segunda-feira, 3 de novembro de 2025

À Margem?

 




À margem?

  

 

               Esta aí para se ver.

 

Imprudência,

negligência,

imperícia;

vulgarizadas.

 

Desqualificação,

despreparo;

banalizados.

 

Consequências ,

sensacionalismo ;

publicados.

 

Causas ,

fontes;

menosprezadas.

 

Num contexto diversificado,

pelo total da obra;

o cidadão desequilibrado.

 

O país doente,

o indivíduo como centro 

fazendo o dia com enganosa mente.

 

Em muita cabeça

um vulcão

capaz de eclodir sem surpresa.

 

Mas não explode, implode,

fica reprimido em atos diários

onde o terrorismo se esconde.

 

Atos de autodestruição,

violências contra o Próximo,    

vontade de detonar a organização;

 

adulterar leite, falsificar remédios, combustíveis,

roubar fiação de escola e posto de saúde,

não são atos terroristas puníveis? Aqui não.

 

Quantos não tem raiva na cabeça.

esperando a oportunidade

de dar vazão a sua desgraça? 

 

Mas tudo é desconsiderado,

vale o caso individual, exceção,

“o cara era desequilibrado”, e tal.

 

Desculpas mascaradas

sempre convenientes

e os danos e as vítimas encarceradas.

 

A mídia relativiza e considera tudo como exceção,

sustenta-se no sensacionalismo;

o pensar é feito pela teoria da conspiração.

 

A quem aproveita tal condicionamento

senão a alienação por saturamento

do cidadão que se aliena e foge do envolvimento.

 

 

 

Falando em evolução democrática, dois séculos de autoritarismo como modelo de liderança para qualquer nível, não podem ser desfeitos em pouco tempo. Trabalho lento de desconstituição da distopia, para que a realidade vá se ajustando aos modelos mais livres de debate sobre como ajeitar os instrumentos da vida para que sejam conduzidos por estrutura forte e consolidada a favor da democracia como jeito de ser e agir. Por enquanto, muito show na vida privada e pública, denotando que ainda há muito a ser feito do lar até o palácio.

 

O dever-ser do Direito, a lei e a Justiça fazem a espinha dorsal para apoio dos ganhos na batalha pela democracia e liberdade.  São instrumentos que garantem a igualdade perante a lei. Todo o sistema jurídico guarda em si os ganhos da sociedade no avanço para liberdade e respeito à natureza humana.

 

Contra tal vontade coletiva, militam a educação formal deficitária ou inexistente que dificulta a compreensão do sistema, da estrutura formal deste e do  vocabulário ali utilizado, que jamais será popularizado, pelo que só será compreensível através do estudo e leitura. Diante da quase inacessibilidade pela grande maioria, há uma realidade formal, estrutural que atua em paralelo a uma realidade da vida do dia a dia, tocada livremente, até de um modo anárquico, já que as condições do mercado permitem qualquer iniciativa sem o mínimo de conhecimento e instrução; uma economia paralela e poderes locais com liderança armada. Tudo dá certo até o momento em que não dê mais, geralmente logo após o mundo da realidade formal acordar ou reagir à bala.

 

A vida à margem do mundo formal parece ser a regra. Assim é parte da economia, assim é a vida das famílias, seu modo de vida, sua estrutura, suas bagunças conjugais. Nada legalizado, nada de acordo com a lei. É a alienação por ignorância, por falta de discernimento. Berço para o ego animalesco que dita as regras impulsivas para ação e reação, acarretando muitos efeitos na pessoa.

 

Nossos maiores feitos históricos ocorreram sem qualquer ciência pela população, que não participava do mundo da realidade formal, o que ainda hoje é o que ocorre. Desnecessário dizer que tais feitos tinham dentro de si o autoritarismo do sistema militar, sendo os militares as pessoas mais preparadas intelectualmente para tomar decisões e ordenar.  Não podemos negar, que as raízes do mundo formal estão conectadas ao autoritarismo de dois séculos. Logo após o regime militar, muitos recursos financeiros do exterior só eram entregues ao Brasil se no contrato houvesse cláusula ela qual a empresa pública ou de economia mista se comprometesse a implementar programa de democratização da liderança empresarial com sistemas e instrumentos gerenciais correspondentes. 

 

Com a pouca democracia que temos conquistado, já flexibilizamos muito os  modelos gerencias de inspiração militar.  Hoje em alguns casos, o sistema formal quando dirigido pelo autoritarismo recebe prontamente a crítica e a rejeição. E tal reação não vem só das pessoas do mundo formal, mas também da grande maioria que não tolera a falta de liberdade.

