desemprego, as separações e conflitos pessoais e com o Próximo. Não era o mundo que esperavam. Nada corresponde a realidade montada com vídeos, games, mensagens subliminares de sucesso e consumo, de vida em si. Há insatisfação quanto à realidade. Desta juventude estendida até os 30 anos, quantos estão preparados para serem pais e contrariar seus pretendidos padrões de interesse e fantasias plantadas em suas mentes? Nasceu certamente um número considerável, multiplicando a figura do Peter Pan.Há resistência em entrar para o mundo adulto e contrariar tudo que pensaram de mundo e vida.  No entanto muitas antigas tendências já viraram realidade e são o passo para a sociedade em constante fluxo e mudança. Não há retorno. Com valores, paradigmas, incertezas, ansiedades cada vez maiores, idiotices pessoais e coletivas e o jovem terá o mundo que fez em sua distração e negação do “establisment”. Mas é certo, para todas épocas, que sem estudo, desejo pelo saber, ciência e controle do ego nenhuma liberdade será atingida com sucesso. Sem estudo, uma geração será vítima da outra. Sem discernimento, sem esclarecimento, o Governo terá cada vez mais dificuldade, mas não deixará de se fortificar, para controlar a população egoísta, fisiológica, bruta, animal, fria, calculista e violenta.  Teremos mais violência oficial e mais a do povo.  O povo é sempre maior que o Governo.  
Ademais, o país, em permanente crise econômica, não oferece oportunidades para realização pessoal, nem empregos à altura de seus conhecimentos. A pressão consumista feita até então gerou uma demanda reprimida enorme e difícil de ser satisfeita. A frustração é grande. Sem emprego é ainda maior. O recurso ao crime, ao mercado do submundo aumenta.   Os que conseguiram uma Educação de qualidade por talento, sorte ou poder aquisitivo dos pais podem ir para outros mercados no exterior, mas sofrem com a solidão e a depressão, a saudade da família etc.      
Quando o jovem já não é tão jovem mais, começa a ser vítima da exclusão em tudo, não tem emprego, não pode comprar, não tem o que fazer, não pode se mostrar a contento etc. Os resultados só levam à ansiedade, a frustração, a tristeza existencial e a depressão, a violência contra si mesmo e contra o Próximo, as tentativas de fuga e todas as consequências que a contrariedade ao ego trazem. Os traumas e problemas gerados para o mundo interno das pessoas são então considerados como dramas individuais e nunca erros estratégicos do Governo e sua negligência quanto à juventude.
O país já sofreu a tentativa de ser um convento, um quartel, um circo e agora chegou a infeliz época de uma grande clínica psiquiátrica, o que não vai acontecer de modo algum. Perante as necessidades materiais e o analfabetismo, o mundo interno de cada um não recebe qualquer atenção e deve ser solucionado pelo próprio sofredor.  
A juventude enganada está aí, é inteligente, é criativa, é esperançosa, mas construiu um mundo diferente e nele terá que viver sozinha. Haverá erros e acertos, mas tudo será uma nova realidade e terão que achar suas soluções para poder sobreviver. O Brasil será deles e para eles. Com 96% de semianalfabetos, a realidade será muito disputada entre jovens que podem e jovens que não podem. Campo propício para o nascedouro do ódio social, quando a mediocridade entra em cena e o ego de vaidade , ciúme e inveja comandam a mente.  Muito egoísmo, muita frustração e muita violência. O maior desafio é acabar com esta porcentagem maléfica de 96%. Para isto a Educação tem que ser prioridade. Haveria muito para ser feito com o aparelhamento das escolas, capacitação de professores.
Pessoas sem estudo são limitadas, desqualificadas, vivem frustradas e incompletas. A falta de estudo prejudica o pensar, embrutece, recalca, cria o cidadão de segunda categoria, condicionado a viver em estritos limites da liberdade outorgada. Há aumento da intolerância, radicalização, procura pela tribo igual, e o consequente repúdio à diferença. A falta de estudo deixa a pessoa exposta à manipulação das lições subliminares dos “professores” da má orientação, que vem usando o mais fabuloso dos inventos, a informática e seus aplicativos que deveriam ser usados corretamente para o Bem.
Hoje com a diversidade de meios e aparelhos cada vez mais admirável, tudo isto é usado também para o Mal, por pessoas malévolas e criminosas que se dirigem aos incautos dando-lhes falsos nortes e estimulando para que usem o ego para mostrar suas baixezas animalescas e vários tipos de violência. Só o estudo e o esclarecimento podem ser o antídoto contra o ego humano, hoje tão explorado pelas forças invisíveis. A liberdade é sempre o objetivo da humanidade, mas envolve responsabilidade, comprometimento social, estudo, esclarecimento, boa referência e aquisição de níveis superiores do pensamento. Com uma porcentagem tão alta de semianalfabetos é quase utópico pensar que a liberdade será atingida, mas é a única saída para o Governo, porque a liberdade é instinto humano e será sempre perseguida com Governo ou sem ele. Falta de educação pode culminar na avacalhação social, desrespeito civil, desgoverno etc. O controle de uma massa é sempre impossível com a lei e os meios policiais.
 Assim, no espaço de abandono deixado pelo Governo, pais e escola, a juventude de todas as classes sociais está sendo nivelada, achou e acha seus meios e montou e monta seu mundo. Teve por instrutores os agentes variados de influência boa e má, catou seus fundamentos e está para assumir o Brasil das próximas décadas, com sua mentalidade, com seus valores, desejos e prioridades. O dia a dia já indica os resultados que vão alcançar sem estudo, sem interesse pelo saber, sem leitura.  Mas, certamente, estarão com seus computadores e celulares ligados e os mestres invisíveis fazendo a cabeça de seus filhos. Continuará a pressão sobre os jovens e a população quanto ao consumo. Não haverá pausa, Governo, comércio e indústria precisam de receita para sobreviver. As dificuldades continuarão quanto à empregabilidade e a qualificação dos economicamente ativos e inativos.
Muitas pessoas já entenderam que sem estudo não farão patrimônio, não serão ricos nem conseguirão muito. O paternalismo estatal será cada vez maior, não será possível escapar do fascismo, entendido como controle estatal sobre o indivíduo, modo mais comum de conduzir um rebanho. Quais os limites da liberdade almejada pelos jovens em tal cenário? Será que tal liberdade resolve-se no sair de casa, fumar, beber, usar drogas, mostrar irreverência, afrontar a polícia, tomada como Governo, comprar o que desejar? Que tipo de ações ainda mais desesperadas será colocada em prática pela juventude que hoje ocupa lugares em subempregos no setor de serviços quando descobrirem que ganharam idade e as tarefas e o salário não são mais compatíveis com suas necessidades de adulto, casados ou não? Com o previsto envelhecimento da população, haverá jovens para garantir a substituição?
