segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Como cereja em pé de jaca.


                                     
                                          
                                                   Como cereja em pé de jaca.



Há na História de qualquer lugar, uma discrepância enorme, quando filosofias estruturais se chocam e jamais combinam, formando idiossincrasias de confusa adaptação. Um carnaval filosófico de loucas figuras do circo do dia a dia .
O racionalismo e o utilitarismo, unidos ao pragmatismo, que alavancaram algumas das nações europeias e suas colônias, aplicados como instrumentos inteligentes, lógicos e inevitáveis para produzir mais, reduzindo custos e desperdícios em qualquer empreendimento lucrativo, quando importados, aparecem nesta etapa de evolução do cenário de muitas pessoas como cereja no pinheiro, como laranja em pé de jaca. Não combinam jamais com a falta de educação de qualidade, com baixos níveis de inteligência, com o despreparo para falar, escrever e pensar, o que embaraça a mente das pessoas de modo determinante. Prevalece o autóctone espírito de rejeição.
A falta de educação formal de qualidade, constada a cada teste estudantil, quer pelos resultados quer pelo número de inscritos, dificulta e turbina bastante a discrepância acima mencionada, favorecendo a continuação do fisiologismo animalesco e um falso pensamento, não só humanista bem como social, voltado à  preservação do “natural” com muita atitude de antiprogresso pessoal e coletivo.
Surge neste contexto, um arremedo de racionalismo, um pragmatismo pobre, vazio, sem crédito, aplicado à vida rotineira de muitas e muitas pessoas, afora um intelectualismo retrógrado e promovido por gente frustrada em seu egoísmo.    
São velhos inimigos. A ignorância e a falta de esclarecimento, enfim a limitação intelectual e sua orientação para um socialismo guarani, sem dinheiro, sem recursos, que se abastece da politicagem e do pensamento miúdo e populista de líderes que visão se manter no poder às custas da conservação de bases eleitorais que querem tornar imutáveis. Esquecem que o povo se move, quer luxo e dinheiro e que a miséria é coisa de intelectual, que tem sua própria vida mental em pedaços de miséria, mergulhado no pessimismo, recanto onde   sempre tem razão.
O racionalismo que aqui se vê é o fisiológico, egoico, uma espécie de pragmatismo do grosseiro, do animal em constante defesa, procurando sobreviver na caça, quase selvagem, pela proteína carnívora disponível. O dia a dia é vasto em dar exemplos da dissintonia filosófica num país ainda em fases primitivas de evolução mental e material.
A cultuada rejeição a qualquer racionalismo produtivo, a qualquer modelo que deseje a forma em detrimento do hedonismo, do umbigo, da farra pessoal, da cultura de preservação da vida simples da tribo, do espírito do “simples”, é explícita e prejudica o progresso e a produção.
Enquanto a prioridade for o conforto pessoal, a megalomania as custas do dinheiro público e da incessante ânsia  por  vantagem , o racionalismo e seus modelos produtivos para o mundo dos negócios vão sempre sofrer a crítica e  revezes enormes, tudo promovido pelo espírito do “simples e natural”, que se alimenta diariamente de falsas premissas intelectuais disseminadas como uma praga pela TV e, imprensa,  que diariamente reproduzem falas e ideias de intelectuais fracassados, todos com seus bicos amarrados em subempregos no mundo cultural e da propaganda tendenciosa.
Há esta cultura do atraso, da dependência econômica e intelectual de que o lucro é pecaminoso; o empreendimento particular é maldoso e de má-fé; o juro é pecado; a ausência do lucro e interesse pessoal é algo elevado, isento, divino, puro; de que a indústria é contra o homem e sua natureza etc. São mentalidades que fazem o país ter o prazer em pisar na lama e no atraso que nos remete aos países monárquicos de 1800, aos teocráticos, burocráticos, onde tudo é controlado e gerido pelo Estado.        
Num país continental, o racionalismo trazido da Europa, mesmo que em resquícios, no sangue de imigrantes de pouco estudo, sempre se chocou frontalmente com a cultura local existente  e o embate persiste até hoje, onde a lógica pode ter vários objetivos hedonistas, mas quase sempre é contra  os negócios honestos e de produção. É como se as forças produtivas fossem algo artificial, que não pertencem ao local. É mesmo um cenário onde a paisagem mostra cereja em pé de jaca, laranja nascendo em pinheiro. Não cola, não pega. Muitos valores, princípios positivos e de produção nunca desceram das caravelas, dos aviões, dos navios porque há um ranço nacional contra o progresso. Aqui o pensamento é preservar a taba e sua cultura. Sem dúvida nunca a terra do “duty first, self second”. Aqui vale “ primeiro eu e meu umbigo , depois o resto”.
As forças contrárias à produção vivem no atraso dos discursos de intelectuais de todas as profissões, vive diariamente no espírito do “ ganhar sem trabalhar” ; no “vou aproveitar”; no “ ganha-ganha” ;  na perpetuação , repita-se, do pensamento “ se não tem fins lucrativos, é bom, é puro, é confiável.  Vive na malandragem, no hedonismo; na megalomania; no culto à preguiça e na aversão ao trabalho como fonte de riqueza e crescimento pessoal; na ideia de que trabalho é sofrimento;  na glorificação do emprego público e seus salários; na crença de que o dinheiro público é a mina a ser explorada; na crença danosa de que dinheiro não traz felicidade; no lema a ser aplicado na função pública “ agora eu vou me fazer “; na ideologia de que o empreendedor é o patrão explorador ; na vitimização dos coitadinhos, estes considerados como eleitores a serem protegidos e preservados até cada eleição. Sobrevive no pessimismo e no negativismo pregados sistematicamente, reforçando a síndrome do” cão vira-lata”; na frase mais danosa “ é mais fácil um camelo passar no buraco da agulha , do que o rico entrar no reino dos céus. E mais, na ideia de que dinheiro é coisa do Mal; na crença de que a pessoa tem que sofrer para merecer no céu; na faltas da ideia de prosperidade, de que um empreendimento bem sucedido ajuda muitas pessoa e o país. Persiste na pior crença, a de que para ter evolução espiritual é necessário livrar-se do material. E mais, nas perguntas “qual é a minha vantagem?” e “ o que eu ganho como isto?”.
