quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Andanças, patranhas, gadunhos e caudilhos.







                                    




                                Andanças, patranhas, gadunhos e caudilhos.

                                Tudo acontece para que nada aconteça.         







E mais uma vez, tudo se repete, tudo igual. Tinha-se a impressão, a vã sensação de que seria renovação; um ar novo a festejar a bandeira da Pátria, mas é sonho passageiro no imaginário popular. Facilmente esquece-se o passado por mais recente que seja e acredita-se em repetir tudo da mesma forma, com as mesmas estruturas e as mesmas mazelas.



O mágico momento ilude a todos, escamoteia a realidade, falsifica as ideais. As promessas vão desde o que caberia a um vereador até a um caudilho. O sistema leva mesmo à sensação de se estar por eleger um super-homem, o salvador, a figura central que terá o monopólio de todas as ideais, de todas as soluções. As instituições ficam diminuídas mesmo que estejam fortes e ainda sejam o sustentáculo de tudo. 

Neste afã, correm os dias em sessões circenses que nos diminuem e aviltam colocando-nos no charco do subdesenvolvimento intelectual. Já foi pior no passado.

E através de frases superficiais e sem nenhum respaldo no cofre público, cada candidato delira em suas andanças. Prevalece o mais falante, o mais berrante, o mais qualquer coisa que possa enganar em aparência, que possa mais uma vez iludir.



Há somente uma variegada exposição de ideias, mas nenhum debate entre os candidatos. Cutucões sobre quizilas da vida política, mas nenhum debate digno do que fazer com sustentabilidade. Frases soltas causam clamor ou pavor sem que se saiba de seus detalhes. Pouco se fala de Educação. Só alguns têm um plano já conhecido: a politização do ensino e o marxismo inconsequente a ser impresso nas crianças.



Só através de uma educação enciclopédica e livre para libertar a criança da ignorância e das armadilhas da ideologia pode haver revelação de talentos e só assim pode nascer um Brasil diferente e de bom e saudável futuro. São os professores das crianças de 1 a 7 anos que têm a oportunidade de dar a oportunidade de dar os primeiros modelos para um futuro pessoal bom para cada criança de hoje e de sempre. Devemos pela Pátria evitar qualquer modelo fechado de Educação que só crie cortadores de frango para a linha de produção. Quem deseja  tal Educação, quer engessar as pessoas na ignorância para sobre elas reinar perpetuamente, negando-lhes a possibilidade e liberdade de mobilidade social.



E a Economia, qual o plano de recuperação do desastre deixado? Só há promessa de redução de ministérios e poucas coisas. A questão é muito mais grave. Estamos no carpete de entrada do FMI. Numa campanha eleitoral que vai se revelando como mais um grande salto no escuro para a Nação, só percebe-se o jogo de palavras entre os candidatos. Devido à grave situação econômica o eleitor mergulha numa ilusão. Não se espere nada de mel e leite, mas a dura rapadura racionada.



As verdadeiras pretensões dos candidatos, as ideais de gestão e negócios e seus planos ficam escondidos por trás de planos de governo perfunctórios e discursos para agradar a população. Tudo favorece a superficialidade, a aparência do imaginário ditador, do salvador. Algo bem afinado com nossa simplicidade tosca, alienação negligente e desconhecimento das instituições e suas atribuições na máquina de governar.



Pouco se ressalta a importância de um candidato que deva ter poder de maestro na grande orquestra democrática que é a gestão do Governo e interesses da população. O poder de articulador porque é esta habilidade que irá ser necessária.  Nenhum eleito será ditador e terá poder supremo no Estado de Direito e Democracia. A falha nesta habilidade transformará o eleito em um boneco na mão das coligações e tudo poderá se perder em curto prazo.



O eleito terá que enfrentar muito de trabalho para manter coligações. Um eleito sem habilidade de gestor de pessoas, que moeda usará senão a do preenchimento de cargos, isenções e reduções fiscais, promessa de projetos e decretos para beneficiar interesses privados? Fará o mesmo de sempre, comerá na mão do sistema corruptor.

Os interesseiros e manipuladores de situações engolirão o eleito em seu trabalho interno, o “interna corporis” que via de regra se perde na burocracia, no controle do controle do controle.... para que ninguém “descaminhe”, mas que revelou-se ser inócuo. Divisões, subdivisões, coordenadorias, subcoordenadorias, regionais, superintendências, etc. ,etc. numa estrutura gigantesca , que se perde no enrolo, mas serve para preencher cargos e dar salários, com os quais o Governo se afunda e vive para si mesmo. E mais, milhares de sinecuras para acolher a “trupe” das coligações ,onde os “negócios” são feitos.



Conforme a qualidade do séquito que acompanhará o eleito de todos os níveis de Poder, poderemos ter algo equiparado à Invasão de Atila e seus Hunos, a invasão dos porcos magros no Jardim das Delícias, para em 1460 dias engordarem à vontade. E assim logo começa o festival de patranhas e gadunhos para proteger a imagem, encobrindo com falsas estatísticas os defeitos de mais uma gestão. Empoderados falastrões e seguidores satânicos colocar-se-ão no exército de Brancaleone em defesa de suas posições junto à panela de leite e mel.



Não é, em regra, o pessoal da repartição pública e o funcionário de carreira que é o responsável pelo que estará ocorrendo, pois é pessoal constantemente vigiado; há regras rígidas para o servidor e há controle para tudo, afora o que sofrem no ambiente demoníaco nos  meios do serviço público. Todavia, exceções existem e contaminam. 



Só haverá mudança cultural efetiva, se o erro maior do eleito não continuar a ser o permitir a intromissão politiqueira na gestão pública. Pelo que se pode fartamente deduzir da divulgação sucessiva de escândalos, assessores e assistentes de fora é que têm vindo para fazer “negócios”. O ordem de todos os dias é “temos que garantir a reeleição” e nisto não há ética nem moral, só safadeza e ego.

 

Nem Deus sabe o que se passa nas entranhas das repartições, dos gabinetes ou fora deles, nas economias mistas e empresas públicas e fundações bem como nos outros Poderes. Ali o diabo bebe e come todos os dias, o ego caminha a passadas largas, folgadas e contentes. E muitos dessas “eminências pardas”, “autoridades não eleitas” entram no Governo “como cobra, atavam como tigre e saem como águia”. A impunidade os abençoa e protege e nada lhes faltará. A missão está cumprida, as metas atingidas; o dano feito, mas bem escondido. Sacodem o terno e vão para outra. Assim operam estas figuras subalternas, “reizinhos” de ocasião. E os funcionários da repartição, empresa ou fundação lesionada ficam usados e abusados, esperando o sucessor que os pise, mas que pelo menos prometa aumentar o salário.



Otto Von Bismarck disse ” Quanto menos as pessoas souberem como são feitas as leis e as salsichas, melhor elas dormirão.” Hoje impossível manter isto longe do público graças aos meios de comunicação livre e à informática. Todavia, a frase é verdadeira e denuncia a natureza das negociatas nas entranhas do Poder e não evita o prosseguimento da prática, a qual só é denunciada, se alguém deixar de receber a sua parte. Mas a essa altura muito já foi feito e, via de regra, o cofre já foi arrombado.



Só chegamos a ter conhecimento, graças à TV,  do que já ocorreu; só temos a chance de presumir o que possa estar acontecendo. Mas escândalos sucessivos mostram que há uma trama “para que tudo aconteça para que nada aconteça”, a não ser o que diga respeito aos projetos pessoais e partidários de encher as burras.

Erros de gestão são encobertos, desperdícios e falsas necessidades são camufladas, gastanças são fantasiadas em reuniões “estratégicas” e treinamentos espúrios. Assim parte da gestão é consumida por essa realidade.



O que há de novo depois de toda a população ter sonhado em reformas e mudanças?

Haverá mudança se funcionários de carreira não tiverem que aguentar mais uma rodada de reposição de assessores e assistentes, de gerentes de fora, de pessoal que só vem atormentar. São, repita-se, reizinhos de fora, de ocasião, com suas neuroses, inexperiências, inseguranças; todos são temporários “nobres”, escolhidos pelos Poderosos, e com carta branca para acabar com a carreira de muitas pessoas e glorificar incompetentes que na posição de “traíras” despontaram na caça às bruxas, quando ninguém tem direito nem proteção e o assédio moral e sexual são banalizados como espólio de guerra.Bons técnicos são transferidos, bons projetos são arquivados, obras são paralisadas, porque são do regime anterior e sua motivadora negociação já se esgotou. É a politização indevida com caras consequências para o objeto da companhia ou do serviço público. Entre os empregados e funcionários, assume a turma da rádio peão; saem os antigos traíras dando lugar aos novos. É o controle dos controlados, mas seja lá como seja, nunca nada dá em nada “interna corporis”, porque o Governo atua rápido com várias patranhas para não denegrir a gestão e em alguns casos não se pode impactar os acionistas e o mercado.