O desafio será sempre qualificar a mão de obra para os empregos do futuro. Se hoje forem tomadas as medidas corretas quanto ao conteúdo e aparelhamento da Educação por pais, professores, escola e Governo, só em 20 anos teremos resultados. Dar orientação correta e diminuir a influência de mestres invisíveis no meio tempo é o modo de diminuir a imposição de mentalidades adversas, só combatida com uma Educação que vise ensinar a lógica dos sistemas da vida, crítica, filosofia geral, para que as pessoas saibam lidar com as informações e suas diárias transformações. Isto é vital, pois o conteúdo dos livros está mudando diariamente face o avanço da pesquisa e da ciência. Portanto, melhor que ter informação é saber lidar com sua evolução e transformação. 
O Governo dorme quando não aproveita a energia, a inteligência e o potencial da juventude, altamente informatizada e apta a lidar com os meios, esperando  boa orientação para usá-los para fins úteis e de bom futuro. Na falta de boa orientação, o jovem está exposto.    
As linhas gerais foram estas. O Brasil do pós-guerra, até hoje, nunca foi para todos e nem construiu bases até agora para deixar de ser.
Seja lá como for o modelo de Educação formal a ser adotado para ocupar o espaço vazio até agora existente, só terá sucesso se afastar os mestres que reforçam o homo-asinus, egoístico, bruto, fisiológico e dado à violência.
Somos brasileiros resultantes do tempo feito por gerações anteriores em casa, na escola e no Governo. Esperamos que nossa nossos passos de hoje sejam corrigidos e que ensinem o futuro a andar em passo mais seguro e honesto. Pelo menos uma década à frente ainda viveremos sob o domínio das consequências das aulas dos “professores” do passado, sob o risco de vermos  aulas inéditas. Por falta de a Educação ser prioridade, estamos atrasados, perdendo trens na História, perdendo energia.
Um questionamento que pode estar sendo feito por alguns do Governo, talvez seja: “mas se a Educação de qualidade tiver sucesso ,a tingir a todos , haverá lugar de emprego para todos, se o país não crescer economicamente? Esta não é a realidade de tantos países que exportam mão de obra qualificada porque suas economias não entregaram o que prometeram ? Não se pode tomar decisões estruturais com base em tais questionamentos. A Educação é dever do Governo e tem que ser de qualidade e ser ofertada para todos, independentemente da situação econômica do momento. O ideal é formar o ser humano, qualificá-lo também como pessoa para que saia da miséria do vazio existencial, saiba controlar o ego e adote a civilização como meio de vida e todos os progressos que ela oferece com discernimento e esclarecimento. A Educação não é treinamento para exercer funções de fazer e produzir, é muito mais ampla, é melhorar o ser humano, o cidadão. Um belo modo de acabar com os castelos de areia montados pelos mestres invisíveis, falsos libertários com suas criações fantasiosas, transitórias, o que só gera contrariedade, frustração, ansiedade, medo de perder e depressão.  
Sempre alguém que tenha sobrevivido com suficiente espírito crítico em cada geração, preocupa-se com a linha geral, com as tendências e sinais de alerta na Educação e outros setores, porque a cada geração não sentem segurança para os jovens no futuro e têm a sensação de ver o Titanic afundando por falta de estudo e certeza no rumo a tomar para o intelecto, hoje cada vez mais exposto ao vazio da transitoriedade e ao terror da manipulação e péssimos condicionamentos. Sem estudo, sem esclarecimento, a mente fica exposta à  manipulação, ao fisiológico, ao segregacionismo, à radicalização etc. que dificultam a participação na democracia. A juventude que anseia liberdade é a primeira a ser manipulada. Não existe liberdade, se a mente que a deseja é cativa de forças externas de fonte diversa e objetivos transitórios, interesseiros e de natureza duvidosa. O instintivo sonho de liberdade pós–guerra não estaria em perigo? Os jovens manipulados não são a nova versão para a função:  escravo? 
Uma Educação de qualidade para reocupar o espaço existente entre juventude e o Governo, escola e família, envolve conteúdo curricular adequado, aparelhamento de informática, novos métodos, professores capacitados.   Isto se desejarmos realmente participar do mundo industrial e científico e não decidirmos ficar só como fazenda e local de extração.  Se efetivamente for esta a decisão, que o país se conforme com isto e não queira “comer feijão e arrotar camarão”, porque não precisará de pessoas qualificadas e aptas para o trabalho como ocorre numa economia inteligente, criativa e competitiva. Brasil fazenda e mina continuará a exigir o bruto, o fisiológico, o insensível, o “homo-asinus”, egoístico, este não precisa de estudo, vem com a Natureza do rebanho, isto é, galera.
Portanto, por várias décadas do pós-guerra, vários foram os eventos que podem ter reforçado a formação de uma nova modalidade para a juventude que com ela irão gerenciar o “mundo” nas próximas décadas. E seus filhos, se os tiverem, e se incomodarem serão calados com um celular ou game para que  fiquem quietos e não perturbem ou “ não encham o saco”, o que hoje já se observa em alguns casais de nova geração. Os próprios pais a título de egoísmo ou por ansiedade, pensando estar introduzindo a criança, ainda com o cérebro em crescimento, à modernidade e igualdade com as demais crianças introduzem o aparelho do século, expondo as mesmas às lições subliminares dos mestres invisíveis. Ademais milhares já são filhos de pais separados desta geração e só por isso já carregam suficientes problemas pessoais, com graves consequências para seu desempenho como pessoa “livre”.  
Vários fatores e eventos ocorreram, mas seguindo uma orientação subjacente, subliminar explorando o anseio de liberdade dos jovens. Mestres invisíveis com mensagens sublimares foram inculcando sementes. A difusão de tais mensagens certamente foi turbinada com o advento da informática, que invadiu a TV, o rádio, a imprensam, mas sempre com conteúdos feitos por mentes que usaram o marketing na mídia em geral para atingir a das pessoas para seus objetivos libertários tendenciosos. Que liberdade foi atingida com tal manipulação global em sua versão nacional?  
Sem Educação de qualidade, continuaremos a dar saltos no escuro.

