segunda-feira, 3 de abril de 2017

O curioso espaço entre o não estar e o não ser .


Blog. 3.4.2017

 
           O curioso espaço entre o não estar e o não ser.

 

 
Em certa situação, quem já não se encontrou no estado entre o estar e o ser; uma transição de espera e uma pergunta sobre o ser a atingir? Mas quem em certa situação, todavia, sentiu-se no estado de não estar e de não ser; num vácuo, um espaço diferente?
Uma sensação de não estar e de não ser, pego num intervalo existencial. É bem pior do que ser ou não ser, estar ou não estar. É transitar numa expectativa muito mais grave, colocando-se no limbo do tempo de existência em alguma das fases da vida, que geralmente são bem definidas e bem estigmatizadas.
Que estado seria este que pode afetar uma pessoa ou um país? Primeiramente alguém que não está nem é, navegando pela vida numa expectativa sem entregar-se, mas querendo fazê-lo, pensando talvez  ser eterno e imune ao tempo à vida e suas fases.
Seria o estado de permanente disponibilidade, de total exposição, mas uma probabilidade de estar ou ser sem, no entanto, estar ou ser? Um limbo existencial numa ausência de status, uma alienação quanto à classificação em categorias, mesmo que a sociedade acabe colocando um rótulo para a situação, exigindo ser ou estar?
Apesar da intolerância social quanto à indefinição, já que ela agride o utilitarismo e o pragmatismo de modo grave, a sensação de não estar nem ser pode persistir na mente de uma pessoa que se coloca como mero passante, um eterno passageiro do tempo, sem se entregar a nada e a ninguém, dando à sociedade um sentido de incapacidade de ela interferir na mente individual. Uma vida dissimulada, fingida, que caracteriza o curioso e preocupante estado de não estar e não ser, talvez querendo ou imaginando  ser ou estar ou nunca ser nem estar, apesar de a pessoa, para o mundo formal, ser algo, ocupar um cargo , “representar” um papel etc. 
A questão é investigar quais condicionantes sociais geram e geraram este estado de estar sem estar, de ser sem querer ser e quais os efeitos disso para a sociedade e sua estrutura produtiva. Certamente psicólogos e psiquiatras e filósofos e sociólogos  conhecem o quadro, mas a pergunta é o que suas associações e classe fazem para explicar e resolver tal estado a nível coletivo, já que o país possui talvez milhares de pessoas neste limbo, diminuindo a força de trabalho e a mão de obra especializada.
O humano à deriva. O que estaria produzindo tal realidade camuflada e constante no pano de fundo da vida nacional?
Seria este já o reflexo de terem deixado que “forças superiores”, através de mensagens subliminares e mesmo diretas, brincassem, durante décadas, com os jovens, sob pretexto de “modernizar”, passando-lhes a ideia de que: a vida é curta, curta o aqui e agora; nada é para sempre; não se entregue a modelos princípios que são sejam os seus; o importante é curtir, o futuro a Deus pertence; consuma para ser feliz;  o Próximo é o seu competidor e rival; você vale o que aparenta ser; não acredite em ninguém com mais de 30 anos; a teoria é diferente da prática, etc., etc. conforme até hoje em andamento? Ou seria o arrepio diante dos modelos postos que não deram resultados e a ausência de bons modelos seguros, confiáveis, justos e honestos para o cidadão; a miséria, a instabilidade; a transitoriedade das coisas transportada para as relações humanas; o usar o Próximo? Ou seria também a queima de sonhos e talentos, o fingir ser e o fingir estar para aparentar ser; o descrédito e desconfiança por falta de esclarecimento e educação formal; a impossibilidade de realizar sonhos e projetos colocando a vida à deriva; a reação do ego com violência, fuga e desafogo do dia a dia; a impossibilidade de realizar-se, ficando sem alternativas a não ser a de jogar-se no espaço entre o estar e o ser; a existência desperdiçada numa representação teatral na rotina perigosa de imitação da vida, independentemente se a pessoa tem profissão ou emprego?
Sem adentrar na quadra do bipolar, do fronteiriço, do alienado ou do ausente, mesmo que isto tudo seja semente para tais problemas comuns hoje em dia, as raízes do espaço entre o não estar e o não ser podem derivar de uma constante insatisfação e sua não aceitação, levando a realidades muitas, onde o cidadão com seus sonhos e talentos ficou embaraçado entre o estar e o ser num país de permanente miséria, corrupção e modelos mal interpretados, onde quase tudo aparenta ser, mas não é.   A própria eleição de ladrões para exercer cargos públicos com posse cheia de discursos e promessas, pompas e circunstâncias, que deixam o cidadão comum humilhado em sua ali colocada insignificância, mas depois irado diante da desfiguração dos eleitos e sua corrupção e posterior revelação de envolvimento em esquemas de roubo do dinheiro público. É quase um país de faz de conta, um teatro vigarista para iludir. O próprio país coloca-se num permanente não estar e não ser, em inúmeras situações.
Certamente num país passando por tantas complicações existenciais é quase impossível que a contrariedade não seja quase a regra. Ninguém pode tudo e muitas são as insurgentes impossibilidades na vida normal do rebanho. Há uma persistente pressão sobre o cidadão de todas as idades para que ele consuma, havendo apelos para criação de desejos e sonhos materiais, que acabam não sendo satisfeitos. Há a permanente imposição de modelos e classificações do ser humano pelo critério do ter. Como contribuição para esta realidade há o fato de que hoje a propaganda, a TV etc. aceleram a sensação temporal, gerando uma ideia de obsolescência permanente das coisas, dando a impressão e espalhando a mensagem de que nada vale a pena além do momento. A obsolescência, a realidade passageira do mundo artístico e das coisas materiais é acelerada ao extremo, talvez até pelos limites de tempo, o qual deve ser comprimido para alargar a programação e possibilitar a maior utilização possível do horário e do campo visual do expectador, explorado ao máximo na intenção de ali incutir alguma necessidade. Outro aspecto a ser considerado é que tal realidade virtual e ilusória torna-se problema quando é transportada para o campo das relações humanas e as pessoas querem usar e serem usadas; querem aproveitar ao máximo porque tudo pode acabar logo. A vida é curta, tudo é passageiro, nada dura para sempre passam a ser dogmas. Pode ser verdade senão se souber preencher a vida com algo mais virtuoso. Isto também gera inúmeros problemas de relacionamento e conflitos existenciais de natureza afetiva, gerando insatisfação.
Ora, quantos brasileiros hoje só tem a TV como fonte de tudo? Os meios de comunicação permanecem explorando tal realidade em seus anúncios e propaganda para criar vários ambientes desejados e principalmente para criar desejos para um ambiente consumidor desesperado. É visível que a aceleração exercendo pressão cada vez maior gera o medo de perder ou não ganhar com consequências desastrosas no campo material e afetivo.
Dirigido pelo medo de perder ou não ganhar é evidente que a ansiedade surge de imediato e como o país não atende a toda a expectativa falsamente pregada e repetida, a contrariedade é comum e um visitante permanente na vida do cidadão que, via de regra, desconhece como lidar com seu pensamento, seu ego de vaidade, ganância, ciúme, inveja etc. e acaba em crise existencial, levando-o invariavelmente à revolta contra tudo e todos, na procura por culpados que justifiquem sua permanente insatisfação.
Vulcões ambulantes fazem surgir em cada cidadão a impaciência, a intolerância, a inflexibilidade, a ideia de estar sendo atrapalhado pelo Próximo na rua, no trânsito, na fila, na profissão etc. A vida é conduzida pela agitação mental, a euforia, a confusão, a agonia, a carência afetiva e a insegurança. A ansiedade passa a ser o centro  de problemas . A saúde vai para o lixo e vira problema banalizado, mas caro.
Assim  tudo continua gerando vulcões. Por motivos e necessidades de manter a receita tributária, continua sendo prioridade acelerar o surgimento de necessidades para que o consumo seja garantido. Acelera-se o desejo e a vida das pessoas, as quais viram fáceis vítimas e peças de caça; oprimidas por sua inconsciência, falta de esclarecimento e falta de discernimento. Meras peças de manobra na grande fazenda nacional.
Turbina-se o estado de permanente insatisfação, gerando em muitos a sensação de não estar e não ser, dentro de um espaço de uma vida por vezes sem sentido, difícil de ser preenchida, já que a realização de planos e sonhos pessoais está cada vez mais impossibilitada.
E como não dizer que este estado não é diariamente enfatizado como os hábitos e costumes criados pelos aparelhos da informática? Pessoas uma frente às outras com celular ligado. Não estão ali, pois estão de corpo ali, mas com a mente em outro lugar. Corpos presentes e almas ausentes. Mentes sempre esperando algo, informações, mensagens, sempre não querendo perder nada, sempre ligadas no tititi de suas vidas vazias de conteúdo, permanentemente fora do local onde se encontram, ligadas no virtual fora dali. O querer TER ( válido para ter coisas e pessoas) aqui cria também  o espaço entre o ter e o não ter, exercendo  pressão enorme sobre o homem do dia a dia, submetendo-o ao “segredo” interno de estar em constante ebulição e contrariado em algum ponto. Este estado também joga-o no espaço do não estar e do não ser, já que hoje o Ter supera o Ser em relevância. Como entregar-se a um relacionamento, emprego, situação etc., se existem outras lá fora com possibilidades múltiplas?