E assim vai a gestão, a nova com cara e doenças das velhas, numa cascata burocrática e inócua, mas suficiente para gerar funções e dar empregos, onde até o Tempo se perde em corredores de mil olhos e cansado da mesmice resolve se aposentar. Deixa a aventura mais uma vez correr dentro da receita do passado.



Fato é que comprovadamente é necessário repensar o Estado e atualizá-lo em termos de invasão ideológica e gestão, porque o Estado não aguenta mais a posição antiga de “principal empregador de pessoas e contratante de serviços”. Mas com tanta cupidez, ganância e megalomania, quem se dedicará a repensar a estrutura? Quem acabará com as folhas de pagamento suplementares, todas infestadas de “comissionados” , elementos que incham a despesa, sugando recursos e indignando o servidor de carreira, o mísero concursado. Comissionados ganham mais, fazem menos para o serviço, mas fazem muito para o partido e seus candidatos.  São seres “especiais”, eleitos pelos temporários deuses em plena democracia. Sugam as verbas do órgão, da economia mista, da fundação etc. acabam com a receita da União etc. Entre eles pessoas boas ou ruins, mas certamente com missão certa dentro de um exército de carregadores.



Espera-se que os meios de comunicação, passada a euforia inicial e o tempo de “ dar uma chance”, não aceitem pagamento de publicidade para proteger tudo que venha a novamente acontecer, porque a velha e carcomida cultura de “negociatas” já estará novamente em andamento. Veja-se que nem as operações da Polícia Federal e Ministério Público intimidaram a corrupção, especialmente a estadual e municipal.



É assim que com a vida voltando ao normal, banalizadas suas atrocidades, o candidato eleito já terá sido envolvido pela trama das coligações no jogo do Poder, a classe política já terá se recolhido a seus castelos, esquecendo das promessa feitas ao povo e este já terá esquecido em quem votou. Tudo será igual no quartel de Abrantes, tudo igual ao passado. Nada de novo, nada de reformas no castelo, cuja gestão será no castelo, para o castelo e pelo castelo. E o povo, cada vez mais longe,continuará sua vida sendo violento, inflexível, autoritário, conservador, fisiológico, sem saber interpretar um texto, egoico ao extremo, impulsivo, forçosamente tarefeiro, seguidor, tosco no trato com o Próximo, o qual vê como potencial rival e agressor, etc.   

E por que seria diferente? Não é essa a resultante da cultura acumulada há 518 anos? Não é essa a resultante de terem deixado alguns “ismos” importados terem migrado da linha da produção para a vida das pessoas e seus lares? Como esperar que seja diferente?



Isso tudo, no fundo, não advém da questão de dinheiro, mas de ausência de boa educação familiar e escolar e de uma gritante falha da orientação religiosa ou mesmo exotérica.  Só um “cego” não vê o que está ocorrendo e acredita que mais vale uma avenida asfaltada e iluminada do que uma escola. Certamente, tal “cego” acreditará que presídios maiores também são prioridade em relação à escola. Mas faz parte da evolução. É a fase de transição. Muitas gerações serão consumidas, mas o progresso está andando, com altos e baixos, lento, mas andando, um pouco sem ordem, mas andando.



E permeando a tudo, há a crise de identidade da Nação, cujos modelos adotados até agora são criticados, havendo, assim, uma procura por novos modelos. Difícil crise da adolescência coletiva da Nação, mas superável com o tempo, numa visão otimista. Pelo menos há sinais de aproximação da Idade Média no horizonte. Há tempos já se identifica muito bem o momento:

   

“Nas noites de frio é melhor nem nascer. Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer E assim nos tornamos brasileiros... A tua piscina tá cheia de ratos. Tuas ideias não correspondem aos fatos. O tempo não pára. Eu vejo o futuro repetir o passado...” Cazuza. “



“Meu partido. É um coração partido. E as ilusões estão todas perdidas. Os meus sonhos foram todos vendidos. Tão barato que eu nem acredito. Eu nem acredito. Que aquele garoto que ia mudar o mundo (Mudar o mundo). Frequenta agora as festas do "Grand Monde". Meus heróis morreram de overdose.  Meus inimigos estão no poder Ideologia. Eu quero uma pra viver. Ideologia. Eu quero uma pra viver... “Cazuza”.



É não foi desta vez. Fica a esperança e fé para 2022. 





Odilon Reinhardt  3/10/2018.


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Quem serão os "eleitos", depois das eleições?












                                              






                                            Quem serão os “eleitos” depois da eleição?









A gestão não pode continuar a ser um conjunto de atos, só para evitar a falência das contas públicas. Mas os números indicam que tal realidade vai continuar e o Jardim das Delícias continuará a atrair o umbigo de pessoas dirigidas pelas mesmas intenções predatórias que podem estar exterminando o bom futuro. 



Muitos políticos que só vivem para seu clubinho político; políticos honestos que possam ser idealistas patrióticos, mas pecam pela qualidade de seus ajudantes e coligações; políticos que se habituaram a viver do Tesouro; políticos que não pensam na Nação, só na reeleição e seu financiamento; políticos idealistas e honestos, mas sem recursos e apoio; políticos de primeira vez que serão tragados por realidades cruéis; políticos e políticos gerados pelo sistema eleitoral existente e que reflete a história de nosso sistema de representação, em evolução, e adaptando-se aos novos tempos e deixando o eleitor sem escolha. 



É sabido que quem desejar ser político ou continuar nela tem que seguir o jogo e suas regras. Há muitas batalhas dentro do partido, para o candidato nascer e ser exposto ao público. Nessas batalhas, o candidato dificilmente garante a integridade de suas ideais e planos e deixa de se comprometer com planos outros. Frequentemente a essa altura, uma vez vitorioso e na posição de ser candidato, já não ele o mesmo, mas um arquétipo, pronto a representar um papel no teatro.



Organizar-se e adotar sistemas para ganhar faz parte da liberdade humana e nada poderia ser criticado sem que se desrespeitasse o aspecto livre do humano, se tudo isto estivesse dando certo, se a vida privada não estivesse comprometida, se os serviços básicos estivessem garantidos e de boa qualidade, se o Brasil não estivesse às portas do FMI.  Infelizmente, há uma ínfima quantidade de políticos que fazem as exceções, todavia sufocadas pela realidade adversa. O atuar de muitos políticos eleitos perde-se na promiscuidade do entrelaçamento dos interesses, cumprimento das amarrações de campanha e na necessidade de financiamento. A honestidade e o interesse público são esmagados pelos jogos partidários e pelos desajeitamentos políticos diários.



Processos e procedimentos dentro desse sistema seguem as etapas de qualquer coisa criada pelo humano: há o começo, meio e fim. Entre nós os esquemas falharam e a população de todas as classes está esgotada; a reação fica por conta do futuro. No entanto, lentamente, sinais e perspectivas nos contam do futuro e diariamente fatos e fotos nos levam a acreditar que fiapos do mesmo já estão à amostra e nada é bom.



Há a cada dia mais consequências que são tratadas como causas. Mais exigências, mais necessidades são impingidas à população consumidora, mas a estrutura do Estado permanece a mesma, carente e atrasada. Mesmo assim, certas camadas de funcionários, agentes públicos e ocupantes de cargos de confiança, cegos quanto à realidade, imaginam ser uma classe de iluminados, escolhidos por Deus, para tripudiar a situação de quem lhes garante o salário espetacular em funções bem ultravalorizadas, onde podem viver dias de umbigo dourado à revelia da crise, do país, da realidade tributária, da vida do dia a dia, pouco importando o que ocorre nas aldeias em torno do castelo. Impera em muitos a megalomania, a ganância, a comparação e a feroz competição “interna corporis”, um incompreensível padrão de moralidade e honestidade, tudo vivido num, ainda mais incompreensível, ambiente infernal de mexericos e traições palacianas. São insaciáveis quanto ao Poder e seus benefícios.  