Odilon Reinhardt  3.6.2019.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

No espaço dos mestres invisíveis I















                                       No espaço dos “mestres invisíveis” I .



 Diante de tanta informação e desinformação vindas de tantas fontes, deve-se questionar a qualidade das mensagens que vem sendo, por décadas, enviadas aos lares, sem que tais invasões, geralmente de forma subliminar, possam ser claramente percebidas. Que mentalidade vem sendo incutida como veículo de mudança?  Talvez preparando para um mundo de consumo ou realidade que não vai acontecer? Para um mundo que só existe na mente doentia e interesseira de alguns? Ou talvez seja só a mistura inconsequente de vontade de fazer consumir?

Por dentro de tantas mensagens, quais são os verdadeiros “professores” que têm influenciado as gerações das últimas décadas? Será que todas as comunidades estão no estágio evolutivo para receber tais mensagens, sem que tal fato lhes cause problemas graves de mudança de comportamento? Inevitável, da comunidade indígena ao centro urbano, todos têm estado expostos a tais fontes de mensagens diárias.

Há uma parte de uma construção, que está sendo feita aos poucos, e que tira vantagem do espaço negligente deixado pela falta de Educação formal de qualidade como orientação estrutural para cada Ser. E é esta parte da construção que afeta diretamente a qualidade da mão de obra e mesmo de vida de todos. Uma parte que visivelmente não tem dado certo, porque tem gerado violência explicita e implícita e gera consequências que serão constantes em cada dia do futuro. Talvez esteja dando certo para os produtores interessados em passar mensagens para a população, mas não para a Nação. Há um desespero em aumentar o consumo, gerar falsas necessidades, em convencer as pessoas a comprar. Nada fora do previsto para a sociedade de consumo, mas o fato é que os meios utilizados aproveitam as oportunidades para introduzir mensagens subliminares que precisam ser filtradas, todavia é bem provável que nossos 96% de semianalfabetos comem tudo com farinha.

Os sinais estão por todo lugar; em fatos isolados aqui e ali, em várias regiões do país e já se pode antever o agravamento das características que têm feito do presente um caminho de árdua degradação entre os humanos, mesmo que em alguns casos, o progresso material seja visível, bastando por si só para iludir os incautos e servindo para mostrar “progresso e sucesso” como incontestes resultados materiais, todavia jamais admitindo que há algo apodrecendo; invisível na raiz.    

Que fontes estão sendo usadas para passar mensagens diretas e indiretas capazes de fazer as novas gerações pensarem que o comportamento calculista, frio, racional, insensível, pragmático, individualista e egoico  é o ideal para fazer-se parecer “atual”, ajustado ao presente, em detrimento do bom comportamento, dos  estudos, da leitura, da escrita, da linguagem materna a ponto de colocarem seu futuro à míngua? Por que a falta de interesse, a falta de persistência, a desistência perante qualquer esforço exigido? Uma verdadeira cilada para muitos jovens que estão colocando seu destino em perigo e que quando a verdade, o choque de vida for dado, descobrirão que o tempo passou, foi desperdiçado em “modinhas“, no transitório, no efêmero, que pareciam tão essenciais para a vida, tão eternas, tão definitivas. E mais , que foram enganados pela falta de Educação de qualidade .

Mensagens bem coordenadas, persistentes insistem em querer mudar comportamentos e estes objetivam mudar a vida. Com que propósito? Os libertários atuam a toda hora; papagaios sem juízo. Está nossa população, espalhada em milhares de localidades de diversa realidade, com 96% de semianalfabetos, preparada para esta vida e este pensar que “alguém” lhes está impondo? Qual o nível de discernimento para selecionar certas mensagens? Estaria tal população de crianças, jovens e adultos preparados para serem “livres”, nos termos propostos, a ponto de vivenciar a realidade imposta, tirar suas conclusões e decidir seu caminho como pessoal sem Educação de qualidade?  Escolheriam caminhos compatíveis com suas reais possibilidades e com os interesses do país? Que interesses seriam os do país em determinadas épocas, neste jogo de direita e esquerda? A realidade existente é a resposta clara de que a negligência, o vazio educacional em todos os campos que constroem uma pessoa, têm resultado em má orientação, escolhas ruins para si e que resultam em abandono pessoal, descrença quanto ao país e uma brutal ignorância que escraviza mais e mais.

A que modelos têm estado expostas as gerações das últimas quatro décadas, que resultam em um aparente desinteresse pelos estudos, inconsciência e muita vontade de não respeitar nada de autoridade? Por que tais modelos são tão eficazes e superam os da escola? Quais as influências mais intensas que precisam ser analisadas para aproveitamento ou eliminação? Quais sistemas estão tendo tanto sucesso em atiçar cada vez mais o ego, o fisiologismo e a consequente selvageria frente a cada contrariedade gerada pelo próprio fracasso em conseguir o que tais modelos prometem? Por que a educação familiar, a orientação religiosa, o professor tradicional, etc. não estão atingindo o jovem? Qual a verdadeira filosofia das ruas? Por que a escola formal, o saber, o conhecimento não atrai o jovem? Que “professores” estão sendo mais eficazes junto às pessoas? Que fontes geram esta ansiedade que dá em depressão por não conseguir tudo agora, rápido, instantâneo, sem muito esforço? Por que o país, mesmo com as religiões existentes e a educação familiar, está cada vez mais desinteressante frente a tantas fontes de diversão e dispersão para os jovens? 

Alguns dos antigos modelos tornaram-se ineficazes. Não deram certo mais. Ficaram ultrapassados. O conteúdo curricular e seus métodos de ensino estão em descompasso com a celeridade e ansiedade criada pelos “mestres” invisíveis. A ansiedade e a pressão econômica levam à vontade de ir para a prática antes da teoria, a colher antes de plantar, a entregar-se a atividades de menor preparo, mas que garantam um dinheirinho qualquer. Os resultados estão aí, a sociedade está doente, mas os fatos isolados são tidos como problemas pessoais e nunca como problemas da sociedade e seus sistemas de condicionamento. Nenhum governo quer admitir a realidade do descaso ou mesmo incompetência em reverter o processo em andamento, para não se comprometer nas eleições. A escola de métodos antigos e conteúdo ultrapassado é uma realidade. Não atrai mais o jovem.  A falta de qualificação adequada gera desemprego, subemprego e violência; gera também o stress via medo de perder o salário, motivo de tensão permanente pelo desafio diário de poder manter-se no emprego, o que motiva doenças funcionais e afastamento do trabalho. Não seriam estes motivos suficientes para chamar a atenção oficial? Verifique-se a evasão em cursos de engenharia, o fracasso dos meios no ensinar a Medicina etc.

Quem preocupa-se, quem vai debater o centro do problema sem se enroscar em correntes teóricas de variada ideologia? Aparentemente esquecem que os resultados da Educação, como sendo aplicada, atestam que nada deu certo. O mundo existente entrou em total dissintonia com o mundo dos estudos, nos métodos até agora utilizados. As necessidades práticas e utilitárias instigam e combinam bem com a ansiedade coletiva. A crise econômica atiça a pressão sobre o indivíduo. O consumo oferece bens e atrai os jovens, cria ansiedade e frustração. No entanto, o aprendizado exige tempo; construir um cidadão na escola leva tempo em qualquer lugar do mundo. A título de exemplo, ninguém aprende Inglês em duas semanas, muito embora haja anúncios comerciais para atrair alunos. Há tentativa de reduzir o processo de aprendizagem a um mero objeto de consumo. A frustração é certa. O Governo na acompanhou a velocidade das mudanças de mentalidade, perdeu-se nas coisinhas da política do dia a dia e deixou de analisar o que está ocorrendo e tomar as providências necessárias. Ou será que intelectualidade tão preocupada com a direita e a esquerda perdeu o tato filosófico de entender o que os jovens estão querendo, o que as ruas estão reclamando, o que o mercado internacional está impondo e exigindo?

