terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Rio e o Riacho de cada vila.



                                       O Rio e o Riacho de cada vila.







Entre tantas vilas no país, havia uma quase ao pé da Serra, por onde passavam vários rios, sendo que de tempos em tempos, a população deveria escolher o rio predileto, a ser homenageado numa festa democrática.
Entre os rios do local, podia haver um, o de águas mais experientes, caudalosas, que depois de passar pela vila poderia alimentar o turismo de outras regiões. O rio passava por pinheirais sempre num clima tradicional, inspirador de músicas, folclore e muitas ideias para a vila provinciana na essência.
Outro rio, embora não tão majestoso, era preparado, sério, seguia  com seriedade e humildade, mas enfrentava uma seca, mal podendo alimentar e manter os parques da vila, eis que havia se misturado com águas vermelhas que se revelaram bem  pouco recomendáveis.
Outros rios também possuíam seus valores e histórico na vila, de modo que cabia aos cidadãos avaliar cada um. Como sempre eram os rios os que chamavam a atenção na propaganda e deveriam ser olhados e avaliados para a escolha final. Todavia, o costume da população de não analisar muito bem o rio, desta vez, levantava preocupação mais séria entre alguns poucos cidadãos da vila.  Na verdade, a visão de uma minoria, ainda pensante, estava voltada para o riacho que acompanhava cada rio. 
Cada rio tinha, sim, um riacho que o alimentava a partir de certo trecho. A vila prosseguia sua vida rotineira enquanto cada rio  enfeitava-se para melhor parecer grande e apto aos olhos da população.
A época, todavia, não era de grande ânimo e encantamento, pois os cidadãos da vila, aos moldes de todas as vilas do país, tinham  sofrido um grande baque ao saber de coisas horrendas que haviam acontecido devido a canoas de piratas. Gente dessas canoas havia descido pelos rios então eleitos e penetrado em todas as vilas para negociar, roubar e saquear o que fosse público.  Assim, a vila, com mente provinciana, não esperava muito de rio nenhum, pois já sabia como tudo repetir-se-ia numa roda viva histórica. O rio que viesse a ser escolhido até a data da escolha, mostrar-se ia com todo seu cabedal, mas depois, a realidade do dia a dia na vila poderia mudar tudo; a seca prolongada persistiria e as soluções contariam com pouca margem para obter sucesso.
Nesse quadro, era previsível que o rio vencedor poderia perder água e sofrer pressão a tal ponto de suspender suas atividades, quando então chamaria o riacho para lhe fazer as vezes, agindo como se rio fosse. Era uma hipótese que rondava todos os rios candidatos.
Os provincianos e aldeões, de maior visão, preocupavam-se com esta questão, a do riacho vir a ser chamado para desempenhar a função de rio. Que tipo de águas tinha cada riacho, por onde haviam passado, oportunamente, que tipos de canoas por ele desceriam para chegar à vila? Oportunistas, vigaristas, gente mal intencionada, golpistas?  Que gente chegaria ali?
Sabia-se que pelo menos um dos riachos passava por uma fazenda de palmito e pimenta, cujo dono tinha no passado sido muito importante, outros tinham pouca água e luz e outros ainda tinham um potencial promissor e sério. Os riachos tinham todos características bem distintas, que, todavia, eram pouco ou nada considerados para o dia da escolha.  
O pessoal da vila prosseguia pelos corredores de sua rotina, a maioria esgotados, alienados e cegos pelos seus problemas de ego e da visão concentrada no aqui-agora fisiológico. Poucos  pensavam na escolha que deveriam fazer ou na água do rio ou do riacho que iriam beber. Mal conseguiam ver as calçadas por onde andavam de modo que não tinham a mente suficiente para se preocupar com hipóteses; não era sua tradição nem tinham muitos hábitos pensantes voltados para isso. 
E a vila prosseguia no seu vai e vem com muita neblina. O país, onde a vila estava localizada, passava ainda por momentos históricos no mundo da política, do crime e dos esportes. Todos estes mundos proporcionavam shows suficientes para sessões circenses e distraiam a todos, impedindo maiores preocupações com rios e riachos, os quais naquele ano contavam com poucos meios para alegorias. 
À boca pequena, em vielas do centro da cidade, os aldeões mais experientes coçavam seus bigodes. Sabiam que os rios até poderiam ser escolhidos, mas a questão era voltada para os riachos. Alguns riachos, além de desconhecidos e inexperientes, não teriam a menor chance de fazer as vezes do rio que alimentavam. A vila, de certo modo, estaria  em perigo futuro, numa hipótese que ninguém desejaria que acontecesse.