 

Mesmo que haja vários entraves que atrasam a democratização familiar, empresarial e governamental, o senso comum é repelir a falta de democracia, ,principalmente pelas novas gerações, hoje muito mais livres, embora mal orientadas quanto aos vários aspectos da vida.

 

Contra as formas de autoritarismo, há reação correspondente à falta de discernimento e consciência, pelo que as manifestações populares podem ir da não-participação à demonstração violenta, quebrando ruas e comércio, penalizando diretamente os iguais e não o autoritário.

 

Mas o que preocupa mesmo é a forma de reação individual de revolta contida, que pode aparecer no relacionamento pessoal, na família, nas decisões impensadas do empresário e autoridade, na revolta do adolescente, no político, no projetista de obra pública, no cozinheiro de restaurante, etc. É a reação pessoal por um ego contrariado no pessoal e no coletivo, que anda na mente das pessoas, cada uma um vulcão prestes a explodir.

 

É esta célula da sociedade que mantem o autoritarismo vivo com meio de afirmação pessoal para sobreviver. Máscara de alienado, mas por dentro um potencial terrorista indo contra o próprio corpo ou contra o Próximo, tido como bode expiatório para uma errada visão de mundo, resultado da mesma falta de luz, discernimento. Animal contra animal, usando as melhores inovações da tecnologia ou não.

 

Ninguém vive à margem. Todos têm um grau de insatisfação e diferentes modos de reagir. O mais perigoso é o silêncio como falsa expressão de uma mente insatisfeita com o conjunto da obra, vendo o mundo pela ótica da conspiração. Há várias máscaras para tal propósito. 

 

Difícil emaranhado para ser resolvido com medidas de bem estar coletivo na atual etapa de evolução.  Negligência, imprudência, imperícia,  talvez ,não sejam só falta de preparo técnico, pois têm muito a haver com o estado emocional de cada um, o que pode estar no modo autodestrutivo ou de vingança contra o social, a dita raiva social; potencialmente, o terror latente em cada caso, seja familiar ou social.

 

Nesse contexto, nossos meios de resolver conflito é calar qualquer tipo de  opositor, visível ou invisível; é precário, quando resolvido pela Winchester e o Colt; é desumano, quando pelo vocabulário de ódio, rejeição e cancelamento; é prepotente quando a estrutura político-formal é usada para bloquear a individualidade do cidadão pelo simples jogo de poder do mais forte, seja por decisão monocrática ou pela maioria ou não.   

 

Tudo promovido de cidadão contra cidadão, todos marchando direita e esquerda sem ir para a frente no tempo desejado. A democracia ainda vem de fora para dentro por imposição legal, a inversão só virá como tempo. Por enquanto, só as consequências tomadas por causa.

 

Um motorista de caminhão, desleixado por problemas pessoais, causa acidente matando várias pessoas, não é um terrorista? Não aqui, não há conotação política, sua condenação poderá levar o fator pessoal, seu estado psicológico  e ódios pessoais como atenuantes. Mas no fundo, o dano causado tem base ideológica. No mesmo sentido, uma pessoa que aplica grandes golpes, afetando a vida de muitas pessoas e empresas não é um terrorista, mas cria terror. 

Na banalização e vulgarização da imprudência, negligência, imperícia e violência física e mental pode estar a raiva social, uma espécie de terrorismo que ainda não é levado em conta.

 3.11.2025 Odilon Reinhardt.

 

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Ela está ainda lactente II

 


 

 





Ela está ainda lactente II.




Cacos escolhidos

 

 

pela realidade televisiva,

coletânea de pontas de iceberg,

pedaços da vida ativa;

 

a mídia não faz notícia,

mas escolhe cacos sensacionais

para invadir a casa alheia todo dia;

 

que tipo de visão de mundo,

produz o show de distorcidas exceções

que nunca vai em nada a fundo?

 

A perturbação da vida comum,

agitação estressante do caleidoscópio,

inevitável ataque a mente de cada um;

 

resulta no desligar,

na alienação ou revolta, pessimismo; 

mas fim de pelo menos uma fonte do manipular.

 

No que isso contribui

para o processo democrático

nessa etapa que surgiu?

 

Superficialidade

para o discernimento sofrível,

qual a verdadeira realidade?