Se virou necessidade falar do novo, para mudar, reformar, substituir, o campo primeiro seria o da mentalidade acima mencionada. O ranço de alguns maus aspectos da estrutura formal remanescente da Monarquia é que deve sumir para que se construa um Estado atualizado em modernidade estrutural, que não gere a mente de nobreza, a qual não pode subsistir, quando o contribuinte é que passa fome, não tem saúde, não tem segurança e ao se aposentar tem no desejar morrer a melhor opção.



Quem aceitaria desafiar tal mentalidade? Quem mudaria pelo menos um dos aspectos da mente atrasada do país? Que candidato eleito seria tão poderoso para reformar o Estado, apagando milhares de leis de privilégios sem enfrentar uma greve nacional de consequências graves? Quem arriscaria mexer no Jardim dos Prazeres das empresas estatais, econômicas mistas e fundações, pretensamente locais, onde se faz de tudo que a estrutural estatal não comporta nem tem orçamento para fazer?   Na campanha nada se comenta sobre a realidade dentro do serviço público nos três Poderes; ninguém quer perder votos e possivelmente nenhuma reforma será aprovada posteriormente mudando o “establishment”, a nobreza no Jardim das Delícias, local de reinos ocultos, protegidos pela falta de transparência e um corporativismo eternizado.  Aparentemente, mesmo que a enorme despesa com a folha de pagamentos represente grande porcentagem da despesa do Governo, ninguém parece estar muito preocupado. A população civil foca em pontos fisiológicos e não tem conhecimento para criticar as entranhas do Estado. E tais pontos, a maioria de sofrimento e dor existencial, fornece a matéria suficiente para os candidatos demagogicamente abordarem o que o eleitor quer escutar e o populismo campeia livre.



No teatro das eleições, são muitas as promessas ligeiras, as que são direcionadas a curar problemas pontuais; os candidatos se confundem quanto a sua futura posição de modo que para contentar eleitores prometem o que competiria a um vereador, prefeito, deputado ou até presidente propor. Quanto a propostas efetivamente fundamentais, candidatos jogam frases de efeito para o povo se impressionar e engolir. Vale tudo.



Alguém está falando em fundamentos da Educação de qualidade? Alguém apresentou um plano para a Educação que não seja o ensino pobre e suficiente para a linha da produção?  Qual a proposta para despertar e valorizar o cidadão em sua totalidade como humano? Não é a falta de Educação a fonte de tudo que temos hoje em termos de violência, etc.?



Alguém está falando em deter as tendências perversas de certos “ismos” que estão contaminando as gerações e mexendo no futuro delas de modo “utterly barbaric”? Alguém está falando em conter os lados negativos do paraíso informático prometido? E a preservação da Amazônia? E a química nos produtos em geral? E a contaminação agrícola? E as drogas como centro da violência? E as causas das doenças mentais existentes e as causas geradoras de depressão, etc.? “O Brasil está doente”, palavras de pelo menos dois grandes magistrados no STF.  As soluções meramente materiais já não adiantam mais, é necessário cuidar do humano. .



Certamente ninguém ira propor ideais contra a ideologia e o negócio de seus próprios financiadores. Tampouco irá combater ou mudar o que afete a receita tributária, seja ou não ilegal, seja contra a saúde ou não. A sociedade e sua vida econômica estão estruturadas de um modo que qualquer alteração atinge a receita e agrava a crise. Como prometer mudanças de base? Nenhum candidato poderá mudar uma sociedade que se acostumou à má-fé, a tirar vantagens, a não pagar impostos, à corrupção como jeitinho, ao ganhar-ganhar, ao abuso de poder, ao “carteiraço”, outras brejeirices, etc. como costume de vida. Talvez uma árvore que se entortou desde pequena. Resta, portanto, aos Governos eleitos, nos estreitos limites orçamentários, continuar a  fazer obras, investir na cosmética, e tirar seu proveito; o resto, a própria sociedade irá ao longo das décadas se depurando ou envergando até o chão sujo. Perde-se a cada ano a oportunidade de refinar o sistema capitalista e vai-se favorecendo as ideologias de esquerda que nunca deram certo e são contra o humano livre e seus ideais de determinação. Acuada, a população vê a violência descambando para o terrorismo. Não dá para banalizar, pois é puro sinal de descompromisso com o Próximo e com a democracia. Não é só revolta individual decorrente de problemas individuais e frustrações pessoais, há uma ideologia do mal se expressando. Não é caso de polícia, é algo mais perigoso: a desobediência civil, o desrespeito, o desamor a tudo e todos.

O fato é que no momento da campanha, cada candidato apresentado parece ter a receita para “mudar o Brasil”. E nessa posição cada um deles parece despir-se de seu passado político para vestir uma capa de “santidade” com adereços de intocabilidade. Todos melhoram o Português com frases de estadista, seres puros, prestes a entregar a alma pelo Brasil. O jacaré vira cordeiro, o boitatá vira ilusório coroinha. Só a velha raposa, já conhecida, enfrenta tudo com a cara dura, certa que abocanhará sua parte do Tesouro mais uma vez. E todos prometem soluções sem olhar a realidade econômica e os cofres.  



A construção e a desconstrução da imagem de cada candidato cabe ao discernimento de cada eleitor. A continuidade da “ilusão” depende dos marqueteiros e seus truques eleitoreiros. Uma boa propaganda elege até uma pedra. Num país onde remédios e até leite são falsificados, onde produtos não correspondem à lista de seus ingredientes, onde quase tudo é golpe ou serviço em “defaut”, por que não vender a imagem de um candidato que corresponda a essa realidade? Afinal, num país de semianalfabetos, vale sempre o ataque ao inconsciente e os critérios de escolha variam. Ainda em 2018 será eleito o candidato: o de direita; o de esquerda; homem; mulher; bom de rede social; o que “roubou”, mas fez; o que fala firme, alto e seguro;  o bonito e de boa aparência; o de boa situação financeira ( pretensa garantia de que não precisa “roubar”); a religião, o de nome já conhecido; o amigo da família; o que, se presidente, disse que vai asfaltar a rua do bairro; o menos pior do que o outro; o deputado que disse que vai acabar com a violência. Qualquer outro que mostre ser tão fisiológico quanto a maioria? Tudo igual, superficial deixando tudo no estado de “Alea jacta est.” Continuam os temerários pensamentos de :“ vamos lá , para ver como é que fica”, “ depois a gente dá um jeito” etc. 



Seja lá como for, é o que a nossa sociedade produziu em 518 anos que está exposto na gôndola da eleição. Os candidatos estão todos visíveis e expostos. Suas palavras são o que há para se escutar. É tradicional saber que promessas em época de eleição dificilmente são concretizadas e que um mês depois das eleições, o eleitor não se lembra mais em quem votou. Os debates e apresentações isoladas nadam no lago das superficialidades de palavras e frases bem estudadas, conforme a receita dos marqueteiros. Receitas estudadas para Governos e população de cidades onde há furto de cabos de eletricidade do serviço de luz, água e esgoto; depredação de equipamentos públicos e escolas, pichações de locais turísticos, incêndio de ônibus de transporte público, falsificações de alimentos, destruição de telefones públicos etc., indicando um estágio anterior ao da civilização de modo que as eleições dificilmente são entendidas como um valor democrático. Aliás, temos aqui uma “democracia tentada”, uma tentativa imposta para uma população autocrática, intolerante, inflexível, autoritária, conservadora, eis que dirigida pelo ego selvagem que aparece diariamente nas intransigências do relacionamento pessoal em qualquer lugar do país seja na escola, no balcão, no trabalho, no telefone e nos lares da Nação.  Aqui o Próximo é inimigo latente.      



Tudo e todos iguais na realidade prolongada, esfolando a esperança e a fé em mudanças que não acontecerão no Brasil que queremos. Os candidatos pregam o novo, as reformas, a mudança, mas não terão força para mudar nada, a não ser cosméticas reformas no Executivo, eis que os demais poderes permanecem intocados e sendo geridos por antiga e atrasada mentalidade. Ninguém ousa falar em Constituinte. E a reforma do sistema político e do financiamento de campanha? Repensar o sistema todo é urgente. Mas quem poderá fazer isto com a mente desprendida, pensando só na Nação e seu futuro? É de se esperar que não se acumulem tantas consequências ruins antes da atitude de repensar o Governo, suas estruturas e relacionamentos com o setor privado. Isto para evitar um descontrole que leve as periferias a se revoltarem numa baderna caótica de violência fundada em raiva social , sendo desnecessário dizer contra qual parte do rebanho.