E na avalancha de prioridades na vida nacional e as questões políticas tomando a cena dos coredores dos palácios, a Educação vai e sempre foi ficando para outro plano e, década após década, vai-se perdendo jovens. “Isto é assim mesmo!”, “é o progresso!”,“ é a vida moderna!”, “ cada um que se vire!”. É o que se escuta como conformismo nacional na boca das pessoas. E a cada dia, a violência aumenta esboçando anos futuros de selvageria. E mais, os  jovens estão acabando, pois o pais está envelhecendo. Em muitos locais escolas recentemente construídas funcionaram por algum tempo e depois não há mais crianças. 

Tudo contribui para a defasagem entre exigências atuais geradas pela modernidade e a falta de aparelhamento moderno e atual da educação. Não há mais o porquê de fazer aluno saber todos os afluentes do Amazonas ou coisa e tal. O tempo está passando e mais jovens passam pela Escola sem saber até mesmo o que o sistema defasado tem por meta. O exame Enem atesta tal realidade. O indivíduo não tem preparo para as necessidades do trabalho mais elaborado, de alta tecnologia. Fica desempregado; não pode casar, não pode comprar, frustra-se e vai reagir. A violência só tende a aumentar em suas modalidades. A violência explícita é a que esta nos fatos da vida. A violência reprimida é a que se prepara para sair para fora, na rua, no trabalho, nas horas de diversão, em casa. Sufoca e tende a sair em explosão. Qualquer delas é violência e está aí se alastrando. Não será combatida com polícia, multa e revólver. Será maior, será incontrolável, se as tendências atuais continuarem.

Não é insatisfação contra este ou aquele Governo, é insatisfação contra a vida, contra a mera existência, contra o Próximo. É a agitação egoica, a contrariedade que gera a ira, fazendo com que o ser fisiológico agrida o Semelhante, como sinal de seu protesto existencial. Na rua, há vulcões ambulantes prestes a explodir por qualquer motivo. De novo, pergunta-se quais são os “mestres” invisíveis que estão atuando e fazendo a cabeça das gerações? Vamos continuar a engolir a justificativa de que é incontrolável e nada pode ser feito? Ora, alguém tem interesse neste caos, na juventude desorientada e fracassada? Os mentores do caos querem impingir a mentalidade, moda e nível de evolução decadente de modelos que não deram certo em outras terras? A quem interessa isto? A quem interessa despreparar e desnortear nossa mão de obra? Ou isto tudo foi se formando sem interesse ou o entrelaçamento de métodos contribuiu para algo incontrolável, como doença incurável?

Certamente, o maior veículo de introdução nos lares era a TV nos mundos fora do primeiro. É bom ficar de olho na virtualidade e seus diversos instrumentos, no marketing e programas de TV, este antes só na sala da família, depois na cozinha e quartos, hoje na mão de todos os jovens e pessoas e atua, pelo menos, corroendo 4 a 8 horas por dia, em horas gastas em imbecilizantes momentos de nada para nada, gerando ansiedade, rejeição e depressão devido ao mau uso.  O instrumental entra nas casas e cabeças por dois fios e ali fica fazendo a mentalidade de todos. O respeito à liberdade de expressão e pensamento deve ser preservada, mas deve-se observar que tal liberdade quando invadida por mensagens negativas tem produzido más mentalidades.

 ”Cabe a cada um discernir e escolher o que quer para si” diriam os libertários, sem se preocupar com a falta de alternativas de escolha, face à insistente presença de mensagens negativas e de desconstrução e diante da negligente falta estatal em providenciar o contra ponto com preenchimento do espaço com modelos positivos, eficazes que impulsionem os jovens para objetivos melhores.

 Se o objetivo é construir cada cidadão, deve ser construir novas gerações para o Brasil pelo ensino isento de ideologia, pregar o saber pelo saber, o acúmulo de conhecimentos gerais sobre a vida e a ciência para a vida e para a ciência como elas passaram a existir hoje, suficientes para esclarecer e possibilitar escolhas e debates no momento certo de cada indivíduo. O estudo das ciências humanas, a moral, a filosofia geral não podem ser esquecidos.

O que nos trava? Quem tem criado e conduzido o intelecto pessoal e coletivo? Até agora a infância e a juventude têm sido as vítimas da falta de Educação de qualidade, do fornecimento de remédios falsificados, da merenda escolar sem nutrientes e proteínas, quando não contaminada, de leite adulterado, da ausência de unidade escolar, de abusos físicos e intelectuais por parte da população adulta, assolada pela miséria egoística e material, selvagem e brutal. Como proteger as gerações futuras sem que isto seja assunto prioritário? “Que país é este”, onde a infância e a juventude são tratadas como carga, encargo, e mesmo assim geralmente negligenciado?

No vazio deixado pelo Estado, que sofre com a falta de recursos para a infraestrutura e deixa a Educação em segundo plano, as fontes de influência aproveitam-se do espaço deixado. Ali têm atuado os “mestres” mais atualizados e eficazes, inculcando na mente dos jovens e da população, em geral, lições tidas de falsa “modernidade e progresso”. Tudo passa incólume. O Governo não reage e a Educação embola-se na burocracia, na politicagem enquanto deveria chamar a atenção para análise e critica mais contundente para as verdadeiras causas do reforço ao individualismo, ao pragmatismo e ao comportamento egoístico, o que vem caracterizando a sociedade como um todo e fornecendo alimento à violência, intolerância, fanatismo e extremismo.  Mas a realidade de tantas mazelas não é exclusividade terceiro mundista, pois abrange a juventude do ocidente, até em países de primeiro mundo, em proporções bastante graves. Há uma mentalidade que foi se formando e que redundou no desinteresse pelos estudos, no acumular sabedoria, na desnecessidade de ler e escrever, no desprezo por tudo que lembre autoridade. Todavia, em países mais conscientes há contra ponto e há oferta de escolha por modelos mais positivos. Aqui, a rachadura entre esta mentalidade e os antigos modelos só pode ser preenchida com o meio termo e não com a radicalização, pois se trata de uma longa fase de transição entre o novo e o antigo; a ausência estatal deixa o caso ao descaso e por dentro de forças renovadoras, há o predomínio de forças negativas de decadência e negativismo.   