 

 

E é no campo das conversas que tudo se intensifica com a miséria intelectual dos conteúdos vazios. A pobreza intelectual campeia. O tema da conversa e o seu desenvolver, a superficialidade explícita. A simplicidade mora na virtude, mas não nesse tipo de simples ignorante e obscuro que vai do futebol, carros e qualidade de cerveja como campo onde os intelectos hodiernos se encontram. Aqui não existe “jogar conversa fora”, pois a conversa já nasce jogada. Realidade que é transferida para outros locais oficiais ou não, onde o diálogo é todo mascarado por interesses umbilicais, cheio de segundas intenções e coberto pelos cabrestos e máscaras do dia.

 

Tal realidade, gerada pelas pessoas em mal vida, é transferida para vários locais, sendo a oficial a mais televisionada, onde a política aberta, revela o amontoado de interesses pessoais, colocados e impulsionados por totalitarismo autêntico, de raiz nascida do popular, construção egóica, modo de vida e poder em qualquer lugar.

 

Sua prática diária vive da violência impulsiva do ego de cada um;  exprime-se bem à vontade na inflexibilidade, intolerância, preconceito, conservadorismo e faz o radicalismo das ações e reações no ato de evitar debate e discussão, diálogo que exponha a contrariedade.  É a democracia da maioria egóica que anda do bar à fábrica, da casa ao palácio, da cozinha à cama, da buzinada ao xingamento e cala-boca.

 

O processo de diálogo é conduzido pelos interesses em jogo. Se o interesse é defender um assunto de esquemas de poder e seu financiamento etc., o poder se manifesta e bloqueia por vários meios qualquer oposição ou escamoteia o processo de debate , usando modos indiretos de imposição, inclusive a distração do  boi-de-piranha. De certo modo, para quê democracia quando o objetivo é legalizar interesses privados?

 

Aqui os relacionamentos são superficiais e se aprofundados tornam-se tóxicos, pois logo surge a contrariedade. Tem guerra até na sacristia. A convivência é difícil e leva à alienação ou à violência. Mesmo o silêncio é uma violência quando feito com barulho interno, frustração, revolta engolida e reprimida, que certamente espera a oportunidade de revanche.

 

Dizem que o país não é para amadores, tal a complexidade que se lhe atribui no entrelaçamento dos interesses, onde a grande maioria esmorece diante das iniquidades, mas alguns se aproveitam e são bem ativos. Talvez a democracia para poucos no mundo formal e bem produtivo.

 

A vitrine mais popular do exercício democrático é a vida política nas casas legislativas, pois é passível de cobertura televisiva, todavia, qual os cacos no caleidoscópio, onde lá lapsos de progresso, mesmo que a visão seja geral e superficial, cabendo a cada cidadão tirar sua impressão. Quanto ao processo democrático nas relações diárias dos interesses comezinhos, o processo é muito mais tosco e rude, marcado pelo encontro entre egos e geralmente resolvido na imposição e violência física e moral.

 

Eis a democracia em seu berço, choramingando, mas com muito a vencer. Dizia Nelson Rodrigues, que o Brasil conhecerá a selvageria antes da civilização. Talvez radical, mas verdadeiro. Do índio ao astronauta, ainda temos muitas realidades democráticas sofríveis, mas em avanço. É a fase de transição do rural para o urbano, do rude para o sutil. Pode levar muitas dezenas de décadas.

 

Duro de ver, de aguentar, de pensar, mas é a etapa do processo. Aguentemos,  pois já foi bem pior. Hoje vemos o roto perseguindo o esfarrapado pelos caminhos da vida medíocre, mas ambos pensando ser a expressão mais elevada da rua ainda em macadame e barro.

 

Ad astra per áspera. Aqui o debate, perguntas, pedidos de esclarecimento,   discussão é sinônimo de oposição, preparada ou não, sendo punida com cancelamento, seja lá onde for. Mas a democracia, mesmo assim, é a melhor via. Aqui está ainda lactente. Vamos fazê-la crescer e prosperar no tempo, pelos tempos e com o tempo. Não há alternativa melhor.

 

É então, a democracia que estamos construindo, a democracia na base social , nas relações pessoais, nas  situações do dia a dia onde há interesses diversos, e feita, muitas vezes, com a linguagem não adequada, mas expressão do povo que temos e sua educação deficitária.

 

Essa realidade aparece no discernimento  político e geral. O elemento  humano é na grande maioria da mesma base e alimenta a direita, a esquerda e o centro com o mesmo fundo de preparo e despreparo.  