E mais, neste momento ninguém é continuação de ninguém, todos são independentes, autônomos, livres de tudo; cada um é o esperado “salvador”. Seus antigos parceiros são colocados de lado e as autoridades para as quais se ajoelhavam eram só imaginação. A mentira e o fascismo escondem a realidade. A esmagadora maioria é farinha do mesmo saco, todos são sócios do mesmo clube, todos têm na mente ideias da mesma natureza e dos mesmos objetivos: ganhar dinheiro, fazer grandes negócios, reeleger-se. E se assim não for, vai ser, pois o eleito terá que cumprir promessas para a coligação e para o partido.  E assim segue a vida em 2018 e seguintes.  90% da energia de qualquer Governo será para proveito próprio do eleito e seu grupo, o restante poderá talvez ser acrescido à evolução lenta e morna da sociedade em bens e estrutura material, mas sem dúvida para sua sanidade.  



Na vã tarefa de mudar, é certo que o Governo não é o único gerador de todas as ideias. Responsável por funções bem claras e previstas em lei, o Governo atua nas funções básicas e com verbas bem controladas, todavia, deixa-se assediar, é cediço a todo tipo de interesse privado porque seus integrantes veem ali uma grande oportunidade de negócio. A iniciativa privada gera e vive de ideais, negócios, empreendimentos e não gosta de concorrência. Encontrando interlocutor oficial, seus bons ou maus projetos só são aceitos e passam a ser objeto de grandes esquemas, se o empresário souber responder às perguntas básicas: “E o que levamos disso?”, “ E o dinheiro para a reeleição?”. Sem uma resposta agradável para todos,o empresário não terá como ver aprovada sua ideia, seu projeto.



Muitas destas perguntas já são feitas bem antes da eleição também. Depois do candidato eleito é só cobrança e realização. A casa é nossa, pensa o corruptor. E há corruptores de sempre, que dominam a geração de “ideais”, fazem candidatos e partidos e mantém-se no Poder. O descumprimento desses compromissos acionará o esquema para destruir o eleito e seu governo. Muitas vezes nem a TV identifica tal processo de imediato. 



Não é de hoje que esta prática une ambos os lados; há a fome junto da vontade de comer. Do lado dos eleitos, as “equipes” próprias, com seus “negócios” já em mente e as fornecidas pelas coligações que estão sedentas pelos negócios a fazer, pois entrarão no Governo sem eleição e terão o passaporte para todas as diversões No Jardim das Delícias e no Jardim dos Prazeres. O candidato eleito com seus assistentes e assessores tem um exército inteiro de pessoas a nomear em todos os escalões do “Poder”. São os chamados” cargos de confiança” que vão fazer o Governo do dia a dia em inúmeros setores numa total invisibilidade. São cargos a serem preenchidos por pessoas de confiança, que só geram desconfiança para a Nação e para o funcionário público de carreira. O custo é enorme, os resultados, os que os jornais nem sempre mostram, pois denúncia só existe se alguém não recebeu a sua parte prometida.   



E colocada em andamento a máquina pública, ninguém pergunta: “De onde vêm estas pessoas, qual sua qualificação, qual seu histórico, qual sua intenção?. O candidato eleito muitas vezes nunca os viu, não sabem quem são e tem que colocá-los em posição importante. Muitos têm, em dia de posse, cerimônias políticas majestosas, cheias de discursos e presenças importantes, que fazem o cidadão da calçada, o eleitor, sentir-se um mero piolho ou pertencente à casta dos intocáveis. Mas com o tempo o suado e humilhado cidadão verá na TV que aquela era só uma das festas entre a turma da futura delação premiada. 



São muitos os cavalos de Tróia que o candidato eleito terá que recepcionar e que invadirão o Governo para fazer os negócios junto aos empresários presentes e futuros, fazendo tremular as portas do Tesouro. Muitos serão os bagrinhos, os inocentes úteis, usados para a operacionalização de esquemas tidos como o “melhor jogo da história”, os almejados “golpes perfeitos”. Não é incomum que logo o bagrinho saia da lama e se transforme em piranha e traíra, endeusado e “empoderado” ao ser valorizado por seus patrões cheios de malas para viagem. Certamente, candidato a entrar para o clube dos que perguntam “Que país é esse?“ou a exclamar:“ É tudo coisa da oposição!”, “ É o imaginário acusatório “, “ Não é dinheiro público”.



O Brasil vem mostrando a cara na Operação Lava Jato, mas ainda não a lavou. Vem mostrando em verdade a qualidade do cérebro de uma cultura daninha.  A cada escândalo e operação contra a corrupção é feita a revelação de como “as coisas“ funcionam. Não é de agora, é prática de décadas e décadas de impunidade e compadrio. O Governo sempre foi uma ação entre amigos. Amigos de todos os Poderes, de todos os lugares e inclusive de falsas oposições. O fato novo é a punibilidade, as sentenças condenatórias de poderosos e as penas efetivamente executadas.  Mas nem se ouse pensar que a engenharia de corrupção e lavagem é made in Brazil; retirando-se evidentemente a parte de criatividade nacional, ela é de origem internacional do mesmo modo que a corrupção, ressalvados o exagero, a ganância e a intensidade que no Brasil foi revelada, é praticada e refinada no mundo onde houver Governo. Sistemas sofisticados que devem ter recebido muita engenharia de advogados, contadores, administradores, internautas, doleiros e bancários etc. reunidos em hotéis de grande luxo e viagens inesquecíveis.



Novamente as esperanças e a fé são que algo em 2019 mude. Que algo novo inspire os governantes e empresários. Senão tudo será igual e com dois ou três meses de Governo, o candidato eleito já terá perdido o controle sobre os nomeados, que correm na raia miúda, fazendo “negócios” para si e seus partidos, mas tudo em nome do candidato eleito. A autoridade eleita passa ao papel de inocente útil, usado pelas malhas de poder subalternos, todos assegurados pelas ameaças de não votar a favor dos projetos do Governo. Já é conhecida a qualidade e a tralha humana que envolve as campanhas. Arrisca-se a dizer que o candidato eleito é o menos culpado, pois na maioria do tempo está na mão de terceiros que o controlam e dirigem.



O problema não é a existência de coligações em si, enquanto elas atendem, dentro de um conceito democrático, a intenção de evitar a concentração de Poder, a autocracia e uma ditadura branca, mas o que com elas se faz no Brasil, a qualidade do que os coligados desejam, o que fazem e as pessoas que indicam bem como a cultura de pedidos de recompensas no cenário de preenchimento de cargos como troca de apoio a projetos.



Na prática, aproveitando-se do gigantismo estatal, as coligações governam em paralelo, fazendo seus “negócios”, usando o nome dos eleitos e usando o propósito de reunir recursos para a reeleição, sem a qual as firmas privadas sabem que os contratos estarão ameaçados pela concorrência. É esse modo de governar, advogando administrativamente interesses privados e tirando a devida comissão pecuniária que deve ser exterminado. É o jeito tradicional que foi sendo construído ao longo dos séculos para ser o centro da política e sua doença principal.  Nesse contexto, não há cultura de debate e discussão, mas imposição. Como ser democrático, se há uma missão a ser cumprida para satisfazer compromissos “políticos”?  



E então, é através de certos candidatos que ficam abertas as portas para a volta de certos grupos que derrotados nas eleições ou que delas nem participaram, adentram o Governo pelas portas dos fundos, para fornecer mão de obra para o preenchimento dos cargos onde o “negócio“ é bom. Principalmente nas bordas do Jardim das Delícias onde ficam os Jardins dos Prazeres. Assim, há muito mais a temer do que o grupo do Vice, que só recentemente chamou a atenção e pouco foi analisado.  



Se o eleito é obrigado a atender às bases de apoio, deve preencher os cargos com a tralha social que existe; velhas raposas, bandidos do passado, voltam ao Governo, tudo à revelia do eleitor, até que a Polícia Federal e o Ministério Público atuem. Mas no momento da eleição raramente os candidatos adiantam quem será o “cara” do planejamento, das finanças, da administração, da segurança, da saúde, da educação. Jamais. Não sabem ainda, pois depende das coligações. A surpresa fica para depois, quando o eleitorado já estiver dormindo novamente. Sono de dois ou quatro anos, enquanto no Jardim das Delícias tudo vai se multiplicando e reproduzindo no bolso dos eleitos e de sua trupe que enchem as burras, triplicando o patrimônio pessoal.  O Sésamo da política enche-se de riquezas e o povo dorme acuado na miséria de seus lares ou na rua.   