O pensamento indagativo era, por vezes, amenizado com a fé e esperança, pela hipótese de os ribeirinhos da vila poderem ter paciência e bolso para aguentar a seca e suas consequências. Talvez uma chuva, troncos de árvores robustas nas margens, pedras irremovíveis, poderiam ser o sustentáculo para tal período   destinado ao riacho, mas nem as árvores e nem as pedras tinham mostrado até então tanta força para remover as realidades que já haviam feito o histórico da vila e seu modo de viver e conviver politicamente. Todos se entrelaçavam em relações dos mais variados tipos e no fundo eram todos da mesma água. Perante o povo se opunham , brigavam e mostravam inimizade eterna, mas no clube dos poderosos se abraçavam e riam do teatro feito. 
Eram mesmo poucos os cidadãos conscientes que murmuravam pelos cantos, lembrando que alguns rios e riachos tinham hábitos de envolver e corroer pedras e árvores e não havia garantia alguma de que tais barreiras poderiam ser mesmo eficientes para impedir que canoas com gente ruim descessem pelo riacho e  fizessem coisas ruins. 
A tradicional esperança e fé era a de que a hipótese não se realizasse nunca naquela vila à beira dos pinheirais. Havia também uma velada vontade de que grande parte dos ribeirinhos abrissem os olhos e analisasse a capacidade de alguns riachos, mas era só um sonho idealista de pureza e de mundo íntegro e honesto.
E em todas as vilas do mesmo país, mais de 3 mil, havia este vai e vem, com a população enfeitando o rio de sua preferência e interesse, esperando fosse ele o eleito.
Mas os riachos? Ninguém sabia de alguns riachos e ninguém os enfeitava nem cantava em prosa e verso. O rio eleito levaria consigo o riacho, na usa sombra. E se um único voto, o riacho poderia fazer vezes do rio. Assim, simples, sem qualquer cerimônia. Uma espécie de pacote-surpesa que só seria aberto oportunamente. Nas vilas, a escolha democrática era só para o rio. O riacho era imposto autoritariamente, sem muita expressão, sem jamais sobressair. Era figurante das sombras no teatro político possível. 
Fato era que rio ou riacho, todos teriam que enfrentar o que se passava no ar de todas as vilas: gente dormindo nas ruas, desempregados, lojas fechadas, construções paradas, pessoas caçadas nas ruas para serem assaltadas, violência mortal em toda madrugada, pessoas sem salário e casa, expostas a tudo, famílias abandonadas, comércio sem movimento etc, etc. Tudo por causa de erros na condução do país, com muita ganância e ego dos ditos  poderosos que desceram por rios eleitos democraticamente, mas que em suas canoas só cuidavam de seus umbigos e iludiam os ribeirinhos com suas fantasias num sistema de  economia de mentira e inclusão social sem base alguma num castelo de areia .
Rio ou riacho teriam que enfrentar a realidade posta, pois era em cada vila que se concretizavam as consequências das mazelas nacionais, da cultura de fazer do governo um balcão de negócios, de assaltar os cofres públicos, de mentir e iludir a população sistematicamente. Na vila era que fazia sol ou chovia, que se lavava roupa e se fazia e se encarava a realidade das estatísticas mais duras.  
Entre gregos e troianos, cada rio então fazia sombra para seu riacho, o qual poderia vir a substituí-lo sem qualquer voto.
Assim, naquela vila de passagem entre o sul e o norte, cabia aos ribeirinhos olhar cada rio e o riacho correspondente. O voto, a escolha final estava com cada cidadão da vila.  Cada um dentre eles que escolhesse a água que iria ver passar e eventualmente beber.
Deve-se lembrar que a nível nacional de todas as vilas, no país abençoado por Deus, houvera rio que depois de eleito, até euforicamente escolhido, mediante a aplicação de estratégias de propaganda incríveis, ao invés de passar e ir direto ao mar, havia repartido-se em centenas de riachos, que não formaram nenhum estuário, mas um pântano de águas podres, criadouro de mosquitos venenosos imaginando no entanto, na sua alucinação , fantasia e delírio megalomaníaco,  poderem novamente nas  vilas do país num toque de mágica. Algo cínico e impressionista, esquecendo terem causado danos à população de todos os níveis e explodido os cofres públicos comprometendo o futuro por anos. Algo como ter vendido os ingredientes do bolo antes mesmo de fazê-lo pronto para distribuição. Reféns do seu ego ganancioso, deram vida triste ao ditado muito comum “quem come goiabada com as mãos se lambuza” ou “ quem tem pressa come cru”.
Agora restava esperar que Deus salvasse  a vila, cada vila, todas as vilas. Talvez após tantas prisões e escândalos no assalto aos cofres públicos, a escolha de um rio e seu riacho não fosse mais a autorização democrática para roubar e a cultura do “agora vou me fazer” começasse a acabar.
Rio e/ou riacho teriam então a oportunidade de construir para o povo e para as vilas e o governo talvez deixasse de ser o secular balcão de negócios. Em mais de 3000 vilas, este seria um bom começo após 516 anos. 