Evidentemente, toda esta plêiade de estrelas negras contamina a mídia, o jornalismo cativo, as conversas estudantis, os pseudo intelectuais do barzinho perto da Universidade, os comentários políticos, os textos de colunas em revistas e jornais fazendo analises de visão parcial, compondo no conjunto o pensamento filosófico e sociológico neste quadro da evolução social do país. Falta luz, falta energia, falta horizonte. A questão a se formular é : tem alguém feliz com este pensar negativo e derrotista? Isto ajuda os jovens a acreditar no país? Isto cria ambiente de  negócios e progresso pessoal? As pessoas estão felizes?
A revolução que não será feita de imediato, embora necessária, é a intelectual, que rompa com a “sânsara” onde se aprisionaram os intelectuais e formadores de opinião, com seu comportamento vaidoso, de dono da verdade, de espírito fracassado na luta contra o ego; frustrado na tentativa de achar-se o detentor do poder de achar a solução para o mundo. Ficam remoendo as mesmas ideias para não serem incoerentes e perderam a plateia de copo na mão. É um circulo vicioso que ficou defasado, enquanto o mundo girou, a vida andou; continua pregando o caos, o fim do “sistema”; repete-se na mesmice improdutiva e no ranço da raiva e frustração pessoal.
E a intelectualidade vai diluindo-se neste nível, querendo preservar fórmulas que escravizaram o povo para fins meramente eleitoreiros, querendo congelar a mobilidade das classes sociais e engessar a miséria como massa cativa. Querem preservar o Estado como o grande promotor da vida e o garantidor de empregos suculentos, onde se possa mamar sem nada fazer em eternas sinecuras.  São contra a empresa privada, ignoram o óbvio, as empresas  como geradoras de empregos, salários e impostos. Atacam o consumismo, esquecendo a necessidade de geração de empregos. Atacam o capitalismo, esquecendo que a outra alternativa nunca deu certo em lugar nenhum e sempre afundou todas as economias e regimes que a adotaram. Mas seguem nesta infantilidade, neste sonho idealista fracassado.  
E são pensadores sacados de dentro da população, extratos melhorados do humano disponível, mas autoritários, conservadores, falsos moralistas, inflexíveis, antidemocráticos em suas rodas pessoais, intolerantes, radicais, intransigentes; tomam-se por detentores dos remédios para melhora o mundo, mas nunca a democracia, que para eles é só uma palavra boa de repetir e politicamente correta. Mas o certo é que muitos são capazes de rapidamente abandonar o espírito de revolta e ódio, assim que conseguem um bom emprego e conseguem “ficar numa boa”. Aí acabou toda a “ideologia”.   Mesmo assim são o que temos; são pensadores que de qualquer modo pensam em algo; são melhores do que os milhares que não pensam, os milhares de qualquer classe social que não pensam e vivem num vazio do dia a dia. 
Observe-se como as grandes e pequenas questões, locais e nacionais, são conduzidas. Não há debate razoável, só razões isoladas , fechadas. A solução é conseguida pelo poder pessoal ou partidário. Imposição. Isto ocorre desde o colégio, condomínio, associações, centro acadêmicos, órgãos de classe até o Congresso. Onde está a democracia como processo regular? Votação por maioria não é democracia, é mera parte dela. O cidadão não está habituado a a debater, discutir, trocar ideias. Não sabe nem escutar, muito menos se expressar. A colocação de simples ideia contrária é vista como afronta pessoal no país do tosco e do bruto, onde impera a impaciência, a intolerância, e há total aversão a ser contestado ou contrariado. Ninguém gosta de ser confrontado. Eis o país democrático que temos: autoritário desde a raiz.    
E a vida vai por este caminho, uns torcendo para que tudo dê errado, para que se possa começar do zero, num Estado totalitário, gerador de empregos e onde todo mundo seja igual, e outros torcendo pela empresa como geradora de empregos e estimuladora da vida; a empresa, esta ilha do racional pelo racional, é que mais gera empregos e sustenta as famílias, gera salários e o consumo que gera impostos para o Estado, hoje querendo deixar de ser um grande, guloso e incompetente Leviatã, o qual agiu sempre contra quem o sustenta , virando o cocho onde se alimenta.
São mais de 100 anos de luta para afirmar o racionalismo produtivo, mas a reação é feroz, na medida em que o racionalismo e o pragmatismo fisiológicos, reagem contra o progresso; não querem  mudar, mas querem  o resultado rápido, o luxo, o poder de consumo sem contribuir para tal.
Talvez, isto, curiosamente, contribua para que um dia se diga “nosso povo pode a qualquer momento , voltar para suas tendas no deserto”, frase dita por Kadafi , para mostrar o seu total desprezo pelo progresso. 
Se continuarmos a resistir ao progresso, estaremos sempre sob a maldição de Nelson Rodrigues de “o Brasil conhecerá a selvageria antes da civilização”. E a questão “pergunte no que seu país precisa de você?“ demorará a substituir a de hoje  “o que o Governo  pode fazer por mim?” É o paternalismo, a filosofia do rebanho a ser tutelado e protegido; a filosofia dada a um país de ovelhas, rodeado de conventos, todos vivendo na penumbra dos tempos,  à espera do fim do mundo. Milhares de metáforas mal interpretadas num país de analfabetos, tendo o país sido atrasado em pelo menos 400 anos, mas que é mantido como símbolo e ícone para os que fazem a opção de seguir pensamentos contra o progresso, manter seus privilégios com seus  pensamentos atrasados para comer e encher as burras à custa de milhares de famigerados.
Com crenças e ideologias negativistas, instalou-se uma cultura de resistência ao progresso, que vive da conservação de interesses pessoais acima dos institucionais. Seguindo tal diretiva intelectual, privilegia-se o fisiologismo, o ego, o animalesco em sua versão tropical hedonista. E assim, enquanto a evolução intelectual do país for conduzida por crenças contra o progresso, a prosperidade e a riqueza, o racionalismo produtivo será aqui um elemento tão estranho quanto uma cereja em pé de jaca.

