Hora de muito discurso,
tudo bonito, coerente e popular,
tudo de boa e estudada lavra em curso.
Muita promessa, muito plano,
candidatos e seus sonhos;
o Tesouro com saldo irreal para o ano.
De repente todos tem interesse público,
querem acabar com todas as mazelas,
defeitos, consertar o mundo público ao governar.
O candidato a governador tem projetos de vereadores,
o para presidente perde-se na maionese,
o para senador
nem sabe sobre o caldeirão da dores.
Na ordem do dia: tramas,
traições, ataques, muito desvio de verba,
a vida vai contando suas lamas.
O ego tem seu festival de ações malvadas
com orgulho, vaidade, cobiça, ganância etc.,
talvez uma a menos de suas milhões de rodadas.
Depois, tudo é mandado às favas,
ninguém lembra de mais nada,
e a democracia continua com suas palavras.
Viram mirabolantes as visões de melhoria,
coerentes como o desejo popular,
o mundo prometido sem carestia.
Um mundo novo, melhor, honesto,
cheio de pureza e humanidade,
shows e debates de boas ideias, luz e todo o resto.
De pessoal interesse
para o espírito realmente público
ainda falta muito interesse.
Lenta evolução a cada passo de timidez,
assim vai a nossa Humanidade aqui,
muito, talvez esperando algum dia a sua vez.
Lá em Maracangalha
agora surgem os homens da panaceia, os que vão de
vilarejo em vilarejo com sua carrocinha de produtos para melhorar tudo. Todos darão solução para todos os problemas de todos.
É a hora do ser-solução, o super-herói
do discurso cheio de palavras bonitas e
cativantes, todavia acaciano, vazio. Momento para o megalomaníaco vestido de
povo. O egoísta vestido de santinho.
Agora surgem os homens que falam o que o povo quer
escutar para preencher a esperança de que tudo vai ser diferente; sonhos de que haverá um novo alento, um ar elevado
e diferente para afastar tudo que estava errado . Todos querem mudar o país.
Agora não haverá mais corrupção nem as mazelas sociais
decorrentes de décadas de analfabetismo diversificado, endêmico e estrutural.
Agora tudo vai.
Todos os esquemas serão santos e puros. Só haverá boas
intenções e o ego irá se render. Afinal, Deus é daqui, é nacional.
Cessarão todos os meios de lavagem de dinheiro ; o
caixa 2, 3, 4... não existirá mais. Todo recém-nascido será chamado de Honesto.
Os bandidos e farsantes irão cessar suas atividades e
adotar o Bem como sistema de vida. Os meios virtuais e seus mecanismos serão só
utilizados para ajudar o Próximo. Será decretada a morte nacional dos
interesses escusos.
E assim seguem os candidatos a nobres, em palácios
pagos pelos impostos, discursando para seu próprio cercadinho, convencendo
os já convencidos. O resto é a mídia que
faz ou desfaz no perder ou ganhar o passaporte para o sonhado “agora eu vou me
fazer”.
Maracangalha será enfim a sonhada terra de leite e mel.
Novos tempos .
E o cidadão normal acreditará em tudo e todos. Assim
ninguém mais será manipulado e objeto de trapaça e golpes, pois tudo virará
passado, impune e santificado. O tecnocrata doravante considerará todos os
aspectos sistêmicos na implantação de planos estaduais e nacionais e propostas de lei. A lei não será objeto de riso e de comentários
como “ essa lei não pegou”.
E um diz: eu vou implantar ....., eu vou fazer...... o
outro diz: eu vou mudar....., eu vou eliminar.....Eu vou...., eu vou. Quem
manda nesse “eu”? Depois, em Maracangalha, nada acontece, porque não é para
acontecer.
Todos querem, conforme suas utopias pessoais, mudar a
Maracangalha , mas ela sempre fica no mesmo lugar, mormente quando os movimentos de direita e esquerda , em jogo de cabo de guerra,
impedem o ir para a frente.
Mas como sempre logo o povo esquecerá tudo. Em poucas
semanas, os interesses comezinhos prevalecerão e tudo voltará à rotina porque
em Maracangalha, a maior atividade intelectual é a esperança e a fé, que movem
montanhas, fazendo esquecer a semana passada , as dívidas e a vida precária.
Mas quem tem que lembrar , no passado eleitoreiro tudo e todos foram em vibe muito pior.
Odilon Reinhardt 3.10.2026