Odilon Reinhardt.
 30-8-2016.       

domingo, 31 de julho de 2016

O interesse público. E agora ?



Blog 31.7.2016

 


                                O interesse público. E agora ?




Acabou o dinheiro ou acabou o interesse ”público” para manter alguns na política? Será que haverá interesse privado, suficiente para ser transformado em público, quando não há mais financiamento através dos esquemas já escandalosamente revelados?
Ou será que há muito dinheiro ainda estocado, para as próximas eleições, como caixa “2”? Mas será mesmo que o dinheiro que vier a ser “investido” será depois recompensado através das tradicionais contratações problemáticas? E os corruptores, empresas com interesses em obter privilégios, contrariando a livre concorrência, vão arriscar? Saberão competir no mercado, sem a proteção “oficial”?Deixarão de procurar políticos, para defender seus “interesses”?
As perguntas são muitas, as respostas poderiam ser honestas e resumidas num sonoro “ Não!”. Todavia, sempre persistem a dúvida e a suspeita quanto à morte da impunidade e da malandragem nesta pátria enrolada por uma burocracia e direito processual que pretendia controlar e garantir tudo, mas acabou não controlando nem garantindo  nada.
Quando lemos e ouvimos que pessoas, mesmo já presas, continuam a manter esquemas de “propinagem”, tudo só confirma a suspeita acima. O país dessas pessoas está doente, tomado pela ganância e abuso de poder. Montaram uma economia paralela com banco de fachada e tudo, enquanto a população era iludida por mentiras, há várias décadas.
 Se hoje, na TV a cabo, podemos ver uma série histórica denominada Gigantes do Brasil, podemos ver como surgiram as empresas e empreendimentos de Matarazzo, Martinelli , Faulkar e Guinle. Agora com toda esta revelação, que tende a lavar a realidade, vemos empresas atuais que destruíram oportunidades para o Brasil e sua população por décadas. São as destruidoras de um futuro e serão lembradas pela História, em páginas de revistas e jornais. Era um “grande negócio” construir obras imbecis e manter a população na miséria e ignorância, iludida pela TV e enganada quanto ao seu real desenvolvimento como pessoa.
Então, agora, que as verdades estão boiando no rio, quem terá interesse em participar com dinheiro próprio, honesto na campanha política, se não haverá, espera-se, o milagre de transformar cada real “investido” em um milhão, via obras e serviços para atender ao dito e corrompido” interesse público”?
Até agora,  tudo é expectativa para as próximas eleições. Espera-se que a Justiça Eleitoral questione cada centavo de doações feitas aos políticos e impeça a desova do dinheiro sujo através de pessoas físicas?
Haverá “empresa” que ainda fará doações informais para o caixa “2”, esperando ser beneficiada em futuras licitações ou para “pagar” o já obtido?
Não deve estar fácil achar candidatos idealistas e com dinheiro próprio suficiente. Uma coisa é certa, quem se apresentar deve ser evidentemente o “iluminado“ em termos de ideal cívico e honestidade. Vamos ver quem se apresenta, quem são os honestos e sérios que eleitos poderão resgatar a soberania absoluta do interesse público, efetivamente público, para beneficiar o país em todos os cantos e mostrar à população que os impostos podem construir o país de verdade .
Qual o preço das novas eleições municipais? O limite concedido aos candidatos é suficiente? Seja lá como for, o cenário tem como pano de fundo o desenrolar de uma crise enorme, a retração, a depressão que, com fé e esperança, aguarda-se não vire a demoníaca hiperinflação, o que faria o país mergulhar no  túnel da história para voltar a 1991.
Certo que o interesse público, em sua concepção mais ideal, estará enfraquecido e subordinado à existência de financiamentos. Ideias e projetos serão raros, já que o interesse privado estará desmotivado em pensar tornar-se público com a retirada da expectativa da farta propina. Só os impostos atribuídos ao Município serão insuficientes.