O instrumental tecnológico acelera o surgimento de frustrações e contrariedades do ego de modo permanente em situações repetitivas do dia a dia existencial como também nas questões de fundo como afetividade, amor, rejeição, carência afetiva, carreira profissional etc.
 Não estar e não ser, uma sensação que pode pipocar aqui e ali no dia, mas que pode também ser a realidade de muitas pessoas durante uma grande parte da vida. Seria como viver numa dimensão paralela à real sem sair desta. Uma vida dupla produzida pela constante sensação de frustração e insatisfação de não ter conseguido estar, ser e ter. 
Pessoas expostas permanentemente à contrariedade em sua existência não deixam de alimentar e construir sua vida interior dirigida à agressão como válvula de escape. Se a violência for ou não para fora, ela já existe internamente, corroendo o indivíduo impiedosamente. Em qualquer hipótese a grosseria, a rispidez, o sarcasmo, o humor ácido é o mínimo que se pode esperar.
Pessoas aparentemente calmas e controladas podem se tornar, de um minuto para outro, violentas, em palavras ou fisicamente, cometendo atos que podem determinar o futuro a partir de então.“Quem vê cara não vê coração”, com se diz. 
Milhares de pessoas nesta situação compõem um cenário de potencial conflito e violência a qualquer momento. Sem recursos para uma autoanálise,  sem vocabulário , sem uma estrutura formal de lógica pensante, a reação de pessoas,independentemente da classe social, só pode ser tosca, violenta, própria dos brutos até no perigoso silêncio em que se metem para fingir. É a revolução tosca do animalesco, revelada ao mundo em pedradas, pichações, quebradeiras, arruaças, paralisações do trânsito em rodovias, e em todos os demais eventos, onde fica mostrado o não ter nada a perder e a haver com nada .   
É comum que a descompressão vem num tapa, num ato impensado, num tiro, num ato impetuoso qualquer em plena cegueira da ira.  A raiva social aparece na intolerância e na inflexibilidade contra qualquer diferença seja social, econômica, sexual, religiosa, política, racial. Pode também vir através de outros meios pacíficos com a fuga através de viagens, drogas, isolamento, obsessões religiosas ou esotéricas, fanatismo por uma determinada atividade, coletiva ou não, tudo para mascarar a real situação de contrariedade e insatisfação.
Em qualquer caso, qualquer sinal de diferença agride e ressalta o estado em que a pessoa se encontra. A mediocridade é a marca perpétua do incapaz de retirar-se do estado em que se encontra de modo que qualquer um que lembre o indivíduo de sua condição real provoca um estado de agressão. A verdade sempre choca. O que ele não conseguiu, se obtido pelo Próximo, provoca a desigualdade e a sensação de injustiça nos níveis mais variados e diversos da atividade humana. Não é de se descartar que o simples ato de comer alimentos não chegue a ser ostentação e alguém chegue a ser punido por isto. A linha social descendente está cada vez mais medíocre e perigosa.
Inevitavelmente a vida nacional traz contrariedades e o ego individual e coletivo reage. Mas a vida traz compensações e há um certo equilíbrio de modo que quem não estava passa a estar, quem não era passa a ser e quem não tem passa a ter. Há sempre esta transição e solução.
Todavia, há a situação que atinge milhares de pessoas que estão num permanente não estar e não ser e passam a vida nesta insatisfação como barcos à deriva. Não estão no porto e não tem porto para chegar.
Todos estão misturados, ou seja, os contrariados por algum tempo e os para sempre. Ambos podem passar pelo desejo, via de regra, de distribuir seu estado, pois não toleram sofrer sozinhos; vão investir contra o Próximo direta ou indiretamente. A agressividade fica latente. O Próximo é o culpado por existir na frente de tais pessoas. A psicopatia, a sociopatia aumenta e agrava-se, pois para tais pessoas alguém tem que pagar, alguém é o culpado. A criança, a mulher, o idoso ou qualquer outro sofre a violência. Ressaltando que a mulher apresenta-se como a mais forte e séria defensora da família e o ser de maior resistência e persistência na defesa, muitas vezes das mínimas estruturas restantes da instituição de suporte à vida. É a violência física.
E há ainda a violência embutida em projetos de obras, na falsificação de medicamentos, na adulteração de fórmulas químicas de produtos industrializados, na fraude fiscal, na corrupção etc. que nada mais refletem um estado de desconsideração ao Próximo.
O comportamento mais comum é norteado pelo mote “se eu sofro, os outros tem que se sofrer também “, o qual  é  a raiz da violência, da negligência, do descuido, da falta de comprometimento, do desinteresse, do relaxo, do atraso, do descaso, da falta de amor à vida .
Para o medíocre, a vingança, através da agressão, ajuda a desafogar a mente por um instante, mas depois surgem mais consequências sobre ele e mais sufoco; uma roda viva crescente e já banalizada face à contínua repetição de casos divulgados diariamente. Na verdade, é atitude infantil do bruto, do tosco que não sabendo pensar nem expressar-se permanece no nível mais precário do modo de chamar a atenção e compartilhar problemas. Para ele permanece a condição primária de chamar “quero minha mãe”; resquícios do “ quem não chora não mama”, reação, portanto, de grito de socorro.
O desrespeito, a desconsideração, a raiva contra o Próximo é latente, pulsa à flor da pele; uma constante tentativa de dolo eventual. As pessoas se arriscam; é o caso do querer não querendo; no fundo a fonte de tudo está em “ o cara que se dane”. Atitude típica do inconsciente, do imaturo ainda animalesco.
No trânsito, no projeto da obra mal feito, na consulta médica negligente, etc., impera o desrespeito ao Próximo. Por trás de tal falta de consideração, um ser humano perdendo a humanidade, gritando por socorro na multidão, um que quer estar ou ser ou talvez um que já se encontra no estado espacial do não estar e do não ser.
Em todo caso o Próximo é o inimigo. Chegamos a isto. O medo do Próximo. Aumenta a venda de armas, a de alarmes; aumenta a concessão do porte de armas. A segurança vira um excelente e lucrativo negócio, gerando empregos e impostos. Já é verdade que não será de “ interesse público” acabar com a violência para não afetar o setor e gerar perda de receita? A violência é interessante a alguém poderoso como sempre. O absurdo pode estar tornando-se realidade.  Estimular a venda de armas e a sua exportação vira objetivo do Governo.
E o que dizer da geração de jovens que está esperando oportunidade, mas que foram abandonados quanto à boa educação escolar e muito mal orientados quanto à visão de mundo e de vida. Vão engrossar a grande quantidade de contrariados e poderão pertencer ao grupo dos que não estão nem são. Não terão nada a perder. As consequências da falta de perspectiva, da falta de solução, da falta de possibilidade de melhora poderão ser magnificadas socialmente no momento em que explodirem para reagir. Só um cego não observa o poder dos jovens com um celular ou uma pedra na mão, podendo promover reuniões a qualquer momento. Os jovens já notaram que mexeram no futuro que irão enfrentar.
Mais violência, mais problemas advindos do despreparo para conviver, mais desconsideração por tudo e todos, porque quem vive num estado permanente de não ser nem estar não tem mais nada a perder e vive na dimensão ilusória longe da dimensão onde estão as pessoas normais, estas mesmo que momentaneamente contrariadas, mas com perspectivas de ser ou estar. Quem não enxerga mais saídas, já não dará o mínimo para ser aceito, pertencer a algo ou ser reconhecido.  Não tem nada e já nem quer ser , ter ou estar e pode afinal promover um evento de uma “Cidade de Deus “ em cada esquina ou abandonar-se e nada fazer .
O cidadão comum estará e será sempre ameaçado e acuado. Terá medo, como já tem em algumas situações, de mostrar ser ou estar e até mesmo de mostrar ter.  Tendo trabalhado honestamente e conseguido bens não poderá expor nada, não poderá mostrar diferença nem destoar do comum. Estará submetido ao  império do medíocre, do nivelamento por baixo, tudo sob o crivo da supervisão atenta do ego em inveja, ciúme, ganância etc. Não haverá meio termo: mostrou ser, estar ou ter de modo diverso do geral, terá que pagar pelo que a diferença ocasionar na mente da pessoa que o visar. 
Quanto da realidade é feita destes seres em estado intermediário, empurrando-se pelos dias da vida nacional? Quantos estão atrás de jalecos, uniformes ou ternos com gravata? Quantos não sãos mendigos enrustidos e ricos? Um grande empresário, um importante diretor ou gerente não pode ser um mendigo emocional?
Talvez os da rua, aqueles que não querem mais nada, sejam mais transparentes e decididos.   
                                  O mundo da rua.
 