 

Milhares de exemplos poderiam ser citados. Desnecessário, pois é o dia a dia do condomínio, da vizinhança, da Câmara à Assembleia, desta ao Congresso,  da escola à Faculdade. Em tudo, aparece o rude, o bruto, a inflexibilidade, a intolerância, o radicalismo, a intransigência nas relações humanas.

 

É a fase em que estamos, aguentemos um dia passa, passamos.  

 

 Odilon Reinhardt-3.10.25

  

 

   

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Ela está ainda lactente.

 









Ela está ainda lactente.

 

 

 

Hoje,

se digo isso.

Deletado, Cancelado!

 

Se defendo isso.

Rejeitado!

 

Se penso isso .

Excluído!

 

Se sinto isso.

Ridicularizado!

 

Eis o superficialismo

que vive sem debate,

um tipo de antropofagismo.

 

Sem razões expostas

devido ao encontro de egos,

as pessoas evitam polêmicas e respostas.

 

O cala boca virtual

no tempo das imagens e comunicação

tudo dando sinal.

 

É mais fácil descartar

cancelar, excluir, rejeitar em silêncio,

é o processo do pensamento se degradar.

 

Basta uma cor, um gesto, uma palavra de expressão,

aquela que esteja proibida por alguns,

e encerra-se qualquer lavra em execução.

 

O politicamente correto,

cada vez mais amplo, pobre e vil,

imposto de modo nem sempre discreto.

 

Eis o diálogo

fechado, no pensar do ler e do escutar,

reduzido a solitário monólogo.

 

Cada um com suas razões

imutáveis, herméticas.

Pouco interessa o Outro e suas opiniões. 

 

O consenso coletivo restringido

limitado ao pobre conversar

de pessoas sós no dia constrangido.

 

Que ditadura silenciosa e pessoal existe

que foi imposta pelos coexistentes dos tempos atuais

e que a todos atinge e de ninguém desiste?

 

Já tivemos tempos quase iguais na boca e pele.

O que você acha? Nada !

Meu amigo achou e nunca mais acharam ele!.

 

Hoje seria:

O que você disse, escreveu ou fez? Nada!.

Meu amigo fez e desfizeram ele!

 

 

 

Acontece diariamente em qualquer lugar a qualquer momento: eu é que mando! Eu quero assim! Não interessa o que você pensa ou quer, faça assim! Eu é que pago, faça e cala a boca! Quem é o chefe aqui?! E ainda pior: Eu penso assim e o resto não interessa! Já foi, se colar, colou! Você vem com esse blá-blá-blá! Você e esse nhennhennhen! (desde o tempo Tupi, contra a demagogia do invasor.). Expressões todas que indicam o nível de participação do Semelhante, mas nem sempre tão explicitamente verbalizadas. Há muitos modos de demonstrar tal poder, todos amoldam-se ,  da mesa de casa à do bar, do chão da fábrica à sala de reuniões.

Sempre o campo dos monólogos, com reuniões de um falante e outros engolindo a seco. O debate, se existir, é pouco produtivo e geralmente descamba para confusão com fortes indícios de afrontamento.   Eis uma pequena demonstração do processo de Poder entre nós. Sempre uma decisão já aprontada nos bastidores, submetida proforma aos seguidores, numa na verdade  comunicação  urbi et orbi.

Esse é o processo que ocorre hodiernamente de pessoa a pessoa, entre instituições, entre empresas. Quase tudo sob o mando de uma quebradiça realidade que a qualquer momento diante da contrariedade e/ou frustração pode descambar para o embrutecimento com muita falta de vocabulário mais elevado, registrando a falta de intelecto falta de educação familiar e escolar etc. Um ambiente permanentemente dissimulado com sorrisos interesseiros onde há pessoas sabotadas por outras mais impulsivas, esperando o momento de terem suas opiniões acolhidas. Basta um não e a reação é egoística, cheia de violência física ou moral, em qualquer caso verbal .

É o ambiente para a falsidade social, a hipocrisia e muito fingimento onde os mais expertos se impõem até com certa facilidade, já que o medo de confronto por parte dos demais.

 Destarte, não é incomum escutar-se: “Alguém tem alguma pergunta!” “Alguém tem algo em contrário? ” , “ Há perguntas ?” e o que vemos é um silêncio. Isso é comum em reuniões; revela o monólogo e a mera comunicação do decidido com unanimidade dos bastidores, símbolo do sucesso da democracia de um. Afinal “ in Illo, uno Unum! ” . Tenho dito! Encerrada a reunião, sessão, etc!