Ao longo de décadas foram muitos os episódios que contribuíram para a mudança de comportamento e mentalidade. Talvez não tenha havido um causa determinante, mas uma sequência de eventos que mostraram o início de uma  formação proposta para um mundo novo, o qual está sendo implantado progressivamente em descompasso com o aparelhamento estatal para a Educação. Um caminho novo para a Humanidade que foi surgindo e causa espanto quanto às mudanças radicais de sentir, pensar e agir. Um condicionamento mais eficaz e que atinge diretamente a infância e a juventude, carente de modelos e Educação positiva. Diante do espaço deixado pelo atraso do Estado, a sociedade achou seu próprio meio de evoluir. Se o espaço foi motivado por falta de recursos ou por planos estratégicos de forças econômicas, isto hoje pouco importa, diante da realidade instalada, a qual possui bons e ruins aspectos materiais e pobres reflexos humanos que precisam ser corrigidos, já que falta de Educação de qualidade tem se mostrado como semente ruim para o progresso da Economia, o avanço da mesma, em decorrência da mão de obra diretamente atingida por sinais de despreparo com todas as consequências decorrentes para o indivíduo, sua família e para a Nação. Impera a miséria intelectual como antecedente da material, o nivelamento por baixo e a mediocridade como forças negativas.   Quanto da mão de nossa mão de obra morre todos os dias em acidente, violência, por causas de saúde e simples falta de esclarecimento?

O progresso educacional tem que entrar em sintonia com o progresso material.

Um importante componente para a formação da nova mentalidade é que ao longo da História do Ocidente tem havido, sem dúvida, uma linha de conquistas sociais, todas decorrentes da vontade do ser humano de ser livre, de poder determinar-se, de poder escolher seu caminho. Em vários episódios as novas mentalidades sempre se chocaram com a mentalidade reinante, no entanto esta sempre cedeu e as duas, em simbiose, lançaram-se para a fase seguinte, exposta por sua vez a novas mudanças. As gerações mais antigas de uma época horrorizam-se com a mudança de hábitos e costumes; querem preservar os modelos com os quais foram criados e fizeram seu mundo e escuta-se: “ o mundo está perdido!”, “onde isto vai parar?”, esquecendo que elas mesmas ao seu tempo também criaram mudanças e horrorizaram seus avoengos. Todavia, a Educação sempre esteve presente e nunca foram abandonados os ideais de sabedoria, conhecimento, busca de esclarecimento e domínio do ego, seja por quem tinha acesso à escola ou por parte dos financeiramente excluídos. Na fase atual é novidade chocante e bem conflitante com os padrões de inteligência tradicionais este desinteresse pelo estudo tradicional de conhecimento geral e mesmo técnico, este desapego à sabedoria como meio de desenvolvimento intelectual, este apego a informações superficiais. E assim, o instinto de luta pela liberdade pode encontrar limites fatais, pois um indivíduo sem escola, sem Educação não se desenvolve, não passa do bruto, exposto à escravização, em suas versões modernas e atuais do consumismo como âncora inevitável para a Economia e sobrevivência do próprio Estado. Tal indivíduo será um seguidor, objeto dos eventos, um fisiológico irritável e explosível, fracassando em vários tipos de relacionamentos humanos e materiais, será uma ameaça ambulante para todos e tudo. Surge o predomínio do “homo-asinus (burro)” ao invés do “homo-sapiens”?  Tudo pela falta de adaptação dos currículos escolares e seu modo de aplicação aos meios e finalidades modernas da Educação para a produtividade, para o trabalho, para o emprego.

A falta de : atividade intelectual humanística, holística, diletante, o desenvolver do bem pensar, a liberdade de criar e imaginar, a adoção do pragmatismo   leva à imbecilização do indivíduo e da população, tornando-o superficial, seguidor de qualquer onda, pelo que o seu instinto de liberdade o joga no cativeiro da ignorância e da manipulação por poucos. É o rebanho solto na campina sem orientação.  A ignorância traz os componentes mais funestos da nova época em busca da liberdade: o “saber nada”, o “querer tudo já” e o exercício do ego mais animal.   A manada lutou muito para vencer a cerca e ganhar a porta da liberdade, mas ficou exposta ao animalesco, à escravidão moderna da falta de discernimento.

Adentrando no processo evolutivo da sociedade ocidental, encontra-se a luta contra qualquer amarra que barrasse ou protelasse a liberdade individual, certamente a queda da escravidão e da monarquia foram eventos que abriram as porteiras para a sociedade livre, surgindo o Governo do povo, pelo povo e para o povo. Os anseios de liberdade, igualdade e fraternidade estigmatizaram os movimentos pessoais e o caminho foi aberto ao tempo futuro. As reações de preservação do mundo contra as novidades de cada fase foram marcantes e ao início conquistas de direitos, hoje básicos, originaram muitos conflitos e guerras.

O fato é que vencidas as restrições, o novo vence e as gerações acabam fazendo o que, como e quando querem. É questão de tempo e intensidade. No entanto, nestas últimas gerações, como dito acima, há componentes novos que podem derrotar a liberdade. A adaptação da Educação às necessidades modernas é um imperativo de sobrevivência. As gerações mais novas é que estarão no poder da vida. Ninguém hoje, com idade acima de 65 anos, no Poder de mando para mudar a Educação, vencerá as novas gerações e sua mentalidade, pois o Brasil será dos jovens de hoje com esta Educação que lhes foi dada.  Eles administrarão o Brasil e farão dele o que lhes aprouver. 

Seguindo o histórico, a  Primeira Guerra Mundial foi um grande susto para as monarquias e a sociedade humana, abalou os modelos conservadores e abriu o mundo para a democracia. A condução do Estado já não podia ficar na mão de alguns sem a participação popular, os soldados e suas famílias etc. Até mesmo entra no questionamento a autoridade da fé cristã e sua propaganda de amor ao Próximo, recuperação até hoje em andamento. No interregno das guerras, face à necessidade de reestruturação do Poder e a crise econômica, houve avanço substancial para as liberdades individuais com legislação correspondente.  Com o advento da Segunda Guerra Mundial o mundo monárquico e as forças conservadoras cederam à realidade, a democracia era o caminho de liberdade. Os países se abrem ao mundo, há a migração e as culturas mostram-se em sua diversidade. A diversidade dos povos está no palco da Humanidade exposta. Surge uma nova ordem mundial e os modelos antigos e conservadores não conseguem se restabelecer. O povo toma conta. 