Vidas desviantes,
que se arrastam pela existência,
como complexos navegantes.
 
A realidade de rua,
sem ligações, sem bens,
a realidade ali sua.
 
Vidas das calçadas,
fazendo o miúdo, drogas e medo,
alimento em sacolas furadas.
 
São vidas que vão errantes,
que rolam pelas ruelas e praças
em número bem maior do que antes.
 
Rostos desconhecidos, banidos,
não cabem mais no sistema,
onde foram produzidos.
 
E nem querem mais nada,
só o mundo da rua,
nada mais.
 
E o que dizer
dos pobres e vazios mendigos ricos
que são obrigados a se esconder?
 
Este texto é tão somente um alerta de que algo pior está se instalando. Nada pior do que uma população com alma insatisfeita e seres à deriva. Isto não é garantia de prosperidade e riqueza em nenhum campo. Uma população feita de presos na escuridão de um segredo ou de um estado que nem sabe analisar ou identificar. A grande maioria, considerando as condicionantes existentes e o processo de  robotização e manipulação das massas , nem sabe o motivo–raiz de seu mal-estar constante, de sua pressão arterial elevada, de seu diabetes, de suas dores e de sua insatisfação constante que faz pressão existencial,  pressionando-o  de dentro para fora .
A reação é latente, geralmente negativa, daí a violência que pode surgir inesperadamente em qualquer solução de vida. Uma pessoa afogada em sua vida espiritual acaba achando um meio de desabafar e qualquer um que a cutuque pode provocar uma explosão inconsequente e destrutiva.  Hoje não é difícil ver que à noite já existe uma guerra civil, tornando a noite um período de crimes e caça ao Próximo. Pergunta-se em que porcentagem a noite já não está invadindo o dia, pois de dia ou de noite há batalha nas ruas e estradas; a qualquer momento ocorrem as atrocidades gerenciais e interpessoais no mundo corporativo etc., etc. As exceções estão se alargando.  
Um amontoado de Seres que não realizam seus sonhos sejam eles consumistas sejam profissionais sejam vitais. Uma insatisfação constante. No que vai dar? O fisiologismo mantido em alto grau de contrariedade implica violência interna  e externa e tende a explodir como vulcão maltratando a todos.
Mesmos nos locais de pão e circo, já faz tempo, que a violência surge. Um caso aqui outro ali no país e uma plêiade de casos no final de cada dia. Pessoas presas nestes estados de insatisfação, seja transitória seja permanentemente, em sua demonstração cega de violência, não tem nada a perder, pois estão movidas pela ira; não veem nem valorizam as instituições, as quais, via de regra, nem sabem o que fazem ou o que significam para a estrutura da vida social. A destruição e o dano parecem gratificar seu prazer egoico de se expressar.
Uma multidão neste estado pode, sem dúvida, afetar a qualidade de vida no país, representando um risco permanente à segurança individual, ao direito de ir e vir, à produção e ao livre consumo gerador de impostos. É a mão de obra e o indivíduo economicamente ativo que estão sendo afetados, porque a mente do cidadão está sendo sabotada.
Já é visível o nivelamento por baixo e o que era exceção e continha-se na margem estatística aceitável torna-se preocupante e numa espiral ascendente. Alienação, abandono de si mesmo, desistência, opção por vida alternativa, depressão, revolta, opção por fórmulas e modelos negativos faz parte de um conjunto de atitudes sem qualquer perspectiva de dar certo. Qual é a mais perigosa? Qual causa maiores danos ao país?
Na mente bisonha e vitimada por estes estados de insatisfação sempre a preocupação individualista e a crucial pergunta “por que respeitar Próximo?”. Aumentam os crimes passionais e patrimoniais com requintes de crueldade e direta demonstração de raiva do Próximo.
Mais polícia, mais leis penais, mais penitenciárias, menos escola, menos educação de qualidade. O pior é que podemos estar entrando numa fase em que a escola e a faculdade não fazem mais falta, pois a cabeça do cidadão não comporta mais tais dificuldades e por que não dizer “ aberrações”. 
Mas apesar de tudo isto, o país, a médio prazo, não enfrentará o caos, somente prosseguirá avançando com menos energia, atingindo metas com menos velocidade, mas  numa comprometedora lentidão, que o coloca em descompasso com as imagens mundiais divulgadas pelos instrumentos do mundo da informática e pelo marketing destinado a estimular o consumo, acelerando sonhos e planos individuais.  
A preocupação é com um retardo histórico e uma dependência cada vez maior de tecnologias externas e o afogamento do humano nacional. Uma perda de pessoas qualificadas ou pelo menos com potencial e talento revela a realização da brutal teoria da seleção natural, pela qual só os mais fortes prosseguem, portanto, uma elite natural como resultante da exclusão de milhares. O homem-comum, jovem ou idoso, embora com dificuldades muitas, não deixa de ter seu instinto, seu senso-comum, aspirando sempre por justiça ,igualdade e liberdade possuindo o poder de indignar-se e ,portanto, continuará a protestar por seus direitos, criando confusão e manifestações.  
Necessário ressaltar que a seleção de elite não será suficiente para preencher todas as necessidades da estrutura formal do país. A cada ano “ alea jacta est”  e a soma dos anos a seguir dirão no que tudo isto vai dar.
Afinal, o futuro aqui não é mais aquele que estava para ser. Ou, pior “ a Nação não é mais o que ela pensava ser”.
Pergunte-se a não sei quem: como cada cidadão vem se sentindo, ao invés de saber se tem TV e geladeira?   Como está a mente de cada pessoa, que médicos consulta e que remédios toma? Quais os efeitos disso na vida produtiva? Quantos estão com depressão? Quantos já desistiram ou estão para desistir de tudo? Temos um Brasil a temer? O jogo de luzes existente pode estimular as pessoas a progredir? Reformar o Brasil, seguindo ditames  transitórios para solucionar a  recessão econômica, não é  nivelar por baixo? A recessão econômica já não é ela uma resultante do estado mental população? Não estamos aceitando o pequeno, o nivelar por baixo, o miúdo? Deixaremos de ser o país com síndrome de viralata?
O ministro Teori Zavascki em um de seus discursos perante o STF disse “o país está doente”.  Já a atual presidente do mesmo  Tribunal, em situação posterior, admitiu que “ os brasileiros precisam mudar”.
Ainda há tempo para providências para evitar o agravamento da realidade do cidadão. Não bastam só obras públicas, é necessário tratar a educação de outro modo e com cuidados quanto à mente das pessoas, sempre levando em consideração o fator humano, o fator emocional para o bem estar de todos e a credibilidade de que o país vai efetivamente melhorar. As soluções devem ser de cérebro, para o cérebro e com o cérebro e não com o interesse mesquinho eleitoreiro de umbigo e fígado.
 