É o “oba–oba” da euforia das eleições. Depois é depois. É como tudo no país da Educação estropiada, dos alimentos de quinta qualidade, na saúde comprometedora, da segurança inexistente. O depois a Deus pertence. Por enquanto ele fica de costas, olhando o mar de janeiro, não notando nem o que ocorre de degradação a seus pés.   

          

“ Perguntaram um dia a Álvaro Moreyra se ele gostava de burros.

Ele respondeu: dos substantivos, sim. Dos adjetivos, não”

Pois é aos burros adjetivos do Brasil que envio o meu apelo. Para que mudem de trote enquanto é tempo. “  ( Janeiro de 1963. David Nasser.).



Com o agravamento da crise em 2019 e prolongamento para 2020, muito mais pode se perder e até mesmo anular boas intenções do Governo originalmente eleito e suas boas obras, as quais serão menosprezadas em meio à realidade adversa. Mais uma vez a gestão será afogada no dia a dia de crises políticas e pouco tempo sobrará para cumprir os preceitos constitucionais de preservar a dignidade humana numa sociedade livre, justa e solidária, erradicando a pobreza, a marginalização e reduzindo as desigualdades sociais e regionais e promovendo o bem estar de todos. Verifique-se que em 2019, a União continuará a receber a média de 3 bilhões de reais de tributos em cada dia dos 365 dias. Do total só sobrarão 30 bilhões para investir, o que representa 10 dias da receita. Como fazer mudanças, como sobreviver?  E mais, há um déficit de 139 bilhões, portanto, 46 dias de tributos fora do calendário anual. A solução seria fácil, Odorico Paraguassu, certamente, em seus lampejos de sapiência brejeira, acrescentaria 46 dias ao calendário anual e tudo ficaria resolvido. Não seria fantástico?  E o mundo teria uma nova era, a do Calendário Odoriciano. 



Necessário alertar que o nivelamento por baixo nunca foi progresso e nunca preservou a ordem, embora esteja crescendo no imaginário popular. Promessas populistas nesta hora satisfazem o eleitor incauto e são um perigo para a democracia. Em um país de tanta miséria resultante da descura e da negligência material e intelectual, alguns continuam achando por bem criar seus reinos egoicos de ganância e megalomania; imperdoável descuido de fazer um castelo de areia à beira do oceano. Mas na época das eleições são do povo, andam por onde o povo anda, prometem o que o povo quer, dizem o que o povo quer. Depois vão promove o que o povo não quer. 



Irresponsável, inconsequente, temerária e eivada de burrice será a atitude dos eleitos, se garantirem a continuação do modo de jogo político que vem condenando o país a dias de previsível baderna e descrédito generalizados.  Se não houver mudança radical, todavia, por consenso de que não é possível mais manter tal jeito de pensar e administrar, certamente a Educação continuará a ser menosprezada e as consequências serão determinantes em todos os setores. Sem Educação de qualidade, tudo estará comprometido.



Aliás, a falta de Educação de qualidade, que ajude cada estudante a se abrir para o conhecimento universal em toda sua pluralidade é hoje o maior inimigo da sociedade, dos jovens de hoje, e, portanto, do futuro. Roupas de moda, celulares, sonhos mirabolantes que lhes são incutidos, habilidades completas para dominar o celular, destreza nas redes sociais e informática, “selfies e memes” de vaidade e egocentrismo etc. vestem os jovens de hoje quase como uniforme; mas o preparo para pensar e para trabalhar? Parece que tudo é mesmo uma grande enganação, uma distração consumista fatal. E assim é que aqui “2+2=6” e os “mano tão no barato, meu!”



Nestas linhas de tanta platitude, pelo menos fica registrada a motivação para um voto, o de repúdio, de pena, de indignação, talvez inútil para mudanças, como os demais milhões de votos.



   

Odilon Reinhardt . 3.9.2018.



    






































sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Vamos lá , aberta a caça ao pote sagrado no Jardim das delícias, mas...







                                        Vamos lá, aberta a caça ao pote sagrado no Jardim das Delícias , mas...  









E no silêncio dos dias do povo, muitos partidos fazem suas reuniões para escolherem os mesmos de sempre, os que irão ser expostos para a escolha pela população, a qual, em mais um ímpeto inconsciente, pensará estar votando e alçando ao Poder, seus salvadores, seus “Robin Hoods”, com espadas de renovação e flechas de justiça e mudança. “Pari passu”, setores da vida econômica ficam de olho nos escolhidos, para ali depositarem seus dinheiros, visando a defesa de seus múltiplos e variados interesses de momento. Afinal, trata-se de representação popular.

Mas num ano tão importante como o de 2018, com eleições majoritárias, que assumem o papel de possibilidade de porta de saída para a crise gerada por anos de fantasioso e inconsistente crescimento econômico, o que se avizinha é a eleição de figuras conhecidas e ainda pior, todos imbuídos da mesma mentalidade perniciosa : “agora eu e meu grupo de empresas irão se fazer”, “agora irei me perpetuar e colocar os meus no Poder”, “ agora os negócios irão bem e a favor “ etc. etc., mas certamente nada de “ eu farei minha Pátria melhor “.

É o que a evolução do modo de fazer política e negócios neste canto do mundo produziu até o momento. Nada de diferente e inédito, só o que a própria vida brasileira produziu. E a imprensa, canal especial de publicidade e de entrada diária franqueada na casa de cada cidadão, espera com olhos ávidos quem vai montar ou desmontar. No passado elegeu a trupe que quase tornou o Brasil, um lugar escuro do “bas-fond” no Terceiro Mundo, mas também soube se redimir ao reportar e escancarar todos os eventos pecaminosos de grupos políticos que assaltaram a Pátria. Seja lá como for, com altos e baixos, sem imprensa livre não saberíamos de nada que ocorre no Governo, não teríamos como responder à pergunta “Que país é este?” nem contestar a frase de que “tudo não passa de uma imaginário popular”.

No entanto o momento que se formou é sempre amenizado pela clássica e cultuada esperança e fé em renovações e mudanças, base da mente do povo crédulo, sem o que o país mergulharia em algo pior. Todavia,  é esperança mesclada com certo ar de desconfiança, já que nenhum dos falhos modelos de desenvolvimento, tentados nas últimas décadas, era de fundo honesto e dirigido à estabilidade e progresso, pelo que o crescimento e geração de empregos fantasiosos era disfarçada estratégia para negócios bilionários que só aproveitariam a poucos.

Não há, portanto, clima para se acreditar em salvador algum que trará modelos puros e patriotas, de interesse para o futuro do país. Não. Haverá sim, ao contrário,  continuidade de modelos simplistas e de impacto na mídia, os modelos de faz de conta; persistirá a vida de ajeitamentos politiqueiros, a vida de negociatas de oportunidades e conveniência pessoal, deixando o país à mercê de “negócios”, mas de grande interesse econômico, promovidos por cegos interessados, que não observam o país indo aos poucos para o brejo. São pessoas e grupos de umbigo maior que o Brasil, que pouco se importam com o geral, sabendo que o interesse é encher as burras, suficiente para o sustento em terras estrangeiras, quando todas as pontas da mortalha se encontrarem, empacotando a estropiada mão de obra com sua vida de consumidora, sustentáculo do Governo com a palavra mágica: receita tributária.

A continuar a mentalidade atual, muitos dos candidatos vão se preocupar em prometer corte de despesas, diminuição da máquina do Executivo, e medidas para estraçalhar ainda mais o funcionário público de carreira ao passo que continuarão a privilegiar os milhares de cargos em comissão, preenchidos livremente por protegidos políticos, carregadores de caixa nas campanhas, todos indicados por seus aliados da base.  A gestão continuará mambembe, cara, ineficaz, ineficiente. Cada candidato fará o máximo para iludir o eleitor com promessas populistas e simplórias, muitas delas cheirando ao caudilhismo. Eleito, terá como prioridade a reeleição e seu financiamento. A preocupação será dar cargo aos seus carregadores de caixa. Via de regra, o eleito é acompanhado por uma tralha de apoiadores, os quais formam uma quadrilha de “negócios”. Quem são, de onde vem? Qual sua qualificação? Entram para a “ vida pública” pela porta dos fundos e ocupam espaço e tem passaporte para o “abuso do poder” e o franco exercício de suas segundas intenções. Não é incomum que montem esquemas próprios à revelia do candidato, pois é comum que pessoas se aproveitem e usem o nome da autoridade para em seu nome fazer “negócios”. Muitas vezes os chamados bagrinhos aprontam mesmo e o peixe grande é que vai responder por tudo.  