Nos anos pós-guerras, as nações unem-se, as colônias libertam-se, as grandes descobertas da física e da química são alavancadas e fazem surgir mecanismos, armas, aparelhos e novos materiais. Surgem os meios rápidos de comunicação e os transportes globais, unindo culturas, fazendo uma nova época para a Humanidade.  Surgem instrumentos domésticos em escala de venda internacional como o telefone, a geladeira, os carros populares, a máquina de lavar roupas, a geladeira e uma imensidade de produtos alimentícios. Novas fontes de energia são exploradas etc. A medicina e a pesquisa científica geram avanços no prazo de existência do ser humano. Tudo é progresso e favorece o homem e a mulher. As conquistas materiais são todas promovidas por tecnologia de países que nunca abandonaram as pessoas, investindo em Educação de qualidade, isto é, uma mão de obra preparada não só para pensar como também para fazer. Obviamente, as exigências econômicas, principalmente com os planos de recuperação da Europa e Japão, fizeram os países exportadores saírem de casa à busca de mercados novos, lucrativos, que garantissem sua prosperidade. Há intercâmbio de modo de “fazer”; a técnica é vendida como mercadoria valiosa.

A época era de desbravar mercados, novos nichos de mercado.  A população tem acesso a mais emprego, salário e bens materiais. As ditaduras e regimes autoritários e totalitários remanescentes começam a ser questionados e perdem espaço, mas ainda são modelos e fontes de Poder; todavia, o instinto de liberdade alimenta a democracia para um caminho sem retorno. A população começa a participar, as oportunidades são novas e variadas, os países precisam crescer, ter PIB, e as novas chances exigem pessoas, para ocupar os inúmeros cargos e postos de decisão e trabalho. A participação popular é inevitável em todos os campos e o preparo através da Educação de qualidade sempre foi a prioridade. A escola pública torna-se forte e essencial.  Quanto à Economia, a  receita tributária atrela-se ao consumo e é fundamental para a sustentação do próprio Estado. O emprego, a mão de obra assume a importância e a Educação deixa de ser algo para alguns num país de empregos de esforço físico, mas algo essencial para todos que possam trabalhar e contribuir para a geração de ideias produtivas. A Educação é questão de Estado e o saber não é só aquele de manusear uma enxada, cortar carne, plantar, mas o saber que desenvolva a pessoa e desperte seus talentos e capacite-a para pensar, produzir na indústria, gerar ideias, gerenciar com qualidade, investir com segurança etc. As viagens espaciais e suas experiências faz surgir o mundo inédito da computação; seus fabulosos instrumentos democratizam a informação. Qualquer um tem acesso a tudo e qualquer assunto. É a maior revolução já vista.

Com a progressiva industrialização, surge o interesse econômico multinacional, a balança de pagamentos entre países, os blocos econômicos e o interesse globalizado. Este como sustentação da ordem mundial. O ser humano sai de sua pátria e vale pelo seu saber em grupos científicos, mistura-se; há a  abertura cultural, e a consequente ameaça a crenças e modelos nacionais que tentam conservar seus padrões , todos em “delirium extremis” , principalmente  os mais fechados, procurando preservar seus paradigmas autoritários e controladores da liberdade individual. Quebra-se a hegemonia de indústrias e de pequenos grupos econômicos e empresas individuais, eis que a liberdade de empreendimento é para qualquer um do povo que tenha o espírito de empreendedor. O ser humano muda, vai adquirindo nova mentalidade, mas no primeiro mundo a Educação nunca é abandonada. 

Inegável o progresso material das últimas cinco décadas. No Brasil ou em outros países o processo está em andamento. O mundo muda e novas fases estão chegando. Cria-se este descompasso entre Escola e a mente do aluno, um “gap” entre o pobre curriculum escolar e o que o aluno vê e assimila no mundo da computação etc. Infelizmente temos 96% de semianalfabetos, excluídos da Educação e de qualquer Educação de qualidade, mas expostos às fontes onde mestres invisíveis atuam negativamente. E é com isto que estamos entrando para novas fases do mundo ocidental. Uma demanda reprimida inimaginável em vontades materiais e necessidades instigadas pelo marketing.

Esta mesma massa de mão de obra precisa ter emprego, salário e precisa consumir. Teremos que manter empregos já em desuso em outros países somente para garantir empregos? Sim.  Novas gerações estão expostas ao despreparo e sofrerão as consequências na carne. Do mesmo modo a automatização e mecanização serão inimigos do povo quando reduzirem empregos e serão fatores da falta de competição e preço para nossos produtos no exterior.

Estas novas gerações que demonstram este aparente desinteresse pelo acúmulo de saber e são influenciadas por “mestres “outros, sem correta orientação, poderão ser os cidadãos mais fisiológicos e egoísticos dos últimos tempos. Seu ideal de liberdade não cessará, mas os meios para obter tal condição estarão cada vez mais difíceis e poderão tornar-se escravos de si mesmos e das características mais baixas do rebanho.

A realidade atual, como se formou por ausência de adaptações inteligentes, expôe gerações ao abandono das lições de mestres invisíveis e terá desdobramentos, ainda por várias décadas, pois mesmo que haja uma retomada da Educação e que recursos sejam efetiva e seriamente destinados a ela, trazem a questão: quais as condições materiais, sociais e familiares para que haja sucesso imediato? O indivíduo como criança sofre a miséria de tais condições ao seu redor, criando um hiato entre escola, casa, família e bairro. Tal fato não ajuda em nada, a escola em tempo integral seria a ilha de salvação, a proteção da infância e da adolescência contra as circunstâncias sociais de miséria e mau nutrição nas redondezas.  Se algo for feito, tem que ser feito agora para começar a dar resultados em 18 anos ou mais.   Lembre-se Darci Ribeiro “ uma criança só tem 7 anos uma vez....”l   

É o nível a que chegamos.  Mesmo com o aparelhamento estatal defasado, mas existente, e a contribuição da escola privada, pergunta-se: como o progresso material não atingiu a todos? Como  produziu gerações, mesmo nas classes de maior poder aquisitivo, que deixaram de lado o interesse pelo saber, pela Educação como fator de progresso individual e nacional? Como surgiu a falta de interesse do indivíduo em saber, em estudar, em ler, escrever, pensar em meios de melhorar o intelecto, passando a se enganar com ondas de manipulação do seu intelecto por “mestres” do vazio e do saber nada sobre tudo?

Avanços para atualizar e conseguir reduzir o “gap” entre a Educação e o progresso material aparece no ensino à distância, com consequente eliminação da vida escolar, da aula presencial, do local físico de Escola ou Faculdade, da turma de formatura, a diversidade de livros e fontes de pesquisa livre, a pluralidade de métodos, o Google como dicionário aberto, etc. Isto sem entrar no mérito, se o conteúdo mostrado no visor de TV é assimilável com a mesma eficácia de uma aula presencial. Ademais para que acumular conhecimentos e dados na cabeça, se tudo está à disposição para consulta por meios virtuais e para o indivíduo normal basta saber procurar a fonte?  São novas mentalidades no campo da Educação que precisam ser consideradas.