Odilon Reinhardt.     
      
      
 

sábado, 4 de março de 2017

O que querem?


                                                  
 
3.3.2017
 
 
                                                                        O que querem? 

 

 
Com toda esta corrupção que veio à tona, ficou afinal demonstrada a verdadeira identidade de nossa vida política e o caráter de grande parte de nossos políticos, seres egoicos, reunidos numa casta dita por eles “superior”, vivendo à custa dos impostos e que agora mostrou sua alma coletiva destituída de qualquer virtude; ficou demonstrado porque o país desde 1500 cresce lentamente, sem cuidar da educação com seriedade e atrasa investimento em infraestrutura. Espera-se que seja o fim do país da política de favorecimentos pessoais, da prática do “jeitinho brasileiro”, do tráfico de influências, do carteiraço, dos privilégios, das sinecuras altamente remuneradas, da desigualdade em tudo e do nepotismo, das grandes armações secretas e corruptas, o fim de estruturas e procedimentos sem muita racionalidade para garantir o empreguismo; o fim da farra com o dinheiro público. 

Muitas verdades ficaram escancaradas e confirmadas. Uma delas a verdadeira natureza do  interesse pela coisa pública, sempre objeto de tantos discursos de falso e fingido espírito.  O que sempre prevaleceu foi o umbigo, o interesse megalomaníaco, a vaidade, a ganância e a propina. Obra pública tem que render propina. 

Décadas e décadas de governos republicanos que viveram na opulência de suas cortes e palácios, mascarando seu autoritarismo, intolerância, prepotência, abuso de autoridade e alto poder de manipulação através de notícias sistematicamente plantadas na imprensa para dar à população a fascista ideia de estabilidade e a realização de obras fundamentais para o “progresso”, que agora se sabe de quem. Tudo de verdade é escondido, escamoteado e desvirtuado para proteger a imagem do partido e seus políticos com vistas à próxima eleição. É instalada a rede de mentiras.    

Sempre o interesse privado, oficializado como público pelo governo posto, fazendo a realidade e conduzindo as imagens politiqueiras via TV. Sempre a vontade de aniquilar qualquer oposição para manter o governo ideal como uma eterna, próspera e promissora ação entre amigos. A inevitável falta de independência entre os Poderes num entrelaçamento de muita amizade e boa vontade. A Justiça por anos dobrou-se ao Poder até chegar ao descrédito quase total, titubeou com o Mensalão, mas soube reagir e com a Lava Jato ressurgiu como uma instituição digna, reobtendo a confiança da população. Foi uma das mais expressivas representações do ressurgimento da Fênix, em alto estilo e crédito.   

Agora é possível entender melhor os erros enormes da cultura política e crises econômicas, levando a população por anos cinzas e de muita enganação enquanto quadrilhas assaltavam os cofres públicos por um século. O país de obras paradas, abandonadas, mas que foi capaz de em tempo recorde construir Brasília e recentemente os estádios da copa do mundo, mesmo sabendo da realidade econômica e financeira que já existia e crescia nos bastidores. A ganância não tinha mais limites. Não interessava o país, interessava a propina, os grandes alforjes individuais e partidários, numa clara manifestação de interesses pessoais colocados como públicos.

A crise atual mostrou um país de governo à beira do caos. Mais 6 meses sem alterações básicas no governo e na economia, o que ocorreria?  Pergunta que poucos fazem e ninguém escreve sobre o que seria. 

O fato é que se espera que a população acostumada com o governo como Poder Central, forte, dominante, gerador de empregos tenha entendido que o Governo não gera nada, só tem o poder de coordenador e regulador; no mais, tem sido um sugador de impostos e alimentador de inúmeras situações de cargos e salários fora da realidade, burocracia e corrupção enquanto o país vive na miséria do campo e na periferia das grandes e pequenas cidades. 

Agora por falta de consumo, há menos impostos e a população viu o retrato do que é o Brasil de verdade.

A diminuição da máquina pública será a imposição. Menos governo, menos empregos públicos. O Judiciário acordou, cortou os laços com o Executivo que o afogava e mostra-se outro, digno. O Ministério Público Federal e a Polícia Federal limpando o país.  E quando a receita for normalizada nada voltará a ser como foi. O foco será na criação de empregos via iniciativa privada, espera-se mais livre e protegida dos esquemas de propina. O espírito da operação Lava Jato mantido para sempre como salvação. 

O fim do governo gerador de empregos em seus quadros. Ainda resta fulminar os cargos comissionados em assessorias de coisa alguma, gerando emprego para os que ajudaram em campanha.  

Quantas gerações e talentos foram ceifados por esta época que agora se espera esteja no fim? É a hora das consequências para as gerações de jovens que terão um Brasil mais duro, mais penoso e difícil. Após mais de um século de farra, agora vem a cobrança maior e esta recairá sobre uma juventude despreparada, vítima de governos que não deram o rumo e a estrutura  certa para a educação. Darcy Ribeiro em 1982 alertou e já era tarde “ Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios “. Foi uma das  previsões desse grande brasileiro. Ninguém o escutou. O abandono da escola pública foi a tônica nas décadas subsequentes, diante das crises econômicas até 1994. Colégios públicos de excelência foram deixado à míngua. 

Todo este uso da juventude que tem sido abusada pela indústria da diversão e outras para garantir o consumo, toda esta propaganda enganosa e o tráfico de drogas etc. tem afastado a juventude da visão de futuro e mergulhando os jovens no aqui-agora, fazendo-os pensar que a juventude é eterna, supervalorizando um trecho curto da vida chamado adolescência e juventude. Depois há um longo período de colheita.  

Algumas verdades tem aparecido esparsamente como o abandono escolar, a reprovação em massa, a falta de leitura de livros, a dificuldade na matemática, o abandono nos cursos de engenharia, a falta de mão de obra qualificada para a indústria, o aumento do consumo de drogas nas escolas e universidades etc., etc., a falta de mão de obra qualificada, o altíssimo número de analfabetos.

Se a sociedade cresceu em quantidade e matéria, se o governo não vai ser mais o gerador de empregos direta e indiretamente, se tudo depende dos impostos vindos do consumo, o futuro depende da empresa privada, ela é que sempre esteve fazendo a vida no país mesmo nos anos mais difíceis da ditadura militar, quando se desacreditou o empreendedorismo nacional e uma das únicas vozes a favor da empresa privada era a de Henry Maksoud em São Paulo.  