E mais uma vez, valerá o candidato que falar mais agressivamente, mostrando pulso forte, aparentando ser o honesto, o sério e indignado como se isto não fosse um já desgastado jargão, um clichê desde os momentos mais autoritários da Humanidade. Todavia, a realidade de nossos 96% de semianalfabetos comprará estas mensagens totalmente, porque se encaixam perfeitamente no seu grau de autoritarismo, intolerância, prepotência, típico do egoísmo do fisiológico e grosseiro conservadorismo das massas. Mais uma vez não haverá debate de ideais e projetos, só a superfície de questões mais populares.     

Nenhum candidato fará discurso referindo-se a “ Industriais do Brasil.....” ou “ Trabalhadores do Brasil.....”, mas , sim, “ Eu vou...”, Eu farei....” , deixando por mais uma vez promessas no ar e soltas em seu plano de Governo, incompleto, superficial e seguramente e apartado de qualquer coisa factível. Não pode ser diferente , pois não conhece a fundo as realidades do Governo, pois a transparência é um grande problema. Poucos dizem de suas ideias e projetos por causa desse desconhecimento. Na prática, se o candidato for eleito fará mudanças cosméticas, portanto, mais uma vez, a gestão será capenga e ilusória. Seja lá quem for, seja lá quantos forem, ninguém mexerá no Executivo, com medo de greves, da resistência e do desgaste político; não mexerá  como Legislativo, com medo de perder apoio e tampouco mexerá no Judiciário, com medo mórbido de ser punido. Apresentar-se prometendo falácias populistas é fácil. Uma vez no Poder o que vale é o jogo intrincado do Poder, dos três Poderes e dos poder dos setores organizados.  

Nada será feito porque quase ninguém neste país tem hoje a crença de que poderá dar de si e deixar de lado algum privilégio ou interesse pessoal  em prol da Pátria, face o clima de desconfiança quanto aos “projetos” dos eleitos, que hoje são políticos que fazem a vida política e que são os mesmos das últimas décadas, espaço de tempo em que o Brasil perdeu o imã do progresso sustentável e honesto.

Quer por razões políticas, quer por razões constitucionais, quer por falta de visão, quer por falta de adesão por parte dos defensores de interesses particulares, as medidas serão pequenas e serão tomadas para dar satisfação ao desejo popular, mas logo tudo voltará ao normal e a gestão será novamente engolida por problemas do dia a dia, de modo que o programa partidário de reformas, se existente, será deixado de lado, dando espaço para a administração por crise.

Certamente, pouco lugar haverá para fazer reformas profundas na gestão da coisa pública com a finalidade de acabar com realidades como a de termos um Estado que até hoje tem sido um provedor, empregador, centralizador, dominador, operador, financiador, corruptor, construtor e empreendedor etc., em detrimento da iniciativa privada. Com tantas atividades, o Estado permanece imperial, o centro de tudo; gasta grande parte do dia com ajeitamentos e menospreza sua figura de regulador, fiscalizador, legislador e provedor de Justiça; querendo fazer e ser tudo, falha em quase tudo, pois é caro, burocrático, amarrado e não deixa a iniciativa privada fluir; quer gerar empregos, mas faz de tudo para atrapalhar e dificultar a gestão privada; em muitos casos gosta de criar dificuldades para vender facilidades. Perde-se na fiscalização.

Em 518 anos de gestão pública, o elefante foi ficando mais caro e guloso; seu dono não se adaptou às realidades do caixa, cultua a mentalidade burocrática, com restos do nababesco em seus altos escalões, onde há sinecuras, mamatas típicas de pessoas que se tomam por “nobres”, os escolhidos financiados pelo povo. Tomam o Tesouro como uma galinha dos ovos de ouro e de vida eterna em folgado espaço de marajás. 

Como fazer mudanças sem ferir a estrutura dos negócios e interesses do “establisment”?  Quem teria a força autêntica e descompromissada de pensar na Pátria, na Nação e seu futuro? Quem teria força para propor e implantar um “New Deal”? Uma pessoa de tal calibre parece não se achar facilmente em 2018. De certo modo, não se pensa em um Roosevelt ou um Vargas, bastaria que houvesse um  entendimento partidário para um pacto nacional e o presidente eleito fosse um mero gestor do momento, para talvez uma revisão constitucional ou mostrar pelo menos patriotismo sincero e honesto.  Mas com este clima político que foi formado e com o Estado sendo um Sésamo para qualquer Ali Babá, fica cada vez mais difícil um entendimento patriótico e o surgimento de uma pessoa de união nacional para liderar o processo de repensar o país.  

Repensar o país, mas quem e como? Quem deixaria seus mesquinhos interesses locais para uma reforma geral nesse clima de defesa de umbigos e interesses escusos? Talvez seja até um equivoco pensar que será possível montar uma reforma geral e que possa dar início de solução para as grandes questões nacionais de uma só vez.  Talvez seja o Brasil um trem fumegante que vai se modernizando aos poucos  sem precisar parar, a não ser de tempos em tempos, em estações aleatórias onde algo o faz ser acrescido de novos vagões. Uma evolução cara e que desperdiça energia enquanto a diferença em relação a trens de terras estrangeiras aumenta a cada dia. Somos facilmente sufocados por consequências de causas negligenciadas. Qualquer novo Governo, passada a euforia da posse, afoga-se em questões pendentes, consequências da realidade e dedica-se a soluções corriqueiras abandonando suas ideias de renovação. Tantos são os interesses privados de tantos setores, que a vida nacional aparenta-se a uma colcha de retalhos perambulando nas costas de um mendigo na avenida do Tempo. 

Apesar de tal reforma, com altos e baixos, implicar democracia brasileira forjada com autoritarismo, traições e mentiras, o fato é que de 4 em 4 anos a máquina pública é entregue a grupos cujo “projeto de governo” é perfunctoriamente conhecido, cujos ministros e assessores são desconhecidos e muitas vezes visivelmente desqualificados, enquanto portadores de missões exclusivamente predatórias para o interesse público. Para os novos ocupantes, o Governo é um excelente balcão de negócios e só. São os “brasileiros espertos”, mas cegos quanto ao impacto de seus atos para o país. Um trem que está em risco na sua viagem futura e que cada vez mais chega em cada estação com menos produtos para vender e menos pessoas capacitadas.

E quanto às questões fundamentais, quem está falando em Educação, ciência , pesquisa? É! Mais uma vez a descura já está anunciada. E sem Educação de qualidade, todas as estruturas do país, públicas e privadas, não têm condição de ter boa qualidade e resultados aceitáveis. É a mão de obra capenga que promove a produção defeituosa e a comercialização sem ética e moral. A falta de Educação de qualidade já há muito tempo apresenta reflexo negativo em todos os setores da vida nacional. Ética, moral e amor ao Próximo ficam em terceiro plano no tal “capitalismo selvagem”, tocado à base de golpes e safadezas pessoais e institucionais.

Sem produção de qualidade, sem ter o que vender para o exterior, sem recursos no caixa, o qual é corroído por gastos com pessoal, corrupção, desperdício e problemas de falta de distribuição honesta de verbas, o Governo eleito em 2018 terá a missão de transformar a depressão em medidas concretas de progresso. Mas sem entendimento nacional, o Governo já desde o início poderá viver o clima de fim de festa, da terra devastada, mas sempre com o ar do “malandro agulha”, o refinado falido, que vive na euforia ilusória. Não é de se descartar que o FMI já deve estar por aí.

Certamente toda a verdade sobre a economia será evidenciada já no início de 2019.O resultado do desentendimento nacional será novamente posto na mesa e no bolso dos brasileiros e a Pátria poderá mais uma vez ser conduzida ao curral das nações arrebanhadas, onde curtirá a síndrome dos anos de cão vira lata. A quem aproveita tudo isto?

Tanta luta entre direita e esquerda e tudo que vemos no horizonte é um pálido futuro mergulhado em procrastinações, enquanto a violência, bruta e cada vez mais inédita, mina o tecido social; a direita, desejando mais produção e infraestrutura com menos impostos, mas cega quanto à esbugalhada mão de obra; a esquerda sonhando e pretendendo vender sonhos de seu defasado socialismo, num país sem caixa; um prometendo que se deve fazer o bolo para depois reparti-lo; o outro querendo comer o bolo antes da hora. De direita e esquerda, não fomos a lugar algum, só demos tímidos passos para  frente, como esforço para sair da estagnação.