Assim crescem as pessoas, a empresa, a família, a associação; sempre com poucas palavras e muitas decisões sem discussão. Está no sangue do país, na raiz, geometricamente acomodada à ignorância, impossibilidade do participar e/ou avançado desinteresse em fazê-lo.

E todos louvam e aclamam o modelo simbólico de “o camelo ter sido o resultado de uma comissão para inventar um cavalo”. Assim, nascem as ordens domésticas, os regulamentos, os estatutos, as normas, as instruções, as portarias, os decretos, a lei, todos sob o silêncio da maioria num país que se dá ao luxo de dizer que “essa lei não pegou.”

O fracasso do processo de diálogo é visível, concreto e as consequências marcantes. De uma simples reunião de condomínio aos mais altos sítios da legislatura e decisão, o processo é recheado por deficiências, corrupção, ajeitamento de interesses pessoais e defesas de interesses bem discutíveis quanto a honestidade e fim público. 

Tudo favorece o campo para tecnocratas, ditadores de balcão, malfeitores, autocratas, etc., todos arautos e propalados conhecedores da vontade popular. 

Eis o processo democrático ainda na fase lactante, o possível, em face de aperfeiçoamentos, com muitos nós e amarras calculados e bem plantados. Como será a adolescência?

Por enquanto, é só uma tentativa de mudança de paradigma. Ainda por meio de gritos, desfazimentos, impulsividade, muito palavrão e inflexibilidade, abuso de poder e muita fake news.  É uma ampliação barata da brutalidade pessoal, expressão da miséria intelectual e onde monossílabos dançam solitários entre o sim e o não ou em frases curtas que resumem posições fechadas, pétreas ou ainda em opiniões de frases sintéticas que geralmente arrepiam a sintaxe. Verdade de cada um, inflexíveis, intolerantes, radicais, mal pensadas, mas verdades defensáveis com impulsividade e se possível violência física e moral, como forma de imposição, autoafirmação e muita vontade de nunca perder. Nesse contexto , todo tipo de “ismo” distorcido floresce: machismo, feminismo, etc...( a continuar)

  

Odilon Reinhardt 3.9.2025


domingo, 3 de agosto de 2025

Causa raiz








                                                     Causa raiz  

 

 

A causa com consequências

que viraram causa

e teve mais consequências,

que foram tomadas por causa

e ainda mais consequências.

 

Tudo numa ininterrupta sequência

que obliterou a causa primeira,

agora já tão longe da consciência,

mas permeando a vida inteira.

 

Verdadeiro pano de fundo

no teatro do dia a dia,

mas invisível no sentido profundo

que se esconde na agonia.

 

Fala-se em raiz,

canção raiz, cultura raiz,

e esquecem da realidade atual e sua raiz

a causa raiz. ,

 

A raiz que está na causa de tudo isso

que  a cegueira não deixa ver

e que força a realidade

a acreditar o que não é e no que ainda vai ter. 

 

Com muita pieguice, pequenez,

ideias chinfrins, valores discutíveis,

estamos nos jogando fora cada vez,

onde vamos com passos sofríveis? 

 

Fazendo causa e consequência,

atolando na ignorância e escuridão,

fazendo o presente sem consciência

uma euforia em ação e reação?

 

Com o passar do tempo fica longe a possibilidade

de identificar a causa raiz

tal o emaranhado existente na realidade.

 

Desafio até para os pensadores,

bons intelectuais e cientistas

cuja quantidade diminui a números atormentadores.

 

 

Difícil emaranhado é o cipoal de causas e consequências que embaraçam a visão da realidade de aparência desconcertante. A análise superficial leva à aparência de caos e desordem, visão compartilhada pela maioria e por idosos, que não podendo explicar o cenário, recorrem a ligeiros comentários sobre o antigamente e o agora em decepcionante e enganosa impressão degenerativa.

 

No entanto, a realidade em continua construção tem a tendência de objetivar o melhor, porque o Mal nunca vence, embora nunca se saiba por quanto tempo fará o durante de sua permanência. O processo implica resiliência por parte de várias gerações me trânsito.

 

Se compararmos qualquer setor ao longo da História, seja por dados ou fotos, tudo tem melhorado, nada do antigo deixou de ser um tijolo na construção de alguma realidade melhor. Mas é o durante que precisa ser aguentado, pois é a agitação, o aparente caos, a confusão que não permite identificar o que está sendo edificado. Tudo parece a construção de um prédio na fase de escavação, a fase de fundações em que os pedreiros e passantes não podem vislumbrar o que está sendo construído. Diante a aparente desordem, se questionados, nada podem identificar ou esclarecer muito menos explicar, muito mais se considerarmos o baixo nível de discernimento decorrente da falta de esclarecimento advindo da falta de boa educação formal.