Há milhares de pequenas empresas e negócios que infestam ruas e calçadas fazendo o comércio do dia à dia. Mas qual a qualidade, a eficiência, a rentabilidade de tais negócios? A maioria sobreviveu às crises. Poderia ser muito melhor, mais promissor.  Não são as indústrias que vivem das exportações, destinando o pior para o mercado interno, que irão garantir a receita e a vida do cidadão, mas sim as milhares de pequenas empresas e negócios espalhados pelas cidades, dando oportunidade a pessoas e famílias para sobreviver e ter salário.   Mas indústria ou comércio sempre necessitam de pessoas com educação formal.  

Como está nossa força de trabalho jovem em plena época da informática? Certamente são campeões em passar mensagens vazias e operacionais, craques em lidar com aplicativos e enviar fotos, em saber de tudo e do nada superficialmente. Mas o jovem quer dinheiro, quer bens, quer aparentar ser, é exigente e cada vez mais egoísta, quer pertencer, aparecer pelo ter. Há enorme pressão sobre ele quanto ao Ter. Quem ensinou a juventude a não se comprometer com nada, quem ensinou que o que vale é o agora, quem lhe inculcou a ideia de que não vale se entregar a nada?  Quem deixou o individualismo e o egocentrismo materialista se instalar no país? Quem fez isso agora verá as consequências.

Agora o país vai precisar das gerações jovens e estas vão precisar de um país melhor. E como estão as gerações? Em grande maioria mal condicionadas, despreparadas, atrasadas, desqualificadas para ter a suficiente persistência e força moral para aguentar o tranco da vida.  Apesar de toda a maquiagem e manipulação da juventude, as etapas da vida continuam as mesmas, cada uma com suas dificuldades e necessidades.  Como este notório despreparo e  desqualificação poderão manter a vida saudável longe da violência ?

As gerações necessárias e úteis viverão com dificuldades extremas. Manifestações e revoltas dos últimos tempos foram a pura expressão de uma incontida insatisfação que não pode ser explicada pelo próprio insatisfeito por falta de consciência. No combate ao aumento de uma passagem de ônibus havia muito mais a ser lido e explicado. O que querem os jovens? Difícil que saibam claramente, tal o poder dos atuais meios de diversão e ilusão. Querem algo pontual que esteja sendo motivo de insatisfação imediata no aqui-agora, já que pela idade e pela inconsciência criada pelo ego dominante na sociedade e pela própria fase incompleta de seus estudos, se os tiverem, não têm a visão do quadro geral no cenário nacional e todos seus itens, inclusive ideológicos. Não sabem que estão sendo usados e manipulados e que o futuro está ameaçado. E as causas das manifestações, ainda não analisadas a contento, revelam uma insatisfação de proporções muito mais sérias; descontentamento que está crescendo em silêncio no dia a dia. Talvez suas pichações, arruaças e quebradeiras gritam em silêncio, exigindo o fim da mentira, da falta de transparência, da falta de diálogo, dos esquemas de propinagem, das obras sem finalidade, das negociatas, da corrupção sem fim, dos arranjos e barganhas no Poder Público em geral, dos desvios, dos superfaturamentos, das manipulações de informações, de simulações e práticas políticas velhas e danosas. Talvez estejam dizendo em silêncio: “chega de danificar o meu futuro !”. Talvez.

Gerações atuais no Poder, a da Coca–Cola e da Xuxa etc., copiam e repetem os modos anteriores de liderança e de gestão; perpetuam o mesmo estilo, o mesmo sistema e não desejam oposição, querem a gestão entre amigos; são autoritárias e corporativistas, são falsamente democráticas. São a minoria e jogam o jogo da minoria. Estão atendendo a conveniências e oportunidades para manter o poder e o salário sem pensar na multidão de jovens das ruas e na causa das manifestações, as quais não deixam de rotular como políticas. As gerações futuras de líderes já estão nas escolas e com mais equipamentos de informação do que qualquer outra geração passada. Mas todas estão hoje mais bem informadas sobre as mazelas do Governo. Jovens a serem líderes ou jovens liderados são parte de uma geração que vem aí e manifestações serão cada vez mais frequentes e violentas, de imprevisível surgimento, todas marcadas pelo celular, sem cara, sem liderança e com a mensagem  “galera, vamos quebrar, vamos invadir !” mesmo que a causa seja pequena e pontual como um aumento de passagem de ônibus. 

À medida que o futuro vai se apresentado à porta de cada jovem, tudo piora, mas o drama sempre é visto de modo individualizado e nunca como um movimento de massa. Nada é tomado como sinal de doença da sociedade. Impera já o caráter frio, calculista, materialista e egocêntrico do umbigo individual. O jovem, cego pelo seu condicionamento, só tem a revolta como arma e apresenta reação pessoal misturada com o espírito de rebeldia de juventude. Todavia, hoje o celular pode facilmente mobilizar estes dramas individualizados para movimentos de rua. Mas a hipocrisia oficial, a negligência, a falta de amor ao Próximo desconsideram o caso isolado e voltam-se para justificativas mais eleitoreiras como: “o problema foi da gestão anterior, faltou investimento em educação ou na área social, estamos fazendo tudo para resolver esta situação, blá-blá-blá.”  Depois tais governantes vão embora, chacoalham seus ternos e ajeitando a gravata dizem: “na minha gestão fiz isto e aquilo”, isentando-se de tudo, geralmente citando estatísticas. Mais de 100 anos neste mesmo modo atrasado e egoico de agir. Anos de direita e anos de esquerda e nada foi para à frente.

O fato é que pode estar surgindo um grande abismo entre o discurso político e as necessidades reais dos jovens. Cabeça sem emprego, sem dinheiro vira oficina do diabo. O jovem quer emprego e onde haverá empregos para todos?

Agora com a perspectiva de um Estado em novos tempos, onde tudo poderá ser lavado a jato, o cidadão terá que cavar seu próprio emprego e certamente não ficará satisfeito em ganhar o salário mínimo. Qual é o mínimo para um indivíduo ou um casal sobrevier na cidade? Onde há emprego, onde há salário? 

Antes um jovem que não dava para os estudos dedicava-se ao comércio ou virava político. E agora, nosso jovem será um empreendedor, abrirá seu próprio negócio? Como todas as más condicionantes que operam sobre a juventude e a falta de estudos qualificantes, certamente o jovem tentará ser um “empresário”, mas sua possibilidade de sucesso é desconhecida.  Um “empreendedor” sem talento, despreparado nos estudos, pensando só em dinheiro, dificilmente vencerá com qualidade nas milhares de oportunidades aparentemente simples de abrir uma pastelaria, padaria, lotérica, bar, auto-peças, borracharia, serralheria, salão de beleza, sapataria, loja de informática, venda de docinhos  etc., etc. em busca de um salário. 

São estes os jovens portadores dos novos tempos, ruins ou bons, mas resultantes do mundo dos adultos de décadas e décadas, afogadas em atraso? Haverá busca de novos modelos? O modelo atual, preocupado em ser aqui-agora politicamente correto, faliu. Vai ter reforma, quem a fará, os próprios a serem reformados?

Todo este desarranjo criado pelo mundo dos adultos, com seu frequente e contumaz “déficit de verdade” mexeu no futuro das gerações em ascensão.

Na década de 1970, o Governo Militar reduziu o curriculum escolar na “Reforma de Ensino” a título de modernizar e democratizar a educação. Éramos só 99 milhões de brasileiros.  Filosofia e tantas outras matérias foram eliminadas para acabar como espírito crítico. O país-quartel não precisava pensar, tinha que seguir. Foi um desastre de mais de 30 anos e uma das raízes do estado de coisas atual. Agora nova alteração curricular para o ensino médio tende a fazer a Escola ajoelhar-se à realidade da miséria nacional. O nivelamento por baixo é evidente. Se o aluno tem dificuldade em aprender algo, elimine-se o algo.  Ora, não há mais modelos dignos e sábios a serem seguidos, o que mostra bem a falta de personalidade e caráter desta época triste. Se daqui 10 anos esta reforma não tiver dado certo porque os jovens encontraram dificuldades, tal a burrice que se estabeleceu, então a próxima reforma será reduzir tudo ao estudo do Português, tentar melhorar um pouco a habilidade de escrever no celular corretamente. Para que mais?   