Pequenas e grandes quadrilhas estão sob a mira da Polícia Federal e do Ministério Público. Espera-se o correspondente zelo como dinheiro na gestão estadual e municipal, mas este é outro aspecto que está ainda a se desvandar de modo mais profundo, penetrando nos meandros do castelo dourado de governos blindados nos municípios e estados. Espera-se que nestes “bunkers” também penetre o sentimento patriótico dos órgãos de controle estaduais e que os piratas percam suas naus, seus tesouros e suas galinhas de ovos de ouro nas economias mistas e empresas públicas paradisíacas.
Aberta a temporada de caça aos votos, já se observou a lentidão, a dificuldade em achar candidatos que se ajustem ao novo “establishment”, o da seca nas hortas e a da ferrugem nos cofres do erário público, agora acompanhado pela dos cofres privados. Há um visível esmorecimento, falta de motivação e interesse privado. Os famosos negócios oficiais de balcão, as costuras e as negociatas perderam o encanto secular.
O “interesse público” terá que ser efetivamente público, tendendo a beneficiar a população. Estão abertas as vagas, alguém se interessa?
Mas enquanto a trupe político-teatral prossegue em reuniões fechadas e secretas, pensando nos interesses de seu umbigo egoísta, a população segue no seu dia-a-dia heroico, tentando pagar suas dívidas, o crediário, achar emprego, achar meios de como não devolver o apartamento, não se separar, não devolver o carro, a geladeira , numa rotina alienante, fisiológica e pressionada e “imaginando estar doente”
No mundo político, a podridão do sistema envolve a todos, entre políticos, guerra é guerra, ego contra ego, campo de estratégias do Mal, falsas promessas, traições. O pacote completo.
No país, já meio comandado pela geração “ vai que dá certo “, “ se colar colou”, a memória não é uma qualidade muito eficiente, mesmo porque com tanta denúncia, uma soterrando  a outra, numa infindável maratona, o perdão é quase um meio masoquista de empurrar tudo para mais tarde, numa inocente demonstração de esperança juvenil.
Gente comprometida com escândalos e roubalheira, com e sem precedentes, têm voz na imprensa, usando frases de efeito, que propagandeiam a sua vitimização política, como se a corrupção fosse toda ela parte de um imaginário, foi inventada pelos opositores e adversários. Parece que a corrupção é um direito hereditário dos ocupantes de cargos públicos e não pode ser atacada, denunciada ou averiguada. Para essas pessoas o teatro continua e tudo é questão política.” “ Nada pessoal, é só negócio”. “O show deve continuar....” como se diz no mundo circense.
A política neste nosso amado Brasil, tem modo curioso de obter a permissão popular para que ali o ego possa dançar como desejar; tudo a custo do dinheiro público, feito com impostos de todos. A vitória na eleição é o passaporte democrático para a obter a licença para roubar, desperdiçar, etc. etc.
E tudo pode continuar como foi até hoje. A malandragem é cultural. Não há em termos de qualidade estradas para ir ao porto, não há escolas, hospitais e posto de saúde, segurança e creches etc, mas tudo está ok. Parece que o povo foi anestesiado. Não há comprometimento com o progresso, mas sim, uma grande resignação, que só pode ser explicada pelo altíssimo grau de analfabetismo.
A alienação é estonteante, prato cheio para o planejado individualismo. É como um ditador do norte da África estupidamente disse “ o nosso povo está preparado e pode a qualquer hora voltar a viver em tendas no deserto” .
Se a Nação desejar avançar, transformando toda esta trágica lição de décadas em alavanca de transmutação, terá que deixar para trás sua pobre cultura e modo de fazer política. Estamos no fundo do poço, é ruim e não se aguenta mais.
O modo de fazer política faliu. O modelo se esgotou. Quem serão os eleitos? Não serão eles também arrastados pelo mesmo sistema  político, o qual não pode ser elaborado só pelos próprios interessados em preservar suas mazelas. O Poder Judiciário através da Justiça Eleitoral poderá evitar que a raposa seja a chefe do galinheiro num novo sistema mais inteligente.  