O certo é que diante da lentidão estatal, a vida segue e a iniciativa privada toma suas providências e investe em nichos do mercado; também “mestres” invisíveis ocupam o espaço e os jovens acham soluções nem sempre positivas para assegurar seu futuro, a final este é o país onde cada um ainda pode se virar por conta própria, onde qualquer um pode ser pintor de parede, encanador, eletricista, cozinheiro, pedreiro, sem ter diploma nem escola, podendo mudar de ofício como e quando desejar, podendo inclusive tornar-se soldado do tráfico de drogas ou do crescente crime organizado como desejar.     

Onde estariam as raízes da nova mentalidade distraída, descolada, ignorante embora bem focada em várias efemeridades inócuas ou não, a não ser na falta de contraponto oferecida pelo Governo diante dos “mestres“ invisíveis da negatividade?  Seria esta a pergunta certa a ser feita?  A nova mentalidade não estaria a exigir novos métodos, novos conteúdos na escola para aproveitar toda a energia e vivacidade dos jovens para a adoção de modelos positivos e mais inteligentes?

Uma nova época vem surgindo e jovens muito mais ágeis e talentosos não se interessam pela aula regular e tradicional, pelo livro, pelos métodos antigos do ensinar, pelo professor atrasado e etc. A falha em acompanhar e tomar providências por parte do Estado, gordo, lento e ineficaz e pobre, está deixando um espaço abismal entre realidade e escola. Espaço onde reinam mestres invisíveis de influência e validade questionáveis.  ( continua em 3/6/2019). 



Odilon Reinhardt .   3/5/2019.    















   




quarta-feira, 3 de abril de 2019

Tempo de consequências








                                                       Tempo das consequências.

                                             Não basta trabalhar, há que haver futuro bom.







Esperança e fé nos governantes nunca deixou de existir. Eleitos e seus assessores que são indicados e não eleitos, devem colocar o país em rumo diferente. Todavia, a falta de Educação de qualidade nunca foi tão evidente, tendo-se tornado a raiz de problemas estruturais. O abuso foi enorme, o desleixo monstruoso, a negligência terrorista. É o tempo de colher. Os efeitos aparecem no dia a dia, na qualidade das soluções, na prestação do serviço, no exercício de ofícios e profissões, no escritório, no consultório, na oficina, no restaurante, no relacionamento pessoal, nos negócios. Uma tragédia danosa e perturbante.

O mercado dobra-se ao analfabetismo para não perder o contato com o consumidor. A língua portuguesa é deteriorada para chegar ao povo; falar, destruindo as regras gramaticais, dá a sensação de as pessoas serem informais, mais democráticas, serem atuais e jovens. Via mídia, o marketing garante a aproximação com a “galera”, mantendo a soberania dos níveis inferiores da baixa alfabetização.   O país dobra-se ao fisiológico e vive do nível de mediocridade em vários setores artísticos, que detona as letras de músicas, os diálogos teatrais, etc. O que interessa é vender o popular, sem forçá-lo a se inspirar em algo mais elevado como se a miséria fosse algo perpétuo e as pessoas nela estivessem acorrentadas na existência. Que ideologia alimenta tal disparate?Rejeita-se qualquer modelo, qualquer padrão mais intelectual porque sua adoção passou a ser vista como algo elitista, conservador, autoritário e distanciado do povo.

Não se exige nada, respeito a qualquer nível que exija esforço intelectual para que a pessoa sinta-se inspirada ou mesmo forçada a alavancar seus conhecimentos e sinta que deve seguir etapas para crescer. A mediocridade e o nivelamento por baixo parecem reinar. Há o esvaziamento dos bons modelos sob a justificativa de terem sido criados pela “elite”.

O país vive na oralidade, com poucos livros novos e de qualidade, poucos jornais, pouco interesse na leitura. Vale a imagem, a foto, os números e o que a TV deles diga. A crítica, o pensamento, a interpretação e o discernimento são terceirizados para o comentarista, para o âncora de TV. É a progressiva tendência no caminho de esvaziamento intelectual. Na enxurrada vão as pessoas  para a vala comum a poesia, o romance, o amor bem como qualquer outra manifestação humana mais sensível, porque o pragmatismo e o utilitarismo dominaram o cenário, levando a esta situação de morte do cérebro pensante e para esta falência do pensamento e a progressiva redução da sensibilidade.  A cada dia uma evolução social baseada em filosofias boas para a fábrica e sua linha de produção, filosofias que orientam a massa também mas relações sociais e familiares, produzindo um país rude, grosso, insensível, egoísta,  violento e sem Educação. 

O país torna-se cada vez mais um rebanho de seguidores, que em hordas fisiológicas, vivem e se alimentam de dias pobres e sem qualquer encanto ou elevação intelectual. Os livres pensadores fazem raridade e mesmo entre eles o egoísmo os joga em seus desertos. A intelectualidade deixa de ser profusa, variada, passando a concentrar-se em ideologias decaídas, em assuntos ultrapassados, os quais  que  no país parecem um círculo vicioso; certos temas são trazidos à discussão de modo que parecemos estar em 1910 ou até no século XVI; fatos históricos são discutidos e criticados com os olhos e valores de hoje, por falta de estudo e conhecimento. 

O fato é que a Educação da década de 1970 para cá vem sendo descurada  em suas bases. Os resultados aparecem no Enem e outros testes nacionais. Inegável a existência de péssimos resultados e nos castelos do Poder o assunto não é prioridade, não rende votos, não é nada. Há uma cegueira que impede de observar que os resultados são pragmáticos também, aparecem na dificuldade de achar soluções no dia a dia nos mais variados setores produtivos, onde visivelmente a carência de mão de obra assusta qualquer empreendedor, simplesmente por falta de pensadores, idealizadores. Todo dia, recorre-se aos consultores, doutores ou especialistas, os quais tentam  suas fórmulas, geralmente alienígenas, feitas em famosas faculdades, mas pouco testadas . Aliás, o país é um excelente campo de testes em vários setores e também no educacional. Teorias, teses etc., que não deram em nada. 96¨% da população é de semianalfabetos.  Não há unanimidade em nada, só uma interminável luta de egos e inconsequente disputa ideológica atrasada, enquanto milhares de crianças, adolescentes e acadêmicos são vitimas desse estelionato que os marcará para sempre. 