Odilon Reinhardt. 3.2.2020                              

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Observar e questionar no dia a dia de todo dia.


                                     




                                                 Observar e questionar no
                                                  no dia a dia de todo dia.


E sempre há o outro dia na história,
para olhar o show humano,
seu teatro, sua trajetória.

O movimento dos seres,
cada um com sua rotina no mundo do fazer,
com seus sonhos, seus afazeres.

O entrelaçamento e chance de interesses,
os conflitos ,os acordos , desejos e paixões,
os erros e acertos do ego das gentes.

É assim o dia,
cheio de surpresas , cheio de vida  e fascínio,
pleno de ilusões , decepções e magia.

Ter a curiosidade
de aprender com isto tudo
expressa superioridade.

É preciso muita observação,
 análise, crítica
a até certa isenção.

Embora consigamos tal posição,
estamos também no meio de tudo,
somos parte de cada ação.

Por vezes somos no dia,
o centro do evento, da situação
e, envolvidos, temos que usar sabedoria.

Admitir que deixamos de ganhar ou perdemos,
que não dá para alterar,
aceitar o que recebemos.

Notícias, coisas que dão errado,
derrotas e vitórias,
verdades e descobertas do aprendizado.

É assim a vida ,
todo dia um interessante evento,
o grande circo em roda viva.

Impossível exigir perfeição,
o humano está na experiência,
seu comportamento é de ação e reação.

O mundo é feito do imperfeito,
da tentativa de acertar,
do sucesso do que ainda possa ser feito.

Há vários shows simultâneos e diversos,
pessoas que conhecemos ou não, em seus roteiros,
com passos certos ou reversos.

O humano com suas paixões,
desejos, dores, anseios,
amores, ilusões, mentiras, verdades e ambições. 

No conjunto tudo parece muito tresloucado,
mas há sempre uma orquestração,
um objetivo ,um começo , meio e fim a ser alcançado.

E ao final de cada dia,
sempre há de toda esta fantasia
um avanço, um ticket para o outro dia.