Que “startup” gigantesca poderia aceitar o desafio de solucionar tal Nação?

Enfim, 2018, o ano estranho em que perdemos a chance de mudar, enquanto algumas hordas dos mesmos planejam suas estratégias para atrair eleitores e ganhar a permissão para adentrar os limites dos cofres dos Estados e União. Eleitos ou não, o  que encontrarão em 2019?



      

Odilon Reinhardt. 3/8/2018.



    

         



terça-feira, 3 de julho de 2018

Mais uma vez, o nada de novo.





                                               
                                       
                                           Mais uma vez, o nada de novo.  

                                           

 3.7.2018.
Com o foco na bola, grande porcentagem da mídia, ocupa-se com o rendimento do pão e do circo e deixa o país viver um pouco sem a agitação televisiva, que cultiva e turbina a ansiedade do dia a dia.  Há uma pausa e a população parece poder respirar sem as diárias e intensas chuveradas de negativismo coletivo. As notícias espalha-brasa ou espanta-gato cessam por alguns dias e há uma aparente calma na intenção de incluir o país inteiro em realidades mais atrozes nos grandes centros. Pode-se pensar assim em condições normais. Mas agora pensar assim seria uma “capitis de minutio” de qualquer cidadão pensante. A realidade produz notícias ruins a toda hora, impossível escondê-las.

Esvaziada a bola, encerrado o circo, volta-se ao pleno cotidiano televisivo de agitação da audiência, restando opção de desligar a TV ou não. Na verdade a realidade foi substituída, desfocada, mas nada cessou. O tempo é só um, o dinheiro é que determina a prioridade e intensidade das notícias. Tais fatos já não se repetem em 2018, pois a bola não conseguiu o efeito de abstração. O noticiário continuou dividindo o lance com a bola, mostrando os dias recheados de corrupção, violência, ações do crime organizado, operações do tráfico, deficiências na infraestrutura e serviços públicos etc. O efeito pão e circo parece não ter mais o efeito de anestesiar a Pátria.

A realidade em que estamos, com TV ou sem ela, continua a produzir consequências.  As questões estruturais que foram negligenciadas durante décadas pressionam a Nação e cutucam a realidade. Tomar conta de tais questões é agora demorado, mormente quando não há dinheiro. A maior questão estrutural, coluna vertebral do futuro é a Educação. Qual a estratégia de nossa educação formal? No ano das eleições algum candidato apresenta um plano de reformulação do sistema educacional? Tudo leva a pensar que o programa de governo de cada candidato é ele mesmo. O programa é a estratégia para ganhar as eleições. Depois é que verá o que fazer, de acordo com a vontade e mando de seus financiadores.  

Pressionado pelos vários setores da sociedade, o Governo tem que resolver problemas acumulados e urgentes no saneamento, na mobilidade, no meio ambiente, na economia etc. e a Educação vai ficando de lado, sendo esquecida, pois, como imaterial produz efeitos no indivíduo e é facilmente reduzida a problema individual e jamais coletivo. 

E assim , o  “ Leviatã” criado está nos engolindo lentamente. É o “ Gargantua e Pantacruel” que vão devorar a vida aqui. O sinal vermelho está acesso há pelo menos duas décadas. Não é brincadeira. Os jovens estão desqualificados para o mercado de trabalho mais avançado. As providências estão sendo exigidas, mas como tomá-las? Há tempo? Pouco para semear e colher a médio prazo. Muito para semear agora e colher em décadas. Que partido político se interessa por isso?

Estamos doentes, atropelados pelo que não foi feito, investido e criado. Agora a falta da colheita está fazendo realidade cruel e a população vive na exigência, quer o que não foi plantado. Os defeitos materiais são fruto da questão imaterial, a Educação.

Por falta de educação formal, por falta de qualificação apropriada ao mundo atual mais avançado, podemos estar perdendo a sintonia, ficando defasados em mão de obra especializada e principalmente em mentes pensantes para ciência e tecnologia. Podemos estar sendo condenados mesmo a ficar como fazenda do mundo e a população obrigada a trabalhos manuais e braçais.  Os jovens talvez tenham que ir se habituando como horizonte mais curto, pouco dinheiro e um bom lugar para cortar frango e entregar pizza.

A miséria do país é tanta que nem os europeus vindos depois de 1870 conseguiram sair da vida sofrida do campo, são vítimas da falta de escolas e infraestrutura, mal sabem falar o Português, tendo preservado dialetos da língua que nem mais existem no país de origem. São os capiaus, os colonos  do século 21, cultuando uma Itália, uma Alemanha, Polônia etc. que não existe mais. O movimento MST é formado por quem?

Na mistura étnica e cultural com a qual vamos formamos essa idiossincrasia nacional, somos o Brasil como ele é hoje, resultante de políticas públicas desde 1500. Sem educação pública, deu no que deu, um arremedo de “Frankstein” do mundo moderno em termos de desenvolvimento humano e material. Somos feitos de retalhos, ora de fazenda de grande valor, ora de tecido de baixa qualidade.

Por belas e novas avenidas continuam passando a miséria e o sucesso, o desprovido de letras, o vazio de tudo, a mediocridade e os arautos do progresso material mascarados de excelência e autoridade. O celular está na mão de qualquer um na feira experimental de eletrônicos que virou o país. Os bens materiais estão acessíveis a qualquer um que tenha crédito. Mas a cabeça, como está a cabeça? O que ali passa? O que carregam os cidadãos de todos os naipes? Como escrevem, o que podem entender?

A insegurança de futuro, o horizonte distante e miúdo, a preocupação com o umbigo, a desesperança quanto ao progresso bem sedimentado, a visão miúda do aqui-agora fazendo o dia, a perda da noção do certo e errado, o descrédito quanto ao porvir. Tudo tem um vir de indagação, de dúvida e deixa o cidadão carregando sua cabeça pesada, atormentada, pronta para explodir tal é insegurança quanto a realização dos planos, desejos e projetos pessoais, todos condicionados e formatados pelos sonhos ali enfiados pelos estímulos de modelos de nível econômico, tendente a propiciar e satisfazer a vaidade , a aceitação  no social, o orgulho etc. O único ponto de segurança é que a pessoa continuará a ser contrariada; viverá neste tom e deve estar pronta para se defender a qualquer momento, pois aqui o Próximo virou rival e inimigo e competidor e ladrão e assassino. 

É o Brasil feito do fisiológico, cada vez mais pele, emocional, carne. A falta de Educação nega o desenvolvimento do intelecto, o esclarecimento e o progresso mental. Sem Educação, a realidade é feita do bruto, do básico, do grotesco e os relacionamentos são feitos do tosco encontro entre mundos selvagens.

A mão de obra vem carimbada com este estigma. É sem qualidade, sem adereços mentais. Em qualquer ramo do mercado, há desqualificação. Basta um aquecimento de algum setor e já se observa a falta de mão de obra. Os reflexos econômicos são funestos e limitadores. O país habituou-se a investir pouco, plantar pouco e quando precisa, colhe o que plantou na safra da Educação.

Habituou-se a ser pequeno, um país para poucos, de chances para poucos. Continuou a cultuar o “karma” de cão vira-lata, a copiar moda e modelo do negativismo e seguir ideais piores dos mundos do primeiro escalão. Se formos ficar neste padrão, teremos que nos habituar a ele, aceitar seus limites e não se arvorar em querer alcançar padrões de primeiro ou segundo mundo. É uma questão de viver a realidade, assumir-se: o pobre convicto e feliz; o bom-selvagem. A estrutura de poder que criou para o povo crenças dessa natureza deve estar feliz e sentindo-se realizado em sua missão; conseguiu embotar um continente inteiro. Prevalece o nivelamento por baixo, com máscara de humildade.

Passada a época da vida de euforia e falsa luminosidade, como reagirão os jovens atuais e os das gerações próximas quando descobrirem que muito do “ prometido pelo mercado” não lhes será inacessível? Que pressão, tal lapso de consciência poderá exercer, para quem desejar cumprir seus sonhos de consumo e constatar que não poderá fazer nada? Hoje planta-se no sentido de “prometer “ padrões e modelos de aquisição de bens que possam corresponder a um grau de “ felicidade” e inclusão ou ascensão social sem garantir os meios. Como será a colheita? Como estarão os índices de furtos e roubos? Que força terão as milícias e esquadrões do crime organizado?  É o culto do material como expressão da aparência e de um sucesso sem mérito algum.