Hoje, como resultante de um Brasil de décadas de descaso com a educação, qual o nível de nossos atuais comerciantes e industriais? Quantos pertencem aos 96% de semianalfabetos do país e quantos dentro desta porcentagem estão dentro dos 8% de pessoas que podem ler e interpretar um texto?   Como o Governo pode atrelar seu futuro de coletor de impostos a uma realidade instável onde se abre e se fecham negócios aos milhares? Qual a segurança da receita tributária para o futuro? As consequências começam a aparecer.

O cidadão empreendedor sem talento, sem ciência, sem compromisso com nada, a não ser ganhar dinheiro, poderá viver sempre no limiar da falência num abre e fecha de negócios pequenos até não ter mais tempo. Se no passado vimos grandes impérios industriais sucumbirem face à administração dos jovens herdeiros, o que dizer de hoje onde se diz “ avós ricos, filhos nobres, netos pobres” ?  E quando um negócio fecha quantos são diretamente e indiretamente os afetados.  Isto mexe com as famílias no dia a dia. E por que fechou? Alguém se interessa. Alguém atrela o fato à falta de instrução, a educação formal?  Não, é mais fácil dizer que é a crise, o aluguel alto. 

O empreendedorismo exige mais do que pequenos comércios para vender produtos industrializados da China ou de qualquer outro país, já que nossa pequena indústria está comprometida. O jovem empreendedor que hoje deseje realmente empreender com talento e inteligência terá ainda que ter mais do que vontade e necessidade.  Nos tempos atuais, mirando o futuro, terá que vencer desafios para sair da barreira dos negócios primitivos para vencer o “ganhar para o gasto”. E neste aspecto terá que saber escolher o ramo de empresa e venda ou produção, sua legislação, sua carga tributária, o local do estabelecimento e perguntar: “se mudar de lugar o negócio persiste?”, a vizinhança, as políticas governamentais para o setor, as características do setor, as relações sindicais, a natureza da mão de obra, o histórico do setor, o produto em si, sua tecnologia, os fornecedores, a manutenção necessária, o fabricante, o histórico deste, a questão sucessória se depender de aluguel, os fornecedores de embalagens, a fiscalização municipal estadual e municipal, o alvará da Prefeitura, existência de competição, os encargos trabalhistas, possibilidade de exportação, contabilidade, cronograma de impostos, rentabilidade, inovações no produto, segurança conta a violência, necessidade de sócio e todas as questões aí relacionadas, necessidade de capital de giro, seguros, data base da categoria de empregados, despesas diretas e indiretas, reservas para os meses de implantação, características do consumidor, estudo de viabilidade por empresa confiável etc, etc e ainda contar com a sorte de a violência não entrar pela sua porta, cobrando as injustiças sociais e a iniquidade. 

São estes tantos desafios que talvez nem passem pela cabeça do jovem que queira abrir um negócio. Certamente se abrir, será uma aventura e nesta caminhada, geralmente curta, um dos itens acima irá desabar sobre o negócio eliminando-o. Será que dá para enfrentar isto sem ter uma educação formal correta? 

A atividade comercial ou industrial não é campo para aventura, embora milhares sejam forçados a ali entrar. As consequências serão sempre funestas com o endividamento e até a falência e seus efeitos danosos. Abrir uma empresa ou negócio é muito mais do que fazer bela fachada e belas prateleiras e belas vitrines. Está mais para Jurrasic Park do que para Alice no País das Maravilhas.

E toda a trama burocrática acima mencionada atinge não só os jovens despreparados, mas também os que foram demitidos devido à crise econômica, as pessoas que foram demitidas por terem ficado numa empresa com altos salários, os demitidos por causa das privatizações etc, os que decidiram tocar algo por conta própria depois de terem ficado na posição de pássaros de gaiola, habituados à água e comidinha certa no pote. 

Alguém procurará consultoria, o Sebrae etc., antes de abrir um negócio? E se procurar terá estofo suficiente para entender tudo. Depois de fechar as portas acabará procurando emprego no “mundo corporativo”. Mas com que idade? Com que qualificação? Muitos terão que se contentar com pequenos empregos, braçais ou não, de salários pequenos para a vida e suas etapas. O MacDonalds manterá vendedores acima dos 20 anos? Para ser almoxarife não é necessário saber Inglês, talvez Mandarim? E daí como comprar o jeans, o tênis e o boné da moda? E a família como estará, se houver sobrevivido ao nascimento do herdeiro?

Neste país das brincadeiras com o tempo de viver, há verdadeiros inquilinos no setor público que ousam mandar construir escolas, só para ganhar propina, não importando se as obras vão terminar ou não. Estes facínoras brincaram com o futuro dos jovens que agora vão pagar a enorme conta com a própria escravidão da morte de seus sonhos. E a idiotice e o besteirol sobem toda hora ao palanque e dizem: “Jovens, agora o Brasil é para vocês, sejam felizes!”. E ao mesmo tempo um corrupto pergunta ao ser preso “que país é este?”. 

Brincadeira que tem suas consequências tão grandes quanto pregar para um povo inteiro a ideologia de que lucro é pecado, que a atividade comercial é pecaminosa etc., etc. Ideologias e ideologias que não deram em nada de bom e colocaram o país no grau de exposição atual à beira do nada seguro, do pisar à beira do abismo para uma juventude que deverá aqui viver como adulta e nada o que verão parecerá com os jogos de vídeo game e telas coloridas dos celulares. 

Certamente uns poucos ainda continuarão como os líderes capazes de manter as aparências, mas já em número insuficiente para o tamanho do país que vai crescer dependente, cada vez mais, de certa inteligência de alguns grupos externos, capazes de lentamente esmigalhar qualquer cultura de qualquer Nação, no mesmo espírito do mundo colonial.  

A adequação da educação para uma reação seria o ideal, não uma para fazer do cidadão um mero seguidor, um mero tarefeiro, um simples operador, mas um ser pensante e produtivo com liberdade e preparado para ser um empreendedor, se seu talento permitir. Mas como isto daria votos na próxima eleição? Um projeto de tão longo prazo exige desapego e espírito nacional, patriotismo, amor ao Próximo livre. Sua invisibilidade por décadas nada renderia a político algum, mas seria o futuro mais seguro e duradouro para o país.

Mas não, o que querem é seguir o fluxo e adaptar a educação ao que sobrou da antiga reforma de educação dos anos 70. Um cidadão distraído é mais fácil de manipular, fazer votar e conduzir para o consumo. Nada mais. A verdadeira receita da escravidão humana e perpetuação de uma camada de políticos que se tornaram profissionais exploradores fazendo uma “falsa nobreza” em plena República. A continuidade de tal pensar atitude terá efeitos miseráveis e violentos.

Será que estamos na cômoda posição de continuar pensando que “as coisas com o tempo vão se ajeitando, tudo se arranja e os melhores vencerão”? Será mesmo que a seleção natural baseada no sucesso dos melhores será suficiente para o progresso do Brasil no mundo em mudança? Até agora os “melhores” políticos revelaram-se os mais espertos ladrões. Seria um sinal da decadência do processo de seleção natural? E quantos aos “melhores” de hoje no Governo e empresas públicas, verdadeiros reinos livres: não foram eles privilegiados por sistemas salariais feitos por eles mesmos nos três poderes em todos os níveis face à necessidade de manutenção de sistemas de corrupção ou de simples corporativismo e nepotismo? Ali, estar atrelado a algum político é proteção garantida para o exercício do principado.  E os “inside agents” que protegem esquemas milionários dentro das empresas.