 Odilon Reinhardt .


sábado, 2 de julho de 2016

O “ imaginário acusatório”.



                             



                                                     Foto: by Odilon Reinhardt .

Jamais um advogado, quando entrevistado pela imprensa, irá admitir a culpa de seu cliente. O que chama a atenção na verdade são as hilariantes e cínicas alegações verbais que estão sendo usadas.   Num dos corriqueiros casos, a frase usada e divulgada de Norte a Sul, em defesa verbal do cliente, foi que a acusação pertencia ao “imaginário acusatório”. Quer coisa mais fantástica do que esta? Bilhões foram desviados através de esquemas mirabolantes, casos de corrupção assolam o país e denigrem a imagem internacional, o país em depressão e alguém com diploma usa a alegação acima de que tudo não passaria de um imaginário acusatório.
Tamanho sonho, tamanha alienação parece pertencer ao mundo lunático de quem não vê o país. Algo semelhante a perguntar “Que país é este?“. E são muitas as frases que temos visto, saídas de habitantes de torres de marfim ou de castelos encantados, feitos com dinheiro público.
Ora, o desastre de uma política econômica falsa, mal planejada a nível de termos de interesse público, erroneamente pensada, é sentida em todo o Brasil, com fechamento de fábricas, lojas do varejo, aumento do desemprego, paralisação de obras, falências com ampla repercussão na qualidade da vida privada dos cidadãos etc. Terrível.
Será que cabe a qualquer um alegar mesmo verbalmente, ferindo  a moral comum, o que desejar, mesmo que seja uma afronta  à dor coletiva?
Não é de hoje que defesas jurídicas ou não, diante dos fatos incontestes, estão sendo feitas à base de frases de efeito, num quadro de escárnio e chacota, talvez embasadas na cultura da impunidade e na certeza de que tudo dará em pizza.
No processo do “Mensalão” houve advogado que alegou que “ não se tratava de dinheiro público”. Hoje escuta-se algo como “ é tudo mistificação da Polícia Federal e do Ministério Público”,  “ a prisão foi só para constranger”.
Em casos tantos, no dia-a-dia do país, pessoas  aparecem na TV expondo alegações ilógicas, esdrúxulas, insultando a consciência coletiva , como que menosprezando a inteligência dos que ainda a conservam. 
Seria este tipo de alegação uma representante sintética da falta de pudor, da falta de capacidade de autocrítica ou mesmo da perda de visão de conjunto, a desconsideração do contexto numa espécie de reflexo da alienação já com retoques jurídicos?
Se tais frases estiverem sendo reproduzidas por escrito no processo ou forem o resumo das alegações feitas na defesa, seriam ,então, artifício para preencher o prazo judicial, não tendo o que realmente apresentar em defesa ? Seriam parte de um ridículo formal calculado para não perder o prazo? Ou seria mesmo despreparo ou cinismo perante a verdade posta no processo?
E onde ficam os clientes nestes casos? Será que sabem da qualidade dessas defesas? Em defesa dos advogados, espera-se que os clientes estejam de acordo e tenham autorizado tais alegações.
Mas há tempos observa-se na prática da Advocacia, a influência da queda da visão conjuntural, sistêmica. A falta de uma contextualização atual e histórica dos fatos afeta o modo de elaboração das alegações.  A visão sistêmica exige estudo, cultura geral e interesse pela experiência humana, afastando-se do interesse meramente umbilical.
Talvez seja este um dos piores reflexos do individualismo e do egocentrismo que têm afetado também os advogados, que pessoalmente deixaram de estudar filosofia geral e especial e tornaram-se meros operadores fechados nos dogmas da ciência jurídica, no Brasil, já quase alienada.
Há visível fracasso profissional em termos de visão de conjunto e valoração dos fatos.   Miguel Reale, o pai, com sua esplendia e básica lição egológica do Direito, certamente encontra-se no céu, sentado em poltrona confortável, sofrendo perturbações ao ver o triste descalabro da advocacia nacional em termos de cultura jurídica, cultura geral, etc, etc dos advogados; a classe que deveria ser a mais intelectualizada de todas com a chance de prática constante de boas alegações e embasamento sempre humano.