É o admirável mundo humano,
com tudo que nele há,
e com muitos enganos e atrasado desengano.

E assim prosseguem os dias da existência,
um após o outro,
até que não haja mais dia para nós sequência.

É este o nosso mundo de hoje,
o mundo do dia a dia
que observo com a segurança que às vezes me foge.

Tenho que ir pelo caminho de cada dia
procurando um  meio de sobreviver à solidão humana
e ser feliz para além da comum alegria. 

Assim vou como muita gente procurando
os amanhãs com os quais sonhei
e vou colocando na alma tudo e todos que observei.

E há sempre muito para questionar nesta criação comum,
enquanto desenvolve-se a tragicomédia dos seres
no viver, conviver e sobreviver na dimensão de cada um.   

Em 2020 abre-se uma nova década ,
observar e questionar é o que posso fazer
esperando melhora a cada semana observada.

Odilon Reinhardt. 3.1.2020


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Natal 2019






                                               










                                                            
                                                                    Natal de 2019.



Indo para um país, onde não conhecemos a língua e não temos ocupação alguma, somo classificados como turistas ou refugiados ou qualquer outra categoria, como justificativa, por não estarmos encaixados no mundo da produção local ali existente.
Neste contexto, até o mendigo na calçada está mais qualificado do que nós, pois pelo menos possui ali uma vida particular com histórico, domina a língua  e seja ,talvez, um abandonado pai de família/comerciante/fazendeiro, uma vítima do fogo, da inundação, da crise econômica, da guerra contra si mesmo, da depressão, desnutrição, de qualquer evento humano que lhe fez perder tudo, sem chances de um recomeço. Sabe-se lá, tal é a adversidade e quantidade de situações pessoais que podem afetar cada um em qualquer fase da vida.
A única segurança emocional que temos é que há um espírito superior que iguala todos os seres humanos, ou seja, o espírito de humanidade, expresso na fraternidade, união, solidariedade e compaixão.  
Em qualquer lugar da Terra, sabe-se o que é um sorriso de gratidão, um abraço de afeto, um grito de socorro, uma palavra de boa orientação, uma mão estendida para o Próximo, um simples bom dia ou qualquer outro gesto que diga que a pessoa esta sendo percebida independentemente de sua situação.     
E é este espírito humano que ressurge um pouco desgastado, puído, de tanto lutar para sobreviver no meio do estresse de prazos, iniquidades e compromissos do mundo de trabalho, para, no teatro do final de ano, fazer-se presente e lembrado num abraço, num presente, numa palavra de conforto e estímulo. É o curto tempo de pausa para reflexão sobre os passos que vem sendo dados e o rumo a tomar.
Muitos de tão esgotados, esmagados pelo pragmatismo da rotina que seguem, nem condição possuem de pensar, tal seu estado miserável, seu cansaço, seu estresse, sua mente invadida, ansiosa e confusa de sua posição como objeto da vida, que o faz até mesmo desprezar o fim do ano e seus eventos.  E você? Como chegou à época de Natal de 2019?
Passada a pausa, a época do final de ano, presentes comprados e distribuídos, continua a vida, tocada e empurrada por ditames e condicionamentos pouco debatidos, que levam a mais um ano de estresse e esgotamento. Esperanças renovadas, planos feitos que logo se revelam como impossíveis quando confrontados com a necessidade de mudança do dia a dia e do modo de agir e pensar. Há alguém satisfeito aí? Isto tudo esta dando bom resultado pessoal? Por que tantos problemas e violência se tudo está como dizem, “ok”?
E o espírito de humanidade, tão anunciado e propalado pelo comércio e mídia, deve ser recolhido ao íntimo de cada um para só reviver um ano depois? Será que serve só para ser usado nas festas de fim de ano ou deve ser praticado todo dia a qualquer tempo em todos os lugares do mundo?
Muito já melhorou, pessoas estão despertando e o mundo está mudando. Não se deve perder a esperança diante da lentidão evolutiva. O ego deve ser dominado e o medo de perder e a contrariedade devem ser domados.
O esforço é pessoal, contamina o grupo e avança para a coletividade. É o caminho que não deve ser abandonado. Não podendo mudar o mundo subitamente, mude o seu interior e seja exemplo. Exemplos de humanidade constroem pensamento positivo, harmonia, sinergia. Garanta-se, chegue ao próximo Natal descansado, amando a vida, fazendo planos de prosperidade e de elevação da humanidade. É o único caminho longe do negativismo, do conflito e da confusão interna e externa.  Aproveite o Natal, não há nada igual.


                                                É natal, tempo especial.

A cidade  se enche de luz.
já está no ar,
o Natal , tudo tão especial.

Já é Natal,
seduz os corações,
cria eternas emoções,
não há nada igual.