Hoje os estudantes não aprendem a seguir o valor do estudar, ler, debater, escrever, ganhar conhecimento geral, esclarecer a vida, criticar, ter curiosidade saber, descobrir talentos, procurar oportunidades intelectuais de crescimento individual e coletivo. Se isto ocorre, é logo desestimulado face ao fascínio pelo mundo real do consumo, que cada vez mais apresentam mais e mais fontes de distração, de passageiras modinhas. Como superar tais atrações, impondo atividades escolares tidas como monótonas e sem contribuição alguma para a aparência, competição e comparações? Enganados os jovens perdem precioso tempo de preparação, pensando poder recuperar quando desejarem, enquanto a vida segue e provavelmente ensinará a cada um que “uma criança só tem 7 anos uma vez”.

E assim vai o país mantendo seu imaginário coletivo irreal e nebuloso, inconsequente e irresponsável.

Considerando os últimos 519 anos, podemos estar na pior época, a das consequências. O esboço de humanidade aqui tentada desencontra-se com o paraíso geográfico. Inquilinos da terra bonita e formosa, parecem estar seguindo rotas em desertos verdes sem saber onde chegar.  De geração em geração, pouco é feito, muito é destruído em termos de construção intelectual humanística. É o processo iniciado com a Reforma de Ensino do Ministro Passarinho, que a título de democratizar o ensino, reduziu o “curriculum” escolar para Matemática, Português, Geografia e História, abandonando assim o modelo francês de ensino enciclopédico e que visava a construção do cidadão em termos humanos e como elemento da civilização. Mesmo diante de tal drástica redução, nada deu certo. Não houve avanço nem para os jovens destinados a plantar, colher, cuidar do gado, cortar frango etc. O objetivo democrático no ensino falhou pela qualidade, produziu evasão, reprovação, excluiu. Que tipo de mão de obra temos hoje?  Já que gostam tanto de pragmatismo e utilitarismo, que se questionem para que servem, que qualidade têm? As incógnitas nos levam a questionar: há tempo para recuperação?

Dos castelos do Poder, o Leviatã está engolindo a todos com a imposição de rotinas de sempre, futricas de corredor, assuntos menores espalhados pelas redes sociais e imprensa, lutas mesquinhas norteadas por vaidades, invejas, ciúmes e muito orgulho. Evidenciam-se assuntos que a nada levam e a Educação de 1972 até agora tem sido brinquedo na mão de caprichosos burocratas e acadêmicos. Como elevar o cidadão, como dar-lhe estímulo e dignidade, como incluir modelos mais nobres a serem seguidos para  o bem do saber e do país?

Apesar do elogiável esforço de milhares de professores da rede pública e privada, o fato é que muitos são meros operadores e representantes da mesma sociedade defeituosa, fisiológica e egoica. O sistema utilizado falha no conteúdo e na sua exposição, na falta de materiais atualizados, na precariedade das instalações, na falta de pensar grande e no país do futuro. O Enem tem sido a prova cabal desse fracasso. O dia a dia do país tem sido o campo de prova de resultados do sistema em frangalhos.

O sistema é insuficiente para dar ao jovem modelos superiores a serem seguidos. E então pergunta-se, neste país de terceiro mundo, a que modelos estão expostas as novas gerações e que tem desaguado  neste desinteresse pelos estudos e nesta grande inconsciência, despreparo e deserto intelectual? Cabeça vazia é a oficina do diabo. Alguém tem argumentos para dizer que não?.

96% de semianalfabetos estão por aí, sem palavras suficientes para se expressar, para pensar, acumulando raiva social, insatisfação, contrariedades que só podem ser exprimidas pelos modos mais brutos e selvagens. A violência explícita e implícita usada  como desabafo só tende a crescer.

Que sistemas estão ocupando o vazio deixado pela ineficácia da Educação? Que “professores” estão sendo mais eficazes junto aos jovens e adultos? Que sistemas estão tendo sucesso em atiçar cada vez mais o ego, o fisiologismo e a consequente selvageria frente a cada contrariedade do ego humano redundando em violência sem precedentes?

Temos construído as bases frágeis para uma construção doentia. Adultos despreparados, frios, calculistas, insensíveis, alienados, arrogantes, e sempre  prontos para a reação física violenta, resultante da falta de Educação ampla, de qualidade e humana. São as pessoas que vão ocupar os cargos públicos, as posições nas empresas privadas, os gerentes e os presidentes sem compromisso com nada a não ser seus interesses de umbigo. Que futuro se faz com tal mão de obra? E não há consequências?

É o país do Deus-dará, dará as costas, dará pena, dará em nada aproveitável. E queremos ter posição no mundo, participar de decisões, exportar itens de interesse mundial para aumentar nossas receitas? Com que não de obra? 

Espera-se que a Educação de qualidade seja encarada doravante como prioridade para que o país progrida com sustentabilidade humana. Se cada ministro do STF, por onde transita, é o próprio STF, por que um dia o professor não pode ser o próprio Ministério da Educação?

Por enquanto mais triste do que a realidade é o inferno de ficar olhando tudo isto sem nada poder fazer e de só ter um voto.

Sem Educação de qualidade, gerações permanecerão escravas da pobreza mental por muitas décadas; nunca cessará o esperar que o país seja salvo por algo divino, por alguém que tenha a solução central, que melhore de cima para baixo sem que o cidadão tenha que participar ou se esforçar; a coletividade nunca  chegará a pensar que o país se faz pela soma dos interesses pessoais orientados para o progresso, seguindo modelos dignos de desenvolvimento.

Nação e país permanecerão expostos ao acaso, à decisão de alguns e as soluções menores de assuntos pouco prioritários para o futuro. A violência continuará a se exprimir, tanto a explícita com fatos horrendos quanto a que fica reprimida, a que devora a saúde e a qualidade de vida do cidadão. Será ilusão pensar que não conheceremos a selvageria antes da civilização, porque isto já está ocorrendo. Poderá o estado providenciar a contento serviços e instrumental para conter tal tendência?

A falta de investimento sério e coerente em Educação de qualidade, a falta de  revisão dos métodos e conteúdos, que claramente não têm atingido o aluno,   tem contribuído para a realidade atual onde os jovens e as pessoas estão expostas a outros tipos de “ professores”, os quais são atuais, eficazes em seus objetivos.

Se o Governo é materialista, gosta de recursos, que tente fazer uma empresa e veja como está a qualidade da mão de obra; que observe quanto tempo durará até que feche as portas por este mesmo motivo.  Empresas fecham as portas, mas a causa apresentada é a concorrência, mudança de mercado, perda de lucratividade enquanto ninguém ousa admitir que o fechamento foi causado por problemas de mão de obra em todos os cargos, falta de ideais, falta de administração, problemas corporativos criados pelos próprios  empregados por falta de gestão etc. Sem providências sérias e coerentes, até quando aguentaremos?   As consequências estão ferozes , graves e expondo a vida à instabilidade e insegurança permanentes.   



Odilon Reinhardt.  3.4.2019.