 

E nesse contexto, qual a contribuição das redes sociais e mídia em geral para a formação da ideia de confusão, muito intoxicada  pelo sensacionalismo e uso de tendências políticas e ideológicas?  Tudo faz um caleidoscópio, de realidades distintas e inacessíveis embaçando a visão popular, ocupando nossos intelectuais midiáticos, desviando de uma análise filosófica e mais bem estruturada, mas privilegiando escolhas de temas diários e favorecendo bois de piranhas mesmo porque tudo que aparece nas milhões de telas compõe um enorme desfile de pontas de iceberg , suscitando narrativas apressadas e jogos de palavras com muita manipulação.

Quanto dessa realidade tendenciosa que contrasta com a realidade da vida individual  a contamina? Como condiciona a opinião pessoal e coletiva? 

Mas isso está longe de ser causa raiz de qualquer realidade. Tampouco causa do circo de impressões, boas ou más, pois em verdade, milhares de pessoas já viraram as costas para tudo isso, trocando de canal, desligando o celular ou negando diálogo, para manter  sua opinião que é sempre uma defeituosa síntese de que nada leva a nada, tudo dá em pizza, depois de jogadas processuais, anulações por erros formais ou negociatas político-partidárias. Derretida a ponta do iceberg, nada mais aparece e está salva a aparência, passando a ser um mero detalhe. 

A realidade pessoal verdadeira continua, é feita e vivida por todos na individualidade da carestia. Tal realidade não tem pausa, não é desligada nos fins de semana e feriados. Só para mencionar, sendo atual, uma causa que vem se desenrolando há mais de 20 anos é o desmotivar o empreendedorismo. Não é causa raiz, é consequência e gera muitas causas e consequências. Ninguém é obrigado a empreender, pode fechar a empresa e simplesmente cruzar os braços.  

E num país assim em construção, quem e como é analisada tal realidade, que aparece em estatísticas, divulgadas para as mesmas pessoas que são incapazes de discernir ou para quem o discernimento em nada contribui para o bolso? E se houvesse possibilidade de análise profunda em busca da causa raiz ou de qualquer outra, o que fariam as pessoas com as conclusões, num mundo em que quem discorda é cancelado, debochado, rejeitado, onde nem há lugar para um debate mais estruturado e onde pessoas mantém diálogos superficiais que são meros monólogos radicais, inflexíveis, intolerantes, impacientes com palavras surdas e rápidas.

E a causa raiz? Será uma ou serão várias? Seriam históricas, educacionais, culturais, econômicas? Com que método penetraríamos na quiçaça dominante para chegar à origem?

Talvez o país tenha perdido suas causas, todas, antigas e atuais, e a causa raiz tenha ficado ultrapassada e já impossível de ser erradicada.

 

A causa raiz passou a fazer parte do DNA do país? Não há mais tempo para eliminá-la. No tempo atual mal se consegue lidar com as consequências-causas que estão fazendo a realidade ficar cinza para muitos.  

 

E quem sabe da causa raiz, não a revela mais, pois a nossa democracia midiática nada aceitaria e o cancelamento seria imediato. Todavia, tal sabedoria não se apaga da mente do  pensador que deve se contentar em poder explicar toda a maçaroca da atualidade para si mesmo. O nó é górdio. A vida está embrulhada no pacote e a população exposta ao que vem construindo. Direita ou esquerda e ninguém vai para frente. Muita energia para um passo tímido, mas o país vai indo pelo material. Muitas avenidas novas e iluminadas. Espero que em algum lugar a causa raiz não aflore com tanta periculosidade, interrompa tudo e revele o que foi há longo tempo esquecido sendo prioritário.

 

A fase é a mesma que outras terras já passaram, muita agitação e pouca estabilidade, típico do país ex-colônia ainda em construção. Realidades se cruzam e se sobrepõem, dando ideia de devaneios e desesperanças, mas há um rumo sendo seguido. Territorialmente somos uma das maravilhas do Universo, mas ainda enfrentamos o fator humano e suas mazelas, mas é uma fase de várias décadas. Já fomos bem piores, muito piores. O durante e sua lentidão é que cria ansiedades, que só podem ser vencidas pela aceitação. Temos uma causa raiz e muitas gerações ainda a terão como cenário de fundo. Aguentemos.

 

Odilon Reinhardt  3.8.25