Ruas e árvores em cores,
o amor invade os sorrisos e lares,
tudo brilha neste tempo ,
tudo é luz e não na nada igual.

Brilham os pinheiros,
brilha em paz e suavidade a flor do passeio,
a criança sorri com seus brinquedos,
brilham os olhos com esperança e amor. 

É Natal,
não há nada igual
em Curitiba tudo é especial. 

 
Odilon Reinhardt.
( poesia utilizada por Reinaldo Godinho para
compor sua poesia e música Tempo de Natal).

domingo, 3 de novembro de 2019

Vox clamantis in deserto. Sinais menosprezados?









                                                            “ Vox clamantis in deserto”.
                                                              Sinais menosprezados?



    
A realidade, em sua rápida e plural diversificação de interesses, ocupa e ao mesmo distrai a capacidade humana em focar o essencial, o invisível. Há sempre tantos eventos diários com prazos, fotos e fatos que o pano de fundo do teatro bem como a imagem do caleidoscópio em si é menosprezada. No entanto, tudo que vai acontecendo decorre de ideais, de causas a longo tempo existentes, que acabam deixadas de lado. Neste sentido, há muitos sinais que estão sendo dados e operam livremente, desde há muito tempo na realidade, originando causas que se misturam as consequências, acabando por montar uma complexidade difícil de cativar a atenção das pessoas que deveriam melhor considerá-las para tomar atitudes práticas.
Não é do mundo quadradinho das pessoas da produção, já condicionadas e estreitadas a seus currais de trabalho, onde a liberdade é formatada pelos ditames do salário e do emprego, que estão vindo os sinais, mas sim da camada ainda livre, a juventude, cujas ações e reações, de há muito, vem avisando de mudanças no pensamento e que expressam o olhar o mundo e a vida diferentemente dos tradicionais ensinamentos de pai para filho, muito embora, a vida tenha fases bem definidas e a idade avance sobre todos, o que vem sendo desconsiderado visivelmente. 
Ao longo das últimas 5 décadas, um conjunto de filosofias deitou-se sobre a civilização e ao serem utilizadas por forças da produção e da comercialização, favoreceram mudanças do pensar e do atuar da juventude, colocando contra a parede os padrões normais da estrutura para o viver, conviver e sobreviver. Agora tendo recebido o avanço e tendo sido turbinada pela tecnologia e seus inúmeros aparelhos de comunicação, os novos pensamentos e uma nova concepção de vida é amplamente divulgada e marca atualmente o cisma do jovem em relação ao comportamento até então comum e de preparo, nos moldes como costumava ser formatado para a participação no mundo do comércio e da indústria do modo que os adultos vinham  conduzindo.
O jovem de hoje não é mais o elemento que o sistema clássico projetou. Ao longo do percurso, embora os múltiplos condicionamentos tentados, o produto está saindo da forma de modo diverso do esperado e a juventude tem emitido sinais bem mais contundentes para a sociedade. Mais uma vez, a sociedade e seus olheiros falham em localizar tais sinais ou quando o fazem falham em considerá-los como mutantes e capazes de mudar o “establishment”.
A mesma atitude foi a que levou a imprensa, a mídia e toda a sociedade adulta a não enxergar a chegada dos abalos sociais de 1968 no mundo, revoltas de comportamento, fruto das décadas anteriores, sem envolvimento com questões econômicas. Na época a reação foi rápida, a indústria e o comércio aproveitaram para aumentar a produção e as vendas utilizando o espírito de mudança e de revolta, investindo na moda e música; a bandidagem estruturou o mercado da droga, como meio de fuga para os jovens insatisfeitos. O mundo se acomodou e se ajustou como se fosse moda passageira. Todavia, a semente do movimento continuou e hoje já está arraigada no pensamento da juventude, de um modo muito mais consolidado e duradouro. Não é só a consciência crescente quanto à alimentação (sal, açúcar, carne, refrigerantes etc.), saúde, educação clima, meio ambiente que revela e se faz de porta-bandeira  de um novo entendimento sobre o mundo e o modo de viver, mas também a intolerância, a insatisfação quanto a visão de futuro, quanto as  incoerências do aparelhamento da sociedade em relação aos necessários  preparos para os novos meios de vida pretendidos, quanto aos sistemas e meios de governo, aos sistemas políticos, que visivelmente pouco resultado têm apresentado para a sociedade e seu futuro. Pode-se até questionar se muitos dos políticos e autoridades atuais que estão na cadeia por corrupção não foram jovens rebeldes dos anos 50 e 60, que por ideologia contrária optaram por encher as burras de dinheiro para seu próprio umbigo egoísta, deixando os interesses do país à míngua; uma espécie de sabotagem ao sistema, com visíveis proveitos próprios e um abraço aos demais. Até que ponto não são legítima expressão dos defeitos da sociedade que os gerou?  Há muitos modos de expressar revolta contra o “establisment”.