Segundo tendências atuais e a pobreza intelectual das faculdades, até mesmo o exame da OAB, revela-se incapaz de peneirar. E diga-se “peneirar“ já é um escândalo num país onde pelo menos o estudante de Direito deveria ser o mais intelectualizado.
Tudo leva a crer, que fato+valor = norma ficam mesmo como atividade para o Juiz, considerado agora como a última fortaleza de intelectualidade. Quem diria que chegaríamos a isto.
E então, quando a falta de valoração, correta e abrangente, deixar o exame dos fatos, a norma a ser estabelecida pelo Juiz, o direito de uma das partes, será certamente a da pior espécie, já conhecida em regimes autoritários, fascistas ou nazistas. Será a era da noite na elaboração do Direito e o tormento da Ciência Jurídica.
O “imaginário acusatório”! Verdadeira pérola negra no mar dos sargaços, verdadeiro diamante rosa achado no lixão. Que visão alucinatório como alegação em qualquer nível.
O ensino jurídico já era uma preocupação desde 1970. Qual a real qualidade de nosso bacharelandos hoje? Serão tecnocratas jurídicos, reduzidos a “ operadores do Direito “ ou “mecânicos das leis “?  Continuarão com a tendência de simplesmente aplicar a lei, interpretando-a literalmente ou copiando e colando lições da doutrina antiga, já que a atual está cada vez mais pobre e irreal?
A quantidade de bons livros, boas teses, boas fundamentações está ficando cada vez mais rara. Há uma pobreza generalizada que atinge a sociedade e também o Direito, como reflexo do contexto cheio de tendências de uma época marcada pela visão curta, pela falta de profundidade, pela visão cheia de aqui-agora, descontextualizada e perigosamente parcial, o que é próprio do individualismo e do egocentrismo.
A Ciência do Direito, construída por grandes teóricos durante o século XX, começa a ceder espaço para um exercício da advocacia pobre como as causas que visa atender.
Não seria esta mais uma das inseguranças jurídicas a militar contra o cidadão de todas as classes sociais e mesmo empresas?
A crise do ensino do Direito pode não ser toda a  crise da Ciência do Direito como os problemas da existência não são toda a vida. Há na verdade tendências e confirmações no ensino do Direito, mas que podem ser corrigidas. Todavia, isto depende do tempo e dos estudantes e acadêmicos voltarem a estudar com qualidade o conjunto de ciências sociais para chegarem a ter a curiosidade de obter a visão sistêmica da sociedade brasileira e assim não seguirem o viés do “ imaginário acusatório”.
Mas frases de efeito continuam a chamar a atenção. Tanto que recentemente “o Ministro Teori admitiu que “o país está doente “ . Sim, não só o sistema político, os políticos com seu ego, com sua ganância, realizado todos os dias a custo do contribuinte. A doença já atingiu o cidadão há décadas e penetra nas instituições.  Agora é a época das consequências .
Um escritor carioca disse frase histórica há muito tempo atrás, algo como: “o Brasil conhecerá a barbárie antes de conhecer a civilização”. É radical, mas existem exemplos que nos digam do contrário? Uma guerra civil por noite, mortes e crimes hediondos, etc, etc , mas é tudo mesmo só um imaginário. O escritor deveria estar embevecido com as paisagens divinas da Guanabara.
Afinal, por que exigir tanto, se este é o país onde “há lei que não pega” ; onde o presidente atual choca a classe política dizendo que “ o Governo não é ação entre amigos”. Revolucionário este Temer, que só poderia ter sido amigo de uma grande amigo, o estimado  Geraldo Ataliba, memorável doutrinador e líder no Direito.  Frase que em qualquer país mais decente seria óbvia, mas entre nós, onde verdadeiros quadrilheiros assumem o Poder de estados e municípios, é frase estonteante. Então pretende-se acabar como o Governo como Balcão de Negócios. Um grande passo para a civilização aqui colocada. Será?
E ainda temos que questionar se isto tudo é uma exceção, coisa da  a maioria ou a minoria?