Isto também precisa ser lavado a jato. Depois da lavagem a nível federal, deve-se olhar para o que ocorre a nível estadual e municipal, mas aí tudo vai depender do grau de independência do Judiciário e do Ministério Público estadual. Vai levar tempo para mexer na cultura arraigada das mazelas e da corrupção miúda, todavia, a limpeza é necessária para garantir um Brasil melhor para a juventude. Sem isto e sem educação, tudo continuará em lenta mudança, crescendo só quando há interesse político em ganhar alguma vantagem.

Entre políticos, do vereador ao Presidente, há de haver os honestos, os idealistas, que em querendo  melhorar o país,  entendam que a educação com Matemática, Português, História e Geografia não é suficiente para o jovem do futuro empreendedor e nem mesmo para o jovem seguidor. O abandono do ensino enciclopédico aos moldes da escola francesa foi um desastre e a simplificação da educação aos moldes americanos será a continuidade de um erro histórico. Fazer a educação ajoelhar-se à realidade social é um erro. A geração no poder não está plantando árvores cujos frutos não irão colher. Os que colherão os frutos estão nas ruas e vão tornar-se mais violentos conforme a etapa da vida em que sentirem que forem enganados. É um processo em evolução, bruto, irracional e de consequências cada vez piores.  E quanto mais contrariados em seus egos, mais insatisfação, mais cegueira, mais impetuosidade, mais violência.  Enquanto brincamos com a educação aumenta o descompasso entre o Brasil e o mundo industrializado e altamente informatizado.

Ficaremos sempre como um país atrasado com miséria e violência? A educação pode salvar se pelo menos tivermos pessoas para filtrar os modelos fornecidos pelo exterior, para que ao menos adotemos as boas práticas, as boas tecnologias de empresas do exterior de qualidade e responsabilidade e não o lixo de modelos ultrapassados e nocivos para todos e até para o Planeta. Os novos rumos trarão uma realidade mais intensa e serão exigidos líderes isentos que pensem no futuro e não nas próximas eleições. Podemos aprender muito com sociedades mais avançadas que passaram por etapas iguais a nossa há mais de cem anos atrás. Será com a correção de práticas e processos que poderemos humanizar o capitalismo aqui existente em sua versão selvagem. A humanização será a única alternativa, já que não há nenhum outro regime melhor. Mas para isto é necessário o cidadão com educação formal. Caso contrário, Nelson Rodrigues terá razão em ter dito que o Brasil conhecerá a barbárie antes da civilização. Uma realidade já existente em alguns lugares à noite nas cidades. 

Todavia, se não aproveitarmos esta fase de lavagem na política, continuaremos no rumo do futuro certamente indesejável.

A quem aproveita tudo isto? A Nação e a Pátria já estão de luto, antecipando realidades duras e graves que ninguém deseja? Mas Deus é brasileiro e o país vive de fé e esperança; embora no Rio de Janeiro, o Cristo Redentor esteja de costas para o país e aos seus pés a barbárie e a podridão civilizatória aconteça sem parar.

Odilon Reinhardt .

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Vontade de voar.



Blog 31.1.2017

                         


 
                                                  

                                                    Vontade de voar.


Quem já não teve vontade de voar, tentando livrar-se do lugar onde está ? É da vontade humana ser e sentir-se livre. Todavia, o mundo opõe-se  constantemente a tal desejo, pois a sociedade que construímos até agora
cada vez mais nos dá uma liberdade  limitada, tutelada e quase restrita à vontade de poder escolher entre um ou outro produto a consumir, vontade  que já se encontra totalmente condicionada pela mídia.
Neste enredo, não se pode menosprezar a sociedade baseada no ego com indústrias e serviços totalmente voltadas à vaidade, ganância, gula, orgulho, preguiça e luxúria, gerando sempre ciúme, inveja e muita contrariedade, frustração e ira, o que leva a uma sociedade de relacionamentos conflituosos. Depressão, solidão, síndrome do pânico etc, parecem ser só mínimos resultados já apresentados coletivamente.
As consequências são desastrosas para a produção e consumo. No entanto, os problemas são sempre do indivíduo e o drama nunca é da sociedade como um todo. Ademais, a saída para os defensores de que está tudo dentro do normal é recorrer sempre às estatísticas. Se numa rua passam mil pessoas por dia e só 10 são assaltadas ou atropeladas ou mortas, a estatística apresentará sempre um número irrelevante e o Poder Público, através de algum de seus déspotas, sempre sairá bem na entrevista apontando números e não vidas.
É este fascismo que sempre chama a atenção e ele coexiste com realidades muito autoritárias e egoísticas, quase sempre refletindo o tom dado à gestão dos negócios públicos e privados pelo líder do momento, seja nas empresas públicas ou privadas, nos negócios familiares ou não, nas empresas de serviços etc, onde há pessoas obrigadas a seguir as diretivas do momento para garantir seus empregos.
Não é raro que o estilo autoritário seja a regra, pois ele combina diretamente com a personalidade do líder, geralmente uma pessoa egocêntrica, pensando ser o centro do universo; esboçando sempre seu medo mórbido de perder, de não ganhar, de perder o controle; vivendo no seu dia a dia o medo de ser contrariado. O autoritário, com defeitos  e graves problemas agravados pela educação, é uma pessoa egoísta, individualista e materialista que vive ao dar prioridade ao seu umbigo, não tolerando jamais qualquer deslize do Próximo que possa lhe ameaçar, afrontar ou contradizer. Por tal motivo, estas pessoas são todas impetuosas, violentas, intempestivas, imprevisíveis, desequilibradas, irritadiças, inflexíveis no comportamento, controladores e centralizadores que abafam qualquer contribuição e ideia. Campeões do assédio moral. Escravas de si mesmas. Egocentradas, numa intensidade bem superior à  média crescente das pessoas na sociedade atual. 
A consequência é que o ambiente administrativo nunca é baseado na cooperação, mas no medo, no servilismo, no negativismo, o que contamina o ambiente de todos e prejudica a gestão, seja de um negócio, indústria, cidade ou país. Um líder com tais poderes pode determinar a vida e geralmente apresentar uma falsa estrada. Militaresco, por mais absurdo que seja o caminho proposto, nunca faltarão seguidores e oportunistas que sacados de dentro do rebanho apresentar-se-ão como o homem-de-plantão, o puxa-saco mor, o servil ajudante, não importando a profissão e a qualificação, pois o defeito é humano, uma falta de boa personalidade e de virtude.
Não obstante tal clima de falso favoritismo, o líder pouco dará valor a seus seguidores, os quais não fará cerimônia em punir, demitir e até liquidar a vida particular dos mesmos, pois nunca os considerou como seres humanos, mas sim bonecos usáveis, os verdadeiros imbecis úteis. 
O fato é que a passagem de um líder de tal maléfica qualificação mostrará a qualidade de certos seres do local e também não deixará de deixar na história pessoal e coletiva consequências desastrosas. Stalin, Hitler, vários líderes africanos e da Sudeste Asiático e vários outros modernos e antigos sempre deixaram um resto de sangue e dor após sua partida e contaram com o apoio de muitos idênticos ou fingidos.  A mesma realidade e em proporções até bem maiores encontra-se em chefes de negócios, serviços, indústrias e até pais de família que aos milhares infernizam seus ambientes.  
O modelo de gestão conduzido pelo autoritarismo nada mais é do que o ego no Poder. É sempre a pior liderança, a pior história, a pior experiência humana. Entretanto, tal modelo é comum; volta e meia surge um líder deste tipo para amedrontar e atrapalhar as pessoas. É banalizada quanto a seus efeitos, os quais se diferenciam da violência física nas ruas e lares, pois as vítimas da violência no local do trabalho permanecem vivas na tortura diária como naturezas-mortas, seres mortos-vivos. O que é pior?    
Assim líderes como tais são diabólicos e causam danos irreparáveis para a vida antes de sumirem do ambiente onde surgiram e mal administraram. Num pais de instituições fortes, tais líderes contam com resistência e assim tem sua atividade limitada, quando não envolvem todos os poderes em suas façanhas maldosas. Incomodam, assustam, ameaçam, falam muito, criam factoides, mas não persistem por muito tempo, pois o tempo é o senhor do Universo e acaba com eles um a um.  Terão que pagar pela satisfação do ego atendido à custa da miséria, sofrimento e humilhação alheia. A dor que virá é a da intimidade, do foro íntimo. Será muito forte e o pagamento será cruel em termos espirituais. É uma dívida que dificilmente deixará de ser cobrada.
Pior do que lideres globais de má fama histórica, são os milhares de  chefetes de indústria, de escritórios , de negócios em geral e repartições etc, que têm um poder de infernizar e tornar um ambiente de trabalho insuportável e totalmente irrespirável, destruindo a saúde e  carreira profissional de pessoas. Estes, sim, tornam a vida do cidadão um trauma que será levado para casa onde haverá reflexos enormes.  Um pai ou uma mãe de família acossado e atormentado por tais chefetes, verdadeiros sargentões de mesinha, é marcado para sempre e sua família sofre no dia a dia. A Nação fica doente em casa, com reflexos para todo o sistema.
Nosso país é autoritário, conservador de privilégios, possui classes sociais,  vazias em virtude, embora remediadas materialmente. Face o agravante do analfabetismo, a liderança autoritária é sempre favorecida, fazendo surgir o líder egoístico como acima mencionado.
Por enquanto pouca preocupação deve gerar a subida ao poder de um líder polêmico, se as instituições do país são fortes e suficientes para controlá-lo formalmente, embora os shows diários de demonstração de força verbal alimentem a imprensa fingida de assustada. O drama que realmente deve preocupar é o das empresas, negócios e serviços onde líderes diabólicos agem impunemente todos os dias, infernizando as pessoas e suas vidas e muitas vezes detonando o próprio futuro institucional. Há certa hipocrisia e pressa no desvio de atenção para líderes egoicos do exterior quando os piores líderes estão agindo por aí no país, nas cidades, nas empresas e negócios brasileiros, utilizando modelos de gestão arcaicos, como o autoritarismo baseado nos defeitos egoicos de chefetes nacionais, eleitos ou escolhidos reizinhos do momento .
Em total desprezo aos chefetes autoritários que desmontam a vida de pessoas talentosas, sérias, honestas influenciando no dia a dia das empresas e da Nação, sem que haja o mínimo comentário a respeito, dedico está  prosa :