Fato é que a juventude de hoje, unida como nunca no mundo, está, ao seu modo e com grande parcela de inconsciência, preparando-se para rebelar-se contra tudo e todos de um modo mais agressivo. O jovem humilde, temeroso e reverente quanto aos adultos, ricos ou pobres, bem como aos demais deixou de existir. Uma pedra jogada contra a polícia ou contra uma loja,tem razões muitas vezes distintas e um endereço diverso das que a mídia lhe quer emprestar.  Nem o atirador da pedra sabe muito bem porque jogou, mas o ato cabe na ideologia, na visão de quem vê a vidraça quebrada e se coloca como apoiador.  É esta insatisfação anônima, sem clareza, sem muita coerência que está sufocada e faz o barulho no silêncio das pessoas. Como todo processo, há um começo, meio e fim, basta o “start”, que pode ser o mais insignificante em termos econômicos, mas que pode dar vazão a uma descontrolada manifestação de resultados que representam um fato importante para a ideologia em formação e avança contra a cultura, o poder, o “establisment” que vem resistindo.  
E diante de fatos, que se repetem aqui e ali no mundo, a mídia, sempre focada nos assuntos do dia a dia, mormente na política, preocupada como o ”Poder”,  perde a visão geral e é sempre surpreendida perante  eventos populares, para os quais se preocupa em por bandeiras de acordo com sua visão e interesse.
As mensagens são, todavia, cada vez mais recorrentes de que as futuras gerações, que ocuparão o mundo em termos de decisão e controle, e não desejam seguir os mesmos modelos e padrões, embora a racionalidade produtiva siga passos que dificilmente são de grande variação. Produzir-vender –consumir é um triângulo de duração eterna e condiciona o mundo e mantém a paz ou faz a guerra. Se há mudanças neste triângulo de existência, é o comportamento humano que interfere e faz mudanças de tempos em tempos, conforme as forças manipuladoras existentes a cada época com seus meios de operação. 
Há décadas, o marketing de propaganda e a mídia mundial tem espalhado mensagens impregnadas de valores e princípios, muitos deles negativos, que atingem a juventude, fazendo assim uma mentalidade diferente que redunda hoje em não seguir modelos, não adotar padrões e não respeitar autoridade e instituições; isto vem sendo pregado sistematicamente em dissintonia com o comportamento exigido pelos órgãos de controle e governo. Ao par desta realidade, o mundo informatizado vem criando novo modo de ser e dotando  os jovens de hábitos e necessidades que antes não existiam. Nasce uma nova lógica, sem paradigmas.
A juventude das últimas décadas tem e foi levada à oportunidade existencial única de criar seu próprio modo de pensar, desconectada dos pais e do “establisment”. Será que quando ocupantes de cargos públicos etc, não refletem tal sentimento e ideologia, priorizando o umbigo em detrimento dos interesses do país. Não seria uma repetição do já visto em termos de descompromisso com a estrutura formal da produção e governo. De certo modo uma nova versão da anticultura.  Mesmo em países orientais mais conservadores e onde a juventude recebe educação de qualidade, os jovens  mostram-se diferentes e indiferentes e possuem nas mãos instrumentos para mostrar a qualquer instante sua força de unidade e ação. Já nos países menos favorecidos, meio à crescente falta de Educação de qualidade e problemas econômicos de difícil solução, o despreparo da juventude é visível e a ignorância impulsiona as forças contrárias ao respeito ao padrão tradicional usado pela democracia, para debate e discussão e demais instrumentos da sociedade formal para resolver seus problemas. Surge com muito mais manchas de tinta de impaciência, o jovem ansioso, frio, calculista, pragmático e intolerante, fisiológico, pronto para resolver tudo no ímpeto das atitudes violentas.
E com a renovação das gerações, os padrões antigos vão cedendo e sendo enfraquecidos sob a justificativa de serem resquícios do autoritarismo, muito embora a atitude que se observa é de um autoritarismo jovem renovado e muito mais violento, eis que nascido da contrariedade ao ego muito mais forte . O caldo desta vez não será resultante da adoção de mensagens de desobediência civil, de beatniks, de filosofias orientais de amor e paz, de músicas de Beatles e Rolling Stones, de moda descontraída; os sinais apontam para algo mais contundente, pois os jovens estão mais exigentes, e como a sociedade demora ou não os satisfaz, há mais focos de ansiedade, contrariedade e insatisfação. O estouro dependerá da força do estímulo que for causado a nível pessoal ou coletivo.  Enquanto a juventude fica contida, a revolta fica no silêncio ensurdecedor e nos atos pequenos da vida particular.      