Outra questão é se nas operações de alta corrupção, com estamos vendo reveladas diariamente pela imprensa livre, houve contribuição intelectual de profissionais do Direito, da Engenharia da Contabilidade etc, etc, ou foi um imaginário tecnológico dos doleiros e dos políticos e seus defensores? Quem deu e está dando suporte técnico para tais esquemas? Como poderiam os bandidos contrários ao povo e ao Brasil elaborarem esquemas sofisticados para produzir e lavar tal quantidade de dinheiro. Se isto acontece, qual o verdadeiro embasamento moral e ético que as faculdades estão passando?
Como se pode supor,  o “imaginário” toca a profundidade em vários aspectos a serem ainda investigados como desdobramento da operação de lavar o Brasil com água sanitária, soda cáustica e ácido muriático. Isto nos faz acreditar num mundo melhor para o Brasil? Pense e responda.
Aqui os problemas são encalacrados, foram sedimentados em várias camadas no solo e as pedras das calçadas estão encardidas.
Ainda sobre frases hilariantes, mas com valor de grande expressão , houve presidente que disse “ minha mãe já nasceu analfabeta”; houve ex-presidente que dizia frases prolixas como “ temos que preservar o que tem que ser preservado, porque a preservação é para preservar”. Frase, certamente, para impressionar intelectualmente alguns dos cidadãos incluídos nos 96 % de alfabetizados, mas não conseguindo convencer os 8% desta porcentagem que pode ler e interpretar um texto.   
São necessárias inúmeras atitudes positivas para efetivamente fazer a salvação nacional. Muitas delas no campo espiritual, preservando a essência da humanidade frente ao individualismo e ao egocentrismo que estão pressionando o cidadão, ao serem alavancados por tecnologias que só afastam o Ser Humano do humano. Sem educação, não há futuro algum que seja bom. Continuaremos na guerra civil. Contudo, a salvação não depende só de política de massa, mas de cada cidadão.
Parte da  população não tem culpa, pois perdeu seu poder de crítica etc quando na década de 1960 foram fechados os cursos de filosofia geral e especial, sob pretexto de que o comunismo estava se infiltrando no país. Isto gerou consequências graves: a alienação e o medo de se expor, o que se alastrou por décadas.
Para que haja reação individual positiva desde já, será necessário que o cidadão não focasse só nas coisas do noticiário sobre o Governo, a política nacional e os políticos em seus escândalos diários, divulgados pela imprensa televisiva, única fonte de informação disponível para milhões de brasileiros. Mesmo que só 5% de tudo que vemos diariamente fosse verdade e o resto pertencesse à dita “fantasia mediática”( outra frase de efeito, visando desconstituir o papel da imprensa livre), já seria o bastante para denunciar o absurdo quadro em que o país foi metido, rumo ao agravamento de sua pobreza não só material, mas também intelectual.
Os fatos e dados são fornecidos pela imprensa que comparece à casa dos brasileiros, todos os dias no horário do jantar e do almoço. Em deduções e induções, conotações e denotações, cabe a cada um juntar as peças e montar o quadro geral , segundo seu poder de observação e avaliação, ainda uma liberdade dada a cada um que pode pensar e se expressar. Discernir.
Seria ideal, portanto, que o cidadão levantasse a cabeça para ver além das mazelas divulgadas e conseguisse ver a verdade dos potenciais do Brasil, que é rico, vale a pena e tem futuro. Basta ser honesto, ético, ter moral, ter espírito de Pátria, pensar em ideais e sistemas bons para seu povo e para a família.
Não se pode desistir. Cuide-se do debate, da crítica, do projeto positivo e teremos a democracia e a República e não a farsa, a mentira, as frases de efeito, a opera-bufa no castelo de areia em  teatro nacional.
A questão é cuidar do SER nacional, da criança que será  cidadão, deixando o Ter como mera parte instrumental, necessária, mas não o fim de todas as coisas.
Para o momento a impressão é que Deus continuará de costas para o Brasil, olhando as belas praias do Rio, e terá agora muita diversão como os jogos olímpicos, mesmo que a violência lhe perturbe os  pés.  Talvez depois, volte-se para o interior do país e comece a rezar.
Odilon Reinhardt.