             O transitório império de Seu Coisa.

Hoje anda cheio de si em salas , reuniões e pelos corredores,
o verdadeiro ego ambulante,
a lei está em sua língua com dissabores,
lá vai Seu Coisa com seus seguidores no reino nada distante. 

Seu umbigo é gigantesco,
Coisa vive sempre em reação,
esperando algo imaginariamente grotesco,
que possa ameaçar seu Poder de ilusão .

Crê-se rei, eleito pelo Ego, soberano,
em seu transitório reinado,
onde a mentira e o engano,
em sessões contínuas, vivem no circo criado.

De tudo quer tirar proveito,
Coisa  aqui, Coisa  lá , em todo lugar,
está por cima de cada feito.
Não admite que seu tempo pode acabar. 

Desconsidera o Próximo no dia à dia,
manda e desmanda com desequilíbrio, impetuosidade;
é irritável, prepotente, grosseiro, orgulhoso  e age com covardia.
Cego, não vê sua triste realidade.

Por trás das muitas portas de corredores,
todos enfiam facas em suas costas;
Seu Coisa  não sente dor nem amor,
mas um dia deverá acertar suas contas.

É um  grande enganador, um fanfarrão,
palhaço no circo das suas próprias  egoicas ilusões,
sua ação e reação é pura e descontrolada emoção;
só Poder , orgulho, vaidade em suas decisões.

Vive com medo de ser afrontado,
teme que seu vazio seja descoberto;
sempre tenso, teme ser desrespeitado ,
não sabe que seu reino é ilusório e mal encantado.

Seu Coisa é frio, materialista,
faz parte da geração já robotizada ,
uniformizada, calculista ,
muito condicionada e manipulada.

Vive na realidade do “ se colar, colou”,
“a verdade é aquela que eu digo que é”
e assim Seu Coisa marca o tempo que rolou.

Seu Coisa  vive no limiar,
sabe que deve se impor para não ser deposto,
vive atemorizado e faz defesas para contra-atacar,
porque Coisa é um falastrão de muito mal gosto.

Mas por hora Coisa  é o rei do momento,
seu tempo irá passar como o de tantos outros reizinhos,
deixará mau sentimento,
o de o Diabo ter passado por aqui com seus diabinhos.

Rude , tosco, violento, cruel,
é o verdadeiro Coisa “o terrível” com seu pensar estrombólico
na linha sucessória do reino incrível ,
onde tudo parece ser diabólico.

Pior é que antecessores não foram menos impossíveis e famigerados
, pois detonaram e amassaram seus fiéis seguidores,
depois foram embora chacoalhando seus ternos velhos e amarrotados,
deixando para trás o ambiente imerso em níveis humanos inferiores.

Por enquanto, Coisa parece desconhecer o tempo e o futuro,
vive o sonho do reino encantado da ilusão,
menosprezando o que lhe aguarda de duro,
e as consequências de toda sua má ação.

Mas um dia Seu Coisa deixará o reino,
sairá deixando um rastro de pobreza,
como se nada tivesse causado, considerando que tudo foi um treino,
no seu dia à dia sem qualquer nobreza.

Nunca mais se falará de Seu Coisa por um segundo,
mas ele estará em algum lugar fazendo das suas ,
defendendo seu ego contra tudo e todos no seu umbigo, seu mundo
e jamais terá consciência das desgraças de realidades que deixou nuas.

E ali no circo encantado tudo será renovado, esperando o novo rei,
os seguidores de plantão irão se arrumar,
já preparam suas línguas para receber outro soberano , seu amado rei,
enquanto os demais , oprimidos e empobrecidos, terão que se enquadrar. 


Lamentável, não? Mas esta é a realidade miúda que faz a gestão de negócios neste país e em muitos lugares do mundo, sem que nada se faça contra tais líderes, os quais até recebem aplausos, enquanto muitos padecem e têm suas vidas e carreiras ameaçadas, fazendo no todo mais um aspecto da grande insatisfação em viver o dia à dia . Muitos negócios e gestões públicas são severamente atrapalhadas em sua história devido à atuação de líderes egoicos, mas políticos, associações e teóricos da sociologia, da administração, da psicologia e psicanálise pouco tratam do assunto como determinante para a qualidade de vida dos cidadãos. É sempre drama individual. Cliente novo, receita, voto, dane-se a Nação.  Muitos são os que têm vontade de voar para livrar-se do ambiente criado pelo autoritarismo selvagem de tais chefetes e reizinhos do pedaço como o Seu Coisa e seus milhares de idênticos, todos egocêntricos, pobres mendigos espirituais , farrapos humanos que ostentam em geral seus altos salários e cargos, mas não necessariamente , pois o modelo de gestão é pessoal e desconhece local e posição. É ruim e acontece em qualquer lugar.   
E já que o interesse nesta sociedade é pela repercussão financeira e econômica, pergunta-se: quanto do PIB é diminuído em função do modelo de gestão de tais líderes? Por que as instituições não punem tais pessoas? Por que os problemas na saúde física e mental das pessoas não é tratada como reflexo de um local de trabalho dirigido por uma gestão autoritária e inconsequente? Quanto da produção e do consumo é danificado por tais líderes? Qual a estatística referente a talentos perdidos e desmotivados por tais líderes inseguros, imaturos e despreparados?  Depois da temporada democrática no mundo, o anacronismo do modelo autoritário ficou ressaltado e, portanto , intolerável?

Odilon Reinhardt .







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