Quem instigou o estabelecimento de maus valores e princípios através de meios subliminares nas décadas do pós–guerra, com a justificativa de necessidade de democratização e liberdade deveria monitorar os resultados e estar atento aos sinais que vem da manada. Mas não o faz, porque está sistematicamente focado no Poder e nas movimentações políticas. Por tal motivo, não antevê nada; nem a previsão do tempo com precisão. Se tem plena ciência do que está acontecendo, deixa solto e nada fala porque talvez ideologicamente lhe beneficiará. Quem está e sempre esteve por trás de tudo isto? Ou tudo isto foi se formando por si só? Tudo leva a crer que grupo de arquitetos criadores perdeu o controle de seus filhotes e capacidade de crítica, pelo que se surpreende a cada manifestação como qualquer um .
 Assim é que na década de 60, a mídia achava tudo bonito e entrava na onda, pois garantia o seu caixa gordo e o comércio. Ninguém deu muita atenção à chegada da droga no país, o começo com boletas de anfetaminas parecia algo divertido e para poucos e o que temos hoje? Ninguém viu as consequências do tabaco e álcool a longo prazo e no que deu isto?   Em 1971 não previram as colossais revoltas contra a Guerra do Vietnã; não previram a primavera árabe, iniciada por uma jovem e seu celular, do mesmo modo que são e foram incapazes de antecipar movimentos em vários países nos quais a juventude tem se mostrado mais revoltada e poderosa. Há uma crescente de manifestações populares jovens em todo o mundo, todavia ainda sufocadas pela polícia, a qual se mostra cada vez mais insuficiente. As simples pichações de muros e casas já mandavam mensagens de uma nova mentalidade e de tendências que não foram lidas. Será que pichações com “Vamos invadir tudo!” não queriam dizer nada. A questão é quando, como e onde as manifestações vão se tornar incontroláveis. Já se viu acontecer que a elevação de centavos em algum serviço público foi capaz de desencadear revoltas desproporcionais como ocorreu em 2013 a partir de São Paulo, num movimento que acordou as massas hipnotizadas e culminou com a queda de um regime inteiro anos após. 
Por hora, o que se observa é que os movimentos levam para a rua jovens revoltados com situações pessoais, uma revolução silenciosa que em parte só pode ser dissipada com o aumento da idade e as respostas positivas que a sociedade possa dar em termos de emprego e melhorias econômicas, mas a tendência é de revolta. A motivação é em grande maioria alheia à motivação política de esquerda ou direita, porque o jovem está pouco ligando para isto, já que sua cabeça está mais voltada a ver a realização no mundo de sua nova mentalidade, dos desejos e vontades que lhes incutiram, dos resultados dos valores e princípios que o construíram internamente e para os quais não conseguem identificar possibilidades nos padrões e modelos formais do chamado “sistema”. Considerando que a juventude foi estendida até os 30 anos e a entrada no mercado de trabalho postergada, temos um reforço no número de jovens potencialmente revoltosos para engrossar manifestações, as quais têm surgido com mais frequência, diante de eventos de contrariedade, promovidas contra seus sonhos e projetos de vida.
O fato é que as gerações de jovens que usufruirão do mundo são diferentes e possuem objetivos diferentes pelo que os modelos e padrões até agora vigentes passam a ser vistos por elas como incompetentes para o mundo idealizado. A renovação já está em andamento e veremos, por enquanto, crescentes reações à medida que o “Poder” não venha a atender os padrões e modelos dos jovens; haverá manifestações coletivas cada vez mais contundentes e de certo modo cínicas e ignorantes quando desprendidas da racionalidade mínima. Antes era: quanto menos Educação, mais manipulação; hoje e amanhã , quanto menos Educação, mais confusão.
Seja lá como for, em 20, 30 anos, as novas gerações estarão no comando com suas decisões e mentalidade. E esta que começou a ser montada no pós-guerra foi turbinada a partir dos anos 80 pela tecnologia virtual.  Nunca a juventude teve a seu dispor tantos elementos de mudança e união como atualmente. E aparentemente os meios de comunicação, analistas etc., não estão lendo o ruído do silêncio existente. Uma nova “generation gap” está em andamento e os políticos, a imprensa etc. não estão lendo os sinais porque continuam anestesiados e estão sempre cuidando de seus umbigos, esquecendo da gestação que está em curso. A imprensa e o governo ainda serão  tomados de surpresa por muitas reações populares.
O fato é que esta juventude é diferente em tempos diferentes. Produto de novos tempos, ela parece não ser filha de seus pais, mas produto de si mesma, com princípios e valores adquiridos do mundo virtual que a captou. Como em tudo, há o lado positivo e o negativo, mas a Educação formal continua falha e o papel da família não é o mesmo. Como em todas épocas, há desafios e nem tudo será caos e desastre, mas dependendo das particularidades de cada país, ainda veremos muito no campo da transição, pois a contrariedade é forte e persistente e a ignorância e a falta de esclarecimento são espoletas perigosas. 