Sem estudo, sem Educação de qualidade, tudo será mais difícil, mais inacessível e o ego estará sempre sendo contrariado, oferecendo a ira social, a raiva do não ter, do não saber, o ciúme e a inveja do não poder. O medíocre estará raivoso e revoltado, querendo vingança pelo estado em que ficou. A revolta terá como origem a situação pessoal, mas ficará mascarada na multidão e esta terá alguma bandeira descorada de alguma revolução fantasiosa.   

Certamente a incompreensão e o inconformismo serão fortes nas exigências sociais. Ninguém desejará saber das causas, mas exigirá remédios para as  consequências e governos da época estarão em situação difícil na busca de contentamento da população. Como terá evoluído nosso autoritarismo, intolerância, inflexibilidade quanto às diferenças de opinião, corrupção, prepotência, violência física e mental? Como será a evolução de nosso modo desonesto, brejeiro, corrupto de fazer negócios? 

As consequências de uma população, sem educação de qualidade, serão fatais para os negócios, os empreendimentos, para as políticas públicas, serviço público e privado, pois a base para a qualificação e progresso social não é feita de uma semana para outra, mas pelo menos em duas décadas. Nem tudo no futuro será cortar frango e cuidar do gado. Será cada vez mais exigido esclarecimento, discernimento, capacidade de entendimento e diálogo, bom senso, vontade de crescer.

Nossos avanços materiais esquecem o ser humano. Está visível que a quaisquer quilômetros da rua principal das grandes cidades encontramos realidades do Brasil de 1920 a 1950. A infraestrutura vai se esvaindo no distanciamento das cidades, mas mesmo assim é melhor do que nas décadas mencionadas, todavia o que chama a atenção é a condição humana, o pensamento, o grau de esclarecimento e qualificação da mão de obra. A Educação foi esquecida, abandonada. Máquinas mais refinadas poderão ficar paradas por falta de operadores ou técnicos de manutenção com maior frequência. Uma realidade a ser amplificada, pois hoje já há máquinas que ficam paradas esperando o técnico de manutenção que vem da Europa ou outro país. Há máquinas sofisticadas, doadas ou adquiridas, que nem chegam a sair da caixa por falta de mão de obra.   

Em 2018, há uma esperada eleição que seria esquina do tempo, mas nada. Os políticos não esboçam nenhum sinal de mudança; estão acomodados, jogando o mesmo jogo, as mesmas regras, o mesmo baralho velho e marcado. Não há planos novos que possam ser tomados com atenção; só palavras de faz de conta. A nossa evolução como sociedade tem sua manha, seu jeito. Estamos atrasados por que ficamos atrasados e é este o nosso passo, é esta nossa picada ainda para sair do mato da nossa cultura, sovada e assada desde 1500. O nosso aprendizado coletivo segue lento, com anos de avanço e anos de reprovação e assim prosseguimos em nossa História. Nosso subdesenvolvimento tem raízes coloniais e estigmas do rural e do selvagem e levará décadas e décadas para chegar à civilização plena. 

Mudanças de gestão poderão ocorrer, mas não de atitudes e de pensamento. Ainda levará décadas até a colheita, se hoje pudermos plantar algo de bom. E plantar é só na Educação. Poderemos continuar com obras para fazer propina, talvez agora com maior sofisticação em seu pagamento, mas elas só serão o material e nunca o espiritual para a mudança. A carroça de legumes que passa pela picada até a cidade pode passar por uma bela avenida, mas continuará uma carroça, um veículo de passeio ou será um caminhão de legumes, mas seu motorista continuará a ser o mesmo, com o mesmo comportamento tosco, autoritário, intolerante, inflexível, egoístico, violento, pronto para qualquer devaneio.

A vida continuará a produzir seres moralmente desqualificados para os setores da vida produtiva; a produzir cidadãos grotescos na aparência e no comportamento; a propiciar os negócios feitos com corrupção, desonestidade, eivados de má–fé, antiéticos, irresponsáveis e descomprometidos com o país, mas perfeitamente adequados ao umbigo de cada um.

E tal cenário social, certamente viverá momentos ainda mais intensos de contrariedade, violência, ações e reações egoísticas, fazendo com que o relacionamento pessoal seja mais violento e animalesco. E o rebanho está ficando velho, calejado, sem esperanças e sem nada para perder. Pessoas para as quais a verdade já silenciou na boca por falta de palavras, mas que pode embalar a mão de seus descendentes, já espoletas de revolta.  Cresce o desrespeito aos padrões de vida digna e inteligente. Aumenta o desrespeito às instituições e autoridades, aumenta a atuação dos meios de polícia. Há sinal pior de semente de má qualidade?  Uma sociedade onde a educação não é a prioridade para todos é regida pelo fisiológico, pela emoção, pela carne e isto não é um modo de vida de bons resultados. A estratégia melhor seria priorizar a educação como meio justo de “subir na vida”. Na falta ou negligência quanto a dar estímulos para que os jovens decidam adotar os estudos como meio de progresso pessoal, o que se pode esperar é descaso, depois revolta.

Hoje já se pode ver que qualquer um, a qualquer tempo e por qualquer razão, não descartado o devaneio, a loucura pessoal, pode pelo celular arregimentar seguidores para iniciar um ataque ao Próximo ou a uma instituição. Basta que o convite encontre respaldo na ira popular, estocada em razão de inúmeros problemas pessoais e coletivos e inicia-se uma crise sem precedentes. Com a  ansiedade provocada pela época atual, todos querem resultados rápidos, o que é impossível em muitos casos, principalmente na Educação.

Basta um “hoje tem quebra-quebra na rua tal...” e lá vai cada um fazer a multidão explodir, procurando mudar algo, por meios que não incluem a possibilidade de diálogo, mas, sim, vontade de desabafar sem nada resolver. 

Só a Educação de qualidade, com objetivos de formar seres livres e conhecedores da universalidade de conhecimentos, pode ajudar cada pessoa a pensar melhor, a ter metas superiores de vida, a desejar alcançar inteligência que possa ajudar a melhorar a vida e a convivência.  Sem Educação, só se conhece a mediocridade da manada e seus condicionamentos baixos e fisiológicos do animal, querendo sobreviver e entregando-se à manipulação, à falsa condução. Sem Educação não há valorização de ideais inteligentes nem de valores da Nação.

Na última ocasião de demonstração de descompromisso com a democracia e seus meios de debate, a desobediência civil, o desrespeito ao cidadão e sua família, vimos os sinais perigosos da mentalidade incendiária; cada um se sentiu mais perto do que deve ser países onde a gestão do Governo com erros estratégicos que levam ao desabastecimento, pobreza, agravamento de tudo. A má gestão da coisa pública pode, sim, levar ao caos, invasões, saques, crimes etc. E mais, levar o cidadão a ver no Próximo um rival e um competidor. É imperdoável a negligência, pois o tempo cobrará em vidas e no material o descaso com a Educação. Nenhum país consegue sobreviver dignamente sem ela. No mundo atual, um país pode aguentar por algumas décadas , mas logo ficará clara sua posição escravizada.

Difícil não recorrer a David Nasser que em 1963 escreveu, incrível “a indiferença do brasileiro do centro, do brasileiro acomodado, contemplativo, preso a um Brasil brasileiro, que não mais existe, certo de que Deus ainda é brasileiro, convencido de quem sempre haverá um jeitinho...”.

2018, ano de eleições, em que se esperava, depois de tantas revelações sobre a verdade de nossas empresas públicas, políticos, corrupção etc., alguma mudança substancial, dá sinais de que pouco mudará e que continuaremos sem plantar corretamente. Ainda não há união para repensar o Brasil, só umbigos a preservar. Enquanto nosso processo de evolução vai prosseguindo com graves sinais de agravamento da questão humana com reflexos diretos na produção.  Em alguma geração para frente, algo pior acontecerá. Até lá iremos vivendo neste empurra-empurra para a gestão seguinte, a qual, cada vez mais, estará atolada com seu funcionalismo arcaico de mentalidade sofrível e com seus nababos e marajás do médio e alto escalão dos Poderes, querendo mais e mais benefícios, numa espoliação irresponsável e inconsequente do erário sustentado pelo povo e empresas privadas. 

Odilon Reinhardt.  3.7.2018.