No caldo em que isto se desenvolve, há uma diversidade muito grande de novas realidades, que se entrelaçam formando causas jamais vistas pela humanidade. De mais grave, repita-se que se identificam sinais de revolta pessoal, devido à inconsciência permeada por lampejos de consciência, quanto às impossibilidades existenciais de concretizar sonhos e projetos pessoais; demanda reprimida por chances e oportunidades; limitação educacional; benefícios e malefícios do contato,via informática, com países do primeiro mundo e o crescente sentimento de distanciamento, diferenças e atraso em quase tudo face ao processo histórico de evolução social; sensação de dependência presente e futura; contato com pensamentos e estágios mais avançados da humanidade, o que cria exigências e sonhos, que o país demorará a atender face o seu estágio atrasado de desenvolvimento; efeito de ter Paris na cabeça, para pensar, e o Brasil nos pés, para andar; recorrente  desconfiança quanto às autoridades e Justiça, com crescente desinteresse pela participação na política como meio democrático, contrastando com a ansiedade , agitação mental e expectativa por ações que o Brasil não irá dar na mesma intensidade desejada,o que é reflexo da ideia passada de esperar soluções de cima; desvio e distração do mundo real, protelando cada vez mais o enfrentamento da realidade; recusa de participar em subemprego e ambientes de trabalho sem dignidade;quem pode e tem preparo está deixando o país; falta de persistência; impaciência para percorrer carreiras profissionais de longo prazo; tendência a procurar dinheiro rápido; quem fica, recusa repetir padrões e modelos que aos poucos se revelam como ineficientes para fazer face ao futuro, o que leva à alienação e repugnância quanto aos assuntos da política e Governo, vistos como algo impuro e desonesto, e que fizeram o atraso e danos para o futuro; abandono do patrimonialismo; exposição ao negativismo, etc; nunca se pode esquecer a pressão econômica e as demandas reprimidas em cada jovem como fatores de motivação para o bom ou mal  uso dos meios de informática.  Certamente, o mais provável é que não haja um estímulo suficiente para criar uma convulsão generalizada de fundo, pelo que o país continuará no seu tranco rotineiro. O país sempre continuou como sempre, arrastando-se, perdendo oportunidades, energia; o progresso material que foi sendo alcançado nunca foi o que deveria ser. Com pensamento negativo, sempre haverá desarmonia e mediocridade; as consequências ficam diluídas pela inconsciência, derrotismo, falta de esclarecimento e pelo gigantismo territorial.    
Muitos são os aspectos da realidade que indicam que o jovem de hoje tem mais motivos e mais recursos para provocar mobilização em defesa de seus sonhos para o mundo. Uma juventude mais ansiosa, impaciente, intolerante com um alto de grau de autoritarismo recolhido, pode, a qualquer momento, sair às ruas atendendo a um chamado do “twitter” e logo forma-se uma multidão que vai desabafar,contra a polícia, mil razões pessoais e coletivas.
Começa-se a sentir no dia a dia os efeitos dos “mestres invisíveis”. Diante do arcabouço ideológico impingido ou não, surgiu uma nova mentalidade nos jovens e eles vão à luta para fazer a realidade de acordo com seus sonhos, sejam eles quais forem.
Em síntese, se o Governo se preocupa tanto com meios materiais, que passe a interpretar a nova mentalidade, pois ela forçará a mudança radical dos modos de produzir-vender e consumir, tudo de acordo com o novo modo de sentir-pensar e agir.  Antigas estruturas privadas ou públicas começam a se tornar ineficientes e nenhum poder conservador irá ter sucesso. Meios e modos da política já se revelam obsoletos e atiçam a raiva popular. Muitos são os sinais, poucos são os que estão identificando e interpretando as mensagens que estão vindo da juventude.  A falta de Educação formal de qualidade e o correto esclarecimento formam um caldo errado para a democracia e para os ímpetos de liberdade. Dependendo do evento, a selvageria é a expressão única de união possível.
Para muitos distraídos pela vida do dia a dia político e econômico, nada está ocorrendo, pelo que a juventude segue clamando no deserto e seu silêncio está cada vez mais barulhento.      
A realidade dos erros passados e a manutenção de meios e sistemas sem atualização não aparece claramente porque o país é mantido pequeno. Não é uma sociedade para todos.  Somente num ambiente de progresso econômico e demanda por mão de obra é que verdades virão à tona claramente. Como o país não costuma dedicar-se ao invisível; padece; não pensa a longo prazo. Se sinais são dados, são menosprezados e o país come com farofa o futuro, já de mau gosto, isto já não passa tão desapercebido como antes pelos jovens.   

Odilon Reinhardt. 3